Conhecimento para salvar a Casa Comum, gerenciamento para salvar vidas. Desafios que vêm da COP-21

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18 Março 2016

Foto: Ricardo Machado/IHU

Pensar os desafios globais com relação as mudanças climáticas apenas do ponto de vista ambiental é insuficiente para encarar as inevitáveis mudanças em toda a dinâmica social. Isso passa pelas políticas públicas de investimento em energias renováveis, reflorestamento e chega à destinação de recursos para a agricultura e pecuária de baixo carbono. "As instituições financeiras têm que se readequar com relação às mudanças climáticas, não dá para continuarem a financiar projetos que tornem difícil e realização do Acordo de Paris", sustenta Carlos Rittl (foto), durante conferência realizada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na quinta-feira, 17-03-2016.

Para Rittl, "economia e ecologia precisam ser vistas paralelamente – conhecimento e gerenciamento de nossa casa comum, que exige uma melhor gestão. O sistema capitalista é cheio de falhas e precisamos migrar para novas alternativas", frisa. Carlos Rittl, Secretário Executivo do Observatório do Clima, apresentou duas conferências: Mudanças climáticas no Brasil e seus impactos sociais e econômicos, às 17h30; e A 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – COP 21. Avaliação e prospectivas, às 19h30. Os eventos integram a programação da 13ª Páscoa IHU - Ciclo de atividades. O cuidado de nossa Casa Comum.

Brasil

Em dezembro de 2015, Carlos Rittl esteve na 21ª Conferência do Clima – COP21, em Paris, e sua fala faz um atravessamento entre a realidade nacional e os acordos firmados entre os 187 países signatários. Ao analisar a importância do Brasil no cenário internacional de mudança climática, uma vez que é um dos dez países com maior emissão de gases do efeito estufa, Rittl chamou atenção para os desafios que devemos enfrentar.

Foto: Fernanda Forner/IHU

"Nosso país tem um papel importante no cenário de mudança climática. Com o que foi acordado em Paris, o Brasil se comprometeu em alcançar níveis de desmatamento zero, restaurar 15 milhões hectares nas pastagens, fazer a integração de lavoura-pecuária-floresta em 5 milhões de hectares e garantir 45% da matriz energética em fontes renováveis", pontua o conferencista.

Pré-sal

Na contramão dos interesses mercadológicos e do Estado que veem no pré-sal o ticket de acesso do Brasil as benesses do primeiro mundo, o acordo climático, que ainda deve ser ratificado no Brasil, coloca um freio na exploração intensiva. "Em algum momento vamos ter que eliminar nossas emissões de gases de efeito estufa. Em uma combinação de redução de emissões e aumento da resiliência, será que vamos ter que abrir mão do pré-sal? Talvez precisaremos abrir de uma parte da extração", avalia Rittl.

Foto: Fernanda Forner/IHU 

Com relação a instalação de hidrelétricas no Norte do Brasil, o pesquisador levanta, novamente, a importância de se levar em conta a questão climática no que diz respeito ao planejamento de investimentos. "Não adianta colocar uma hidrelétrica na Amazônia, que vai gerar um monte de danos às comunidades locais, e o clima dos próximos 30 anos ser totalmente diferente, diminuindo a potencialidade de geração de energia", critica. "Belo Monte está ligada a interesses políticos e econômicos, não cumpriu nenhuma das condicionantes e, tampouco, as medidas de mitigação dos impactos", complementa.

Ajustes amplos

Segundo Rittl, não é somente o governo federal que precisa debater o tema. "É fundamental que passemos a discutir como a gente recupera florestas para lidar com desafios com relação a água. A crise hídrica do sudeste deriva de nossa incompetência do uso do recurso e da escolha das áreas. Precisamos ver as áreas que são fundamentais de modo que tenhamos segurança hídrica", propõe.

Emergências Climáticas

Alguns dados apresentados na conferência climática mostram que o planeta ultrapassou alguns limites. "Em 2015 estivemos acima de 1 grau de aquecimento global médio. Em algumas regiões como o Ártico a media de aquecimento alcançou 23 graus acima da média. Os impactos do aquecimento global já estão presentes, não é algo para o futuro, sobretudo nas populações mais pobres", pondera. "Atualmente temos 40 cidades no RS que decretaram situação de emergência com chuvas e inundações. Embora não possamos fazer uma relação direta com o aquecimento global, a realidade, de aumento desse tipo de fenômeno, corresponde ao que os estudos apontam. No Brasil são 295 municípios que declararam estado de emergência", pontua.

Dados do Atlas Brasileiro de Desastres Naturais da Universidade Federal de Santa Catarina

Números

Segundo dados do Atlas Brasileiro de Desastres, entre 1991 e 2012, 127 milhões de pessoas no Brasil foram afetadas por mudanças climáticas. "A disseminação de epidemias é um efeito possível e provável das mudanças climáticas. Há a ocorrência de endemias em regiões que antes não ocorria. Os gastos com reconstrução de cidades e regiões foi de R$ 130 milhões em 2004 e de R$ 3 bilhões em 2010", compara Rittl. "Nossa chance de ultrapassar o aumento da temperatura média global em 3ºC é de 50%. O que isso pode significar em termos de saúde pública? Temos o avanço de incidência do Aedes aegytpi em regiões mais frias, a redução do volume de água para a geração de energia, perdas de áreas de cultura para feijão de 57% e de 19% para a soja, por exemplo. No pior dos cenários pode haver aumento da taxa de mortalidade de crianças e idosos de 7,5 vezes", complementa.

Gráfico de precipitação de chuvas por bioma. Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

 

Laudato Si'

"A encíclica do Papa foi importante para a discussão global em torno das mudanças climáticas, pois traz um apelo moral que foi replicado por líderes de outras religiões. Tivemos líderes judaicos, do Islã, e de igrejas evangélicas ajudando a capilarizar o tema e chegar a outras pessoas. Isso ajudou a tirar o tema das salas de negociação e trouxe um engajamento mais amplo sobre a agenda climática", avalia.

Síntese do acordo de Paris

Temperatura - Estabeleceu-se o limite máximo de aquecimento médio de até 1,5 ºC;
Financiamento – Até 2020  um fundo inerncional para mitigação do aquecimento global deve chegar a 100 bilhões de dólares;
Diferenciação – Todos os países signatários têm que contribuir para a redução do aquecimento global, mas a liderança deve ser dos países desenvolvidos;
Neutralidade de carbono – Toda emissã de gases do efeito estufa deve ser compensada por meio de sequestro de CO2, por exemplo, por meio do reflorestamento;
Mecanismos de revisão – A cada cinco anos os países devem atualizar as pretensoes de redução, que deve ser crescente;
Perdas e impactos presentes – É preciso levar em conta a vulnerabilidade de países que não têm nenhuma responabilidade efetiva no aquecimento global, como as ilhas do Caribe do Ásia, e o risco desses países serem extintos.

Implementações das decisões

Do ponto de vista prático, é preciso fazer a implementação das decisões. Isto significa que o acordo deverá ser encaminhado via Itamaraty para o Senado que escreverá um decreto solicitando ao Executivo a ratificação do documento. "Em 2018 vamos ter dois pontos a discutir: o que os países prometeram fazer e qual o impacto caso não o cumpram o acordado", ressalta o palestrante.

"Se agente conseguir entender que a agenda climática não é algo isolado, mas um caminho de desenvolvimento, poderemos encarar a transição para o desenvolvimento de baixo carbono como um esforço e não como um sacrifício. Basta visão estratégica", provoca. "Mais do qualquer outro país temos a chance de desenvolver os avanços ambientais com esforço, mas sem sacrifícios", avalia.

Quem é Carlos Rittl

Carlos Rittl é mestre e doutor em Biologia Tropical e Recursos Naturais. Foi coordenador do Greenpeace Brasil e atualmente é Secretário Executivo do Observatório do Clima, rede brasileira formada por ONGs e movimentos sociais.

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