O Papa Francisco no México. Análise dos textos e contextos da visita na perspectiva indígena

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Por: Jonas | 11 Março 2016

“Sem idealizar o mundo indígena que também tem suas contradições, é preciso reconhecer que neste setor existem melhores condições para que essas palavras do Papa [em sua visita ao México] tenham viabilidade na história. Porque aí se fez uma caminhada a nível civil e eclesiástico, nos últimos 60 anos, que foi se abrindo na contramão de outros modelos de sociedade e de Igreja. Esse caminho aberto, por onde transitou e transita a luta indígena, agora também pode contar com o aval do Papa, que não é pouca coisa nas circunstâncias atuais”, escreve o teólogo Eleazar López Hernández, descendente de uma família indígena zapoteca, em artigo publicado por Observatorio Eclesial, resultado de uma apresentação em uma Mesa de Análise "Balanço e Desafios da Visita do Papa Francisco ao México", 28-02-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Ficamos totalmente embebidos com a visita do Papa Francisco ao México

Não resta dúvida que os seis dias em que o Papa Francisco esteve no México nos deixaram impregnados de gestos, palavras e contextos concebidos pelo próprio Papa e pelos demais atores da Igreja e da sociedade mexicana, com cada um cuidando e arvorando seus interesses de classe ou suas bandeiras de luta para chamar a atenção e pedir o olhar e a benção do visitante. Após essa enorme chuvarada de presença papal, é preciso analisar com calma o que nos deixa para o cotidiano esse fato extraordinário que ultrapassou nossas possibilidades imediatas de avaliação séria e profunda.

Evidentemente, há muitas interpretações da visita papal, pois cada ator social, político e religioso, tocado de alguma forma por Francisco, tira suas próprias conclusões e acomoda as diferentes mensagens verbais ou gestuais produzidas pelo Papa dentro de seus esquemas de vida. Aqui, a contribuição que quero dar centra sua atenção especialmente nas implicações que o fato terá para as comunidades indígenas, dado que é o meu âmbito de ação e colaboração.

É o momento de sentarmos para tirar conclusões mais sérias da visita papal

Assim como toda chuva torrencial que caiu em Cidade do México, durante os últimos anos, esta chuvarada de presença papal será captada e aproveitada de diferente forma pelos setores sociais e eclesiais que interviram. E é previsível que só tirarão maior proveito aqueles que previamente contam com canais por onde façam circular o fluxo de água deixado por este acúmulo de palavras, gestos e silêncios do Papa Francisco.

A verdade é que se torna difícil enquadrar o Papa Francisco nos esquemas que para nós funcionaram com os dois pontífices que nos visitaram antes dele. Porque não só sai do tapete vermelho que lhe puseram para cumprimentar as pessoas, como também intencionalmente quer apresentar uma Igreja que sai do seu fechamento dentro de templos e espaços de culto para dialogar com as pessoas da rua e dos âmbitos civis. E tão só por esse atrevimento, ele vai além da prática pastoral comum de toda a Igreja, e particularmente da Igreja mexicana, cujos bispos em sua maioria levam um estilo de vida e uma prática pastoral muito distante do povo e de suas lutas reivindicativas. Como consequência, o que fez e disse o Papa no México contrasta muito com o que ordinariamente fazem nossos pastores, salvo honrosas exceções.

Precisamente um destes excepcionais pastores comprometidos com as lutas populares comentou, durante a visita, que Francisco, seguindo a parábola do semeador, lançou a semente de sua palavra por todos os terrenos mexicanos e em cada um o efeito será diferente, não pela falta de clareza ou contundência do mensageiro, mas, sim, pela diversidade de atitudes dos destinatários, cujo coração pode receber, rejeitar ou ficar indiferente diante das abordagens do Pontífice.

Os ‘ganones’ – como dizemos no México – parecem ser, como sempre, os “donos do poder e do dinheiro”, assim como eram chamados pelo mártir e santo das causas populares da América, Óscar Arnulfo Romero. Ao menos isso é o que eles acreditam; mas, na verdade, o terreno destas classes poderosas e dirigentes do país é o mais endurecido e, inclusive, refratário à palavra papal por causa de seus interesses e preocupações muito distantes da ética estimulada pelo Papa. Eles certamente não deixarão que o dito pelo Papa penetre em seu solo e rapidamente, com o passar dos dias ou outros fatores ideológicos, farão com que desapareça por completo e continuarão suas vidas praticamente sem nenhuma conversão ou mudança importante e, além disso, sentindo-se, agora, abençoados pelo Santo Padre. Contudo, não se pode descartar em absoluto que talvez alguns poucos sintam certo desejo de limitar suas ambições ou ao menos dialogá-las ou negociá-las – como pediu o Papa – com os que eles representam ou com aqueles que são os seus trabalhadores, dependentes ou subalternos, já que “é pior deixar o futuro nas mãos da corrupção, da selvageria e da falta de igualdade” (Mensagem aos empresários e trabalhadores).

Por outro lado, os setores médios, onde também estão as religiosas e os sacerdotes que acompanham o povo, junto com a maioria trabalhadora que é mestiça e vive com rendimentos estáveis, conquistados honestamente, possuem mais possibilidades de assumir a palavra do Papa e de efetivar em suas vidas. Talvez só será necessário retirar algumas pedras e espinhos de seu terreno para que a semente semeada por Francisco germine, cresça e dê frutos que resultem em favor deste mesmo setor e que o torne mais próximo das classes mais empobrecidas, para começar a fazer alianças para construir juntos esse México sem violências, descartes e discriminações.

No entanto, aqueles que estão em melhores condições de assumir vitalmente as contribuições do Papa são os que pertencem à classe mais pobre, discriminada e abandonada do país, onde se encontram os enfermos, os presos, os jovens e os indígenas com quem o Papa se reuniu. Eles - como ancestralmente faziam seus antepassados, que percebiam no ‘teúl’ ou estrangeiro que chegava o retorno de seu Deus Quetzalcóatl - viram no Papa um 'teopízcatl', ou seja, uma presença divina que veio em auxílio de suas necessidades para restaurar a harmonia do bem viver e conviver. Pela visão e atitude teológica que caracteriza os pobres do México, marcados agora pela espiritualidade guadalupana, na verdade, eles são os únicos que acreditam na transcendência dos fatos que marcam esta visita papal.

Contudo, além disso, entre estes pobres, os que resistem organizados em comunidades indígenas ou em processos concretos de luta pela vida já contam, desde antes da presença do Papa, com caminhos operativos por onde canalizar a energia dos momentos propícios – que nós, cristãos, chamamos de ‘kairós’ e os andinos de ‘pachakutik’ – como o gerado por Francisco com seu trajeto em grande parte do território nacional.

Francisco se encontrou com indígenas que estão na luta

No setor dos empobrecidos, a presença indígena se distingue por muitas razões. Em primeiro lugar, por ser, há séculos, o mais pobre, espoliado e maltratado e, por isso, encontra-se encurralado na periferia das periferias sociais do México. Mas, em segundo lugar, também porque são aqueles que longamente resistiram ao embate dos projetos dominantes que lhes foram impostos, sendo que aprenderam a se movimentar dentro da Besta, como diz o Apocalipse, e souberam sobreviver à grande tribulação, conservando suas flores que são suas verdades e suas concepções de vida que não guardam para eles próprios, mas que, assim como Juan Diego, buscam compartilhar com os demais membros da sociedade e da Igreja, para construir um México com justiça e dignidade para todos.

O Papa Francisco, mesmo quando não conhecia suficientemente esta realidade dos povos indígenas, percebeu muito rápido a riqueza que eles portam em suas culturas, sabedorias e práticas ancestrais. Um elemento fundamental dessa sabedoria indígena é o que o Papa retomou e lançou ao conjunto da sociedade e da Igreja em sua encíclica Laudato Si’: o cuidado com a mãe terra como casa comum da humanidade e matriz da vida que devemos cuidar e proteger.

Vir ao México para saudar a Moreninha do Tepeyac, sem se encontrar com Juan Diego e com os prediletos de Deus que são os pobres, seria uma contradição. A Virgem de Guadalupe só se compreende na totalidade ao lado daqueles que são os mensageiros dignos de toda confiança da Senhora do Céu, aqueles que assumem em sua vida o projeto de sociedade que ela apresenta: construir uma ‘teocátzin’, ou seja, uma digna casa de Deus e do povo, onde, como disse Ela, sejam escutados todos os lamentos, misérias, penas e dores do pobre e para ele se demonstre e dê todo o amor, compaixão, auxílio e defesa que merece. Isto foi muito bem captado por Francisco, por isso pôde dizer, já em sua chegada, que as duas principais riquezas com as quais se deve “pensar e projetar um futuro, um amanhã para o México”, são sua cultura e sabedoria ancestral e o capital humano majoritário de seus jovens.

Por isso, procurou por estes atores sociais. E reuniu-se com os indígenas colocados em pé dentro da sociedade e da Igreja mexicana, no dia 15 de fevereiro de 2016, em San Cristóbal de las Casas, lugar emblemático pela construção da Igreja autóctone, iniciada por Tatic Samuel e pelo levante zapatista de 1994. Estando com os indígenas, Francisco estimulou a sociedade mexicana a “fazer um exame de consciência e aprender a dizer: Perdão” aos indígenas, porque no passado e no presente, “muitas vezes de modo sistemático e estrutural, seus povos foram incompreendidos e excluídos da sociedade... seus valores, sua cultura e suas tradições foram considerados inferiores... foram despojados de suas terras” por causa do poder, do dinheiro e das leis do mercado.

Apesar das limitações colocadas por aqueles que se opõem à causa indígena, as irmãs e irmãos que conseguiram se aproximar do Papa descobriram que Francisco, ainda que tenha vindo de muito distante, pôs o coração “perto de nosso coração”, percebeu nossas flores e espinhos que nos aguilhoam; ouviu a “nossa alegria e nossos sofrimentos com as injustiças que padecemos, com a dor de nossos enfermos, com nossas crianças, jovens e anciãos, e com nossa esperança em Cristo ressuscitado”. Recebeu nossas propostas e nossa ação de graças “por ter chegado a nossa terra”, porque “ainda que muitas pessoas nos desprezem, você quis nos visitar” (Palavras indígenas ao Papa).

Nesse encontro, o Papa se envolveu com as vivências indígenas tradicionais de oração e até fez uma reflexão teológica como se faz nas línguas e esquemas próprios dos povos. Em resumo, nos indígenas fica a convicção de que o Papa os reafirmou na “certeza de que ‘o Criador não nos abandona, nunca recua em seu projeto de amor, não se arrepende de ter nos criado”. Ao final, também reabilitou o nosso principal companheiro de caminho, visitando a sepultura de Dom Samuel, tendo ao seu lado Tatic Raúl, que iria ser o sucessor. Por isso, “com nosso coração agradecido - literalmente cheio de flores -, dizemos: Tatic Francisco, muito obrigado!”.

Os indígenas não foram – como parece que aconteceu em outros lugares visitados – um tema a mais da problemática social mexicana sobre a qual o Papa reflete e, em seguida, convoca a Igreja local a se comprometer. Os indígenas, independentemente da vinda do Papa, desde antes já eram interlocutores forjados em uma longa luta de resistência. E com eles, Francisco quis pessoalmente se reunir desde que soube da caminhada deste setor do povo e da Igreja mártir de San Cristóbal de las Casas. Segundo relatam os bispos do lugar, “foi uma decisão sua, conforme disse àqueles que comeram com ele. Disse-lhes que havia escutado muitas coisas sobre nossa diocese e que queria vir pessoalmente conhecer mais de perto nossa realidade” (Carta dos Bispos de San Cristóbal, 20 de fevereiro de 2016).

No entanto, como era de se esperar, o encontro não aconteceu sem espinhos e contrariedades. Os bispos da Diocese de San Cristóbal acabam de tornar público que “continua doendo em nosso coração o fato de que muitos de vocês, indígenas e mestiços, de perto e de longe, não puderam entrar no lugar onde foi celebrada a Missa, apesar de ter chegado muito cedo, de ter o seu ingresso e de ter feito um grande esforço para chegar. Não sabemos se foi só desorganização do Estado Maior Presidencial, de quem dependeu o ingresso, ou se houve outras intenções perversas e excludentes. Foi injusto, desumano, inexplicável e muito doloroso o que aconteceu. Isto não dependeu da diocese, mas, sim, das autoridades civis federais” (ibidem).

O presbitério dessa diocese ampliou a informação ao escrever em uma carta aberta: “Com indignação queremos destacar que também houve tristeza, raiva, irritação, aversão, lágrimas e frustração porque não deixaram milhares de irmãs e irmãos indígenas e mestiços locais e de fora, sacerdotes, leigos, leigas e religiosas participar de tão aguardado encontro”. E destacam diretamente: “o governo com suas polícias armadas bloquearam a passagem de milhares de peregrinos que tinham chegado um dia antes e que estavam em San Cristóbal com muitas horas de antecedência, não lhes permitindo o acesso ao evento”. E se questionam: É possível que o governo tenha desejado impedir que houvesse êxito neste encontro e festa? É possível que o governo mexicano tenha desejado enlamear a caminhada da Diocese de San Cristóbal? E concluem: “Lamentamos que o governo tenha causado este sofrimento, indignação e irritação. Com isto manifesta que a presença de nossos irmãos e irmãs indígenas o incomoda, atrapalha este sistema de governo” (Carta do Presbitério da Diocese de San Cristóbal de las Casas, 20 de fevereiro de 2016).

De maneira tal que há fundamentos para suspeitar que tenha ocorrido intervenções mal-intencionadas e até perversas atribuíveis ao governo federal e estatal, unidos aos poderosos locais, que implementaram deliberadamente medidas de controle para calar a voz indígena e diminuir, a nível nacional e internacional, a importância de seu encontro com o Papa.

No entanto, ainda que esta ingerência prepotente nos atos do Papa, não só em Chiapas como também nos demais lugares visitados, tenha conseguido encher com antecipação ou com acessos preferenciais os espaços principais com pessoas ligadas aos seus interesses e tenha impedido o acesso de milhares de indígenas, o encontro aconteceu e os frutos aguardados serão muitos, pois as comunidades indígenas, como já foi dito, têm como captar em suas cisternas antigas e modernas o fluxo de vida impulsionado pela presença papal. Por isso, os bispos de San Cristóbal podem afirmar: “a recente visita do Papa Francisco em nossa diocese foi uma graça da misericórdia de nosso Deus Pai, que quer estar perto de suas filhas e filhos, para nos dizer que não estamos sós, que Ele nos ama e que a Igreja quer ser e estar junto daqueles que mais o necessitam” (carta já citada).

Há razões para não estar plenamente satisfeitos com a condução da visita papal

Desde que foi anunciada a visita do Papa Francisco, as expectativas dos lutadores sociais e eclesiais foram muito grandes e algumas, talvez, além das possibilidades reais do Santo Padre poder atender. Parece que cada movimento ou organização não governamental queria que a sua causa concreta ou sua luta fosse, especificamente, mencionada por Francisco. E ao não agir assim, seus impulsionadores se sentiram insatisfeitos ou desapontados e, consequentemente, tentados a desqualificar completamente a visita papal.

Certamente, o Papa Francisco não tocou em todos os temas e assuntos da realidade mexicana. Só abordou um pedaço da realidade que para ele e para os organizadores eram suficientemente significativas. Aqui, não falou dos 43 desaparecidos de Ayotzinapa, nem da pedofilia clerical, nem do lugar das mulheres na Igreja. Seguramente, como destacam alguns, a forma como foi recebido e tratado pelos políticos, mais como Chefe de Estado do Vaticano do que como líder religioso da Igreja Católica, limitou-o a pronunciamentos muito amplos e genéricos, que falaram do pecado, mas procuraram não apontar abertamente o pecador para não romper os protocolos estabelecidos na relação entre estados soberanos. O fato de ter destinado tanto tempo e considerações aos poderosos da política e do dinheiro incomodou a não poucos lutadores sociais, que perceberam nisto a incongruência entre as palavras papais e a descarada manipulação que os poderosos queriam fazer de sua presença com eles, para mostrar ao povo que são abençoados por Deus e que, consequentemente, não se deveria duvidar de suas boas ações e intenções. Não se pode deixar de lado esta real tensão que indiscutivelmente condicionou e até afetou a visita de Francisco.

A mensagem papal aos poderosos foi claramente profética, sem romper os protocolos

Pode-se afirmar que, apesar das estreitas margens impostas pelas razões de estado, as palavras do Papa se mantiveram na linha profética de suas concepções previamente conhecidas. Não é verdade que a classe poderosa e política do México manipulou a viagem de acordo com seu interesse. Mais ainda, é possível argumentar que junto a cada grupo humano que interagiu, bateu o prego, apelando, muitas vezes, às exigências da ética do bem comum e outras vezes ao Evangelho de Jesus ou à doutrina social da Igreja. Por isso, aos poderosos pôde dizer suas verdades, desde o início, de maneira suave e até poética, como aprendeu com seu pai Santo Inácio, ou seja, entrando com a onda deles e saindo com a sua, que é a de Cristo.

Ao examinar as palavras do Papa, conclui-se que aos políticos, empresários e bispos distantes do povo lançou palavras que nos recordam as de Jesus a respeito das autoridades religiosas e civis de seu tempo. A eles, Francisco dirigiu as admoestações mais duras e exigentes. Outra coisa é o fato que eles não tenham ouvidos para ouvir e para efetivar em suas vidas essas abordagens do Papa. Por isso, os analistas críticos duvidam que os poderosos queiram ou possam fazer mudanças importantes em sua vida e na condução do país a partir da mensagem de Francisco.

Aos pobres dirigiu suas melhores palavras e gestos simbólicos

As crianças, jovens, doentes e presos foram aqueles a quem mais acolheu, abraçou e animou. Para cada um foi oferecendo doses adequadas da ternura e misericórdia de Deus, não para deixá-los imobilizados, mas, ao contrário, para animá-los a continuar sonhando e lutando por tornar realidade esses sonhos. Nós, indígenas, fomos os mais privilegiados nesta visita, apesar das más intervenções do poder, denunciadas pela Diocese de San Cristóbal. A todos, Francisco entregou palavras de consolo e de esperança ativa. Animou-nos a continuar sonhando e lutando pelo futuro que queremos para nossa pátria, sem nunca nos resignar.

Análise do encontro com os povos indígenas

Em primeiro lugar, é preciso destacar que a reunião com os indígenas não foi uma agenda imposta ao Papa. Pelo contrário, em 2013, após conhecer a caminhada nesta diocese, pela boca dos bispos de San Cristóbal de las Casas, ele assumiu que, caso visitasse o México, além de se encontrar com a Moreninha do Tepeyac, seria indispensável o encontro com os povos indígenas, em Chiapas. Por isso, na contramão do desejo dos poderosos da sociedade e da Igreja mexicana, que o desaconselharam por considerar muito complicado, Francisco decidiu ir a San Cristóbal de las Casas e realizar os melhores gestos simbólicos de sua visita. Com sua presença estagnou feridas causadas pela incompreensão e as acusações injustas dirigidas contra esta Igreja profética e de mártires. Com mais gestos que palavras, o Papa reabilitou aqueles que tornaram possível esta igreja, ao rezar em frente à sepultura de Tatic Samuel, tendo ao lado Dom Raúl Vera, a quem - como preço a pagar pela renovação da relação Igreja-Estado -, foi impossibilitado de ser o sucessor de Dom Samuel, quando tinha direito a isso por ser bispo coadjutor.

A homilia do Papa para os indígenas seguiu a forma como fazemos atualmente a teologia indígena cristã. Começou utilizando uma das línguas maias do lugar para introduzir um texto bíblico sobre “a lei do Senhor”, lei que ajudou o povo de Deus a viver na liberdade para a qual haviam sido chamados. Essa é a experiência do povo hebreu, mas imediatamente o Papa a relacionou com a experiência e a “sabedoria presente nestas terras desde os tempos longínquos”. E para mostrar esta coincidência utiliza um texto do livro sagrado dos maias, o Popol Vuh, onde, assim como na Bíblia, “há um anseio de viver na liberdade, há um anseio que tem o sabor da terra prometida, onde a opressão, o abuso e a degradação não sejam moeda corrente”. A argumentação de Francisco é a mesma que usamos no diálogo inter-religioso, reconhecendo que: “No coração do homem e na memória de muitos povos está inscrito o anseio de uma terra, de um tempo onde a desvalorização seja superada pela fraternidade, a injustiça seja vencida pela solidariedade e a violência seja calada pela paz”.

No fundo do pensamento papal se percebe a convicção de que os povos indígenas já viviam, desde antigamente, o que a Bíblia aponta e, nesse sentido, desde antes também são povo de Deus. Por isso, em sua reflexão, Francisco exalta a contribuição indígena para o restante da sociedade e da Igreja: “Vocês têm muito a nos ensinar. Seus povos, como reconheceram os bispos da América Latina, sabem se relacionar com a natureza, que vocês respeitam como ‘fonte de alimento, casa comum e altar do compartir humano’ (Aparecida, 472)”. E, mais adiante, completa a reflexão: “O mundo de hoje, preso ao pragmatismo, precisa reaprender o valor da gratuidade” que ainda existe nas comunidades nativas. Em síntese: o Papa Francisco, com sua visita a Chiapas, reconhece e reivindica a luta indígena dentro da sociedade e da Igreja.

O que vem agora?

O que acontecerá com as mensagens do Papa ao México? Com o que ficaremos para reorientar nossa vida? Isto já não é responsabilidade do Papa, mas, sim, de nós mexicanos. O Papa já cumpriu sua tarefa aqui. Como mensageiro da paz já espalhou a semente de Deus por todos os lados. Depende de nós que ela germine, cresça e dê fruto. Os poderosos civis e eclesiásticos dificilmente vão tentar mudar sua perspectiva ideológica e, certamente, muito rápido, esquecerão as mensagens papais. São os demais setores da sociedade e da Igreja mexicana, a classe média e trabalhadora e, sobretudo, os leigos que tomarão em suas mãos as mensagens papais e trabalharão para efetivar em suas vidas esses ideais.

E, sem idealizar o mundo indígena que também tem suas contradições, é preciso reconhecer que neste setor existem melhores condições para que essas palavras do Papa tenham viabilidade na história. Porque aí se fez uma caminhada a nível civil e eclesiástico, nos últimos 60 anos, que foi se abrindo na contramão de outros modelos de sociedade e de Igreja. Esse caminho aberto, por onde transitou e transita a luta indígena, agora também pode contar com o aval do Papa, que não é pouca coisa nas circunstâncias atuais.

Por isso, as palavras de Francisco, ao se despedir do México, podem ser a síntese do que podemos esperar para o futuro imediato: “A noite pode nos parecer enorme e muito obscura, mas nestes dias pude constatar que neste povo existem muitas luzes que anunciam a esperança. Pude ver em muitos de seus testemunhos, em seus rostos, a presença de Deus que segue caminhando nesta terra, guiando-os e sustentando-os na esperança. Muitos homens e mulheres, com seu esforço de cada dia, tornam possível que esta sociedade mexicana não fique no escuro. Muitos homens e mulheres, que estavam nas ruas quando eu passava, levantavam seus filhos, mostravam-me. São o futuro do México, vamos cuidar deles, amá-los. Esses pequenos são profetas do amanhã, são o sinal de um novo amanhecer e lhes garanto que por aí, em algum momento, sentia vontade de chorar ao ver tanta esperança em um povo tão sofrido” (Discurso de despedida em Ciudad Juárez).

Essa luta pela vida do povo pobre do México é o que continua em pé, após a visita do Papa Francisco! Com sua benção e, sobretudo, com nosso compromisso inabalável, seguirá ativa a esperança para que logo chegue esse novo amanhecer do México, apontado pelo próprio Papa “como um novo horizonte de possibilidade que é, inevitavelmente, portador de justiça e de paz” (Discurso no Palácio Nacional).

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