"Quem aconselhou erradamente o Papa?". Semanário da Arquidiocese da Cidade do México não concorda com as críticas de Francisco aos bispos mexicanos

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10 Março 2016

O semanário da Arquidiocese da Cidade do México, "Desde a fé", órgão oficial assinado pelo arcebispo, o cardeal Norberto Rivera, conclui seu editorial de domingo (Um episcopado à altura) com estas duas perguntas: "Será que as palavras improvisadas do Santo Padre responderiam a um mau conselho de alguém próximo a ele? Quem aconselhou mal o Papa?".

A reportagem é de Luis Badilla, publicada por Tierras de América, 08-03-2016. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

No entanto, o que mais irritou o editorialista, na realidade, foram estas palavras do Papa Francisco:

"A missão é vasta e leva-la adiante requer vários caminhos. E, com mais insistência, exorto-vos a conservar a comunhão e unidade entre vocês. Isto é essencial irmãos, isso não está no texto, mas me veio à mente agora: se tiverem que lutar, então lutem, se tiverem coisas a dizer, digam-nas, mas como homens, na cara, e como homens de Deus, que depois vão rezar juntos, para discernir juntos e se cruzarem a linha, peçam perdão, mas mantenham a unidade do corpo episcopal. A comunhão é a forma vital da Igreja e a unidade dos seus pastores dá provas de sua veracidade. O México, e sua vasta e multiforme Igreja, precisam de servidores Episcopais e guardiões da unidade construída sobre a Palavra do Senhor, alimentado por seu Corpo e guiada por seu Espírito, que é a respiração vital da Igreja".

Vamos por partes para compreender melhor e, sobretudo para compreender quais seriam os ‘’maus conselhos’’ que havia escutado o Papa Francisco.

1. O editorial foi escrito em referência ao discurso que o Santo Padre dirigiu aos bispos mexicanos reunidos na Catedral em 13 de fevereiro passado. É o já famoso discurso "quatro olhos", inspirado pelo olhar da Virgem de Guadalupe. O discurso do Papa é dividido em quatro partes: Um olhar de ternura, Um olhar capaz de tecer, Um olhar atento e próximo, não adormecido, e Um olhar de conjunto e de unidade.

2. O Papa Francisco em um determinado momento de suas reflexões disse: "Não são necessários ‘príncipes’, mas uma comunidade de testemunhas do Senhor. Cristo é a única luz; é o manancial de água viva; de sua respiração sai o Espírito, que exibe as velas do barco eclesial. Em Cristo glorificado, que as pessoas deste povo amam honrar como rei, acendem juntos a luz, deleitam-se em sua presença que não se extingue; respiram profundamente o bom ar do seu Espírito. Cabe a vocês semear a Cristo sobre o território, ter acesa sua luz humilde, que clareia sem ofuscar, garantir que as águas saciem a sede de seu povo; estender as velas para que seja o sopro do Espírito quem as desdobra e não se encalhe o barco da Igreja no México".

3. O Papa terminou com estas palavras: "Queridos irmãos, o Papa está seguro de que o México e a sua Igreja chegarão no tempo ao compromisso consigo mesmos, com a história, com Deus. Talvez alguma pedra no caminho atrase a caminhada, e canse-a do trajeto que exigirá alguma parada, mas nunca será suficiente para fazê-la perder a meta. Pois pode chegar tarde quem tem uma mãe que o espera? Quem continuamente pode sentir ressoar em seus corações ‘não estou aqui, eu, que sou sua mãe?’ Obrigado”.

4. Há também outras passagens do discurso do Papa aos bispos mexicanos que os redatores da nota editorial não parecem ter compreendido bem.

– “Convido-vos a partir novamente desta necessidade de colo que proclama a alma de vosso posso”.

– "Reclinem-se então, com delicadeza e respeito, sobre a alma profunda de seu povo, escrutem com atenção e decifrem sua face misteriosa. (...) Sejam, portanto, bispos de um olhar limpo, de alma transparente, de rosto luminoso. Não tenham medo da transparência. A Igreja não precisa do escuro para trabalhar. Vigiem para que seus olhos não sejam cobertos pelas sombras da névoa do mundanismo; não se deixem corromper pelo materialismo trivial nem pelas ilusões sedutoras de acordos debaixo da mesa; não depositem a sua confiança nos ‘carros e cavalos’ dos faraós atuais, porque a nossa força é a ‘coluna de fogo’ que rompe dividindo em dois as ondas do mar, sem grande rumor (ver Êxodo 14,24-25)".

– "Nos olhos de vocês, o povo mexicano têm o direito de encontrar vestígios de quem ‘tem visto o Senhor’ (cf. Jo 20,25), dos quais estiveram com Deus".

– "Peço-lhes, por favor, não subestimem o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para os jovens e para toda a sociedade mexicana, incluindo a Igreja".

– "A proporção do fenômeno, a complexidade de suas causas, a imensidade de sua extensão, como metástase que devora, a gravidade da violência que desintegra e suas desequilibras conexões, não permitem que nós, pastores da Igreja, nos refugiemos em convicções genéricas, mas requerem uma coragem profética e um sério e qualificado projeto pastoral para contribuir, gradualmente, a entrelaçar aquela delicada rede humana, sem a qual seríamos todos desde o início derrotados por tal ameaça insidiosa. Somente começado pelas famílias; chegando cada vez mais perto e abraçando a periferia humana e existencial dos territórios desolados das nossas cidades; envolvendo as comunidades paroquiais, escolas, instituições comunitárias, comunidades políticas, estruturas de segurança; somente assim então se poderá libertar totalmente das águas em que, lamentavelmente, muitas vidas se afogam, seja a vida de alguém quem morre como vítima, seja a de quem diante de Deus terá sempre as mãos manchadas de sangue, mesmo que tenha os bolsos cheios de dinheiro desprezível e a consciência anestesiada".

– "Sejam, portanto, bispos capazes de imitar essa liberdade de Deus escolhendo quem é humilde para fazer visível a majestade de seu rosto e copiar esta paciência divina em tecer, com o fio fino da humanidade que vocês encontrarem, esse novo homem que seu país espera. Não se deixem levar pela busca vã de mudar de povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para mudá-lo".

– "Um olhar de delicadeza singular peço-lhes para os povos indígenas, para eles e suas fascinantes e não poucas vezes massacrados culturas. O México precisa de suas raízes nativas americanas não se encontrar em um enigma sem solução. Os povos indígenas do México ainda esperam que se reconheça efetivamente a riqueza da sua contribuição e a fecundidade da sua presença, para herdar essa identidade que os torna uma só nação e não somente uma entre outras".

– “Para outros, também a Igreja no México estaria condenada a escolher entre sofrer a inferioridade na qual foi relegada em alguns períodos de sua história, como quando sua voz foi silenciada e buscou-se amputar sua presença, ou aventurar-se nos fundamentalismos para voltar a ter certezas provisórias, esquecendo-se de ter aninhada em seu coração a sede do Absoluto e ser chamada em Cristo a reunir a todos e não somente uma parte (cf. Lumen gentium, 1, 1)”.

– “Que os seus olhares, repousados sempre e somente em Cristo, sejam capazes de contribuir à unidade de seu povo; de favorecer a reconciliação de suas diferenças e a integração de suas diversidades; de promover a solução de seus problemas endógenos; de lembrar o alto valor que o México pode alcançar se aprender a pertencer a si próprio antes do que aos outros; de ajudar a encontrar soluções compartilhadas e sustentáveis para suas misérias, de motivar a toda nação a não se contentar com menos do que se espera do modo mexicano de habitar o mundo”.

– “Convido-lhes a se cansarem sem medo na tarefa de evangelizar e de aprofundar a fé mediante uma mistagogia que saiba enriquecer a religiosidade popular de seu povo. Nosso tempo requer atenção pastoral às pessoas e aos grupos, que esperam poder sair ao encontro do Cristo vivo. Somente uma corajosa conversão pastoral, e ressalto, conversão pastoral de nossas comunidades, pode buscar, gerar e nutrir aos atuais discípulos de Jesus (cf. Documento de Aparecida, 226, 368, 370). Portanto, é necessário para nós, pastores, superar a tentação da distância – e deixo a cada um de vocês o catálogo das distâncias que podem existir nesta conferência episcopal – do clericalismo, da frieza e da indiferença, do comportamento triunfal e da auto-referência. Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar em seu rosto, que a proximidade e a condescendência – agachar-se, aproximar-se – podem mais que a força, que qualquer tipo de força”.

– "O episcopado mexicano realizou notáveis passos nestes anos conciliares; aumentou seus membros; promoveu uma permanente formação, contínua e qualificada; o ambiente fraterno não faltou; o espírito de colegialidade cresceu; as intervenções pastorais influenciaram sobre suas igrejas e sobre a consciência nacional; os trabalhos pastorais compartilhados foram frutíferos nos campos essenciais da missão eclesial como a família, as vocações e a presença social".

– "Enquanto nós nos alegramos no caminho destes anos, eu peço-lhes que não se deixem desanimar pelas dificuldades e de não salvarem todos os esforços possíveis para promover, entre vocês e suas dioceses, o zelo missionário, sobre todas as partes mais necessitadas do único corpo da Igreja mexicana. Redescobrir que a Igreja é missão é essencial para o seu futuro, porque apenas o ‘entusiasmo, o deslumbramento convencido’ dos evangelizadores têm a força de espalhar-se. Peço-lhes, especialmente, para cuidar da formação e preparação dos leigos, superando todas as formas de clericalismo e envolvendo-os ativamente na missão da Igreja, sobretudo o fazer presente, com o testemunho da própria vida, o evangelho de Cristo no mundo".

Nota da IHU On-Line:

  • A íntegra do discurso do Papa Francisco aos bispos mexicanos, em espanhol, pode ser visto e ouvido aqui

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