Uma Teologia da Libertação asiática

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08 Março 2016

Para os asiáticos que não fizeram os seus estudos de pós-graduação em Teologia em universidades pontifícias romanas na década posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965), o livro de Aloysius Pieris, primeiramente publicado em alemão (“Theologie der Befreiung in Asien: Christentum im Kontext der Armut und der Religionen”, Herder, 1986) e dois anos mais tarde em inglês (“An Asian Theology of Liberation”, Orbis Books, 1988), foi, para mim pelo menos, uma surpresa intelectual assombrosa.

O comentário é de Peter Phan, professor da Cátedra Ellacuría de Pensamento Social Católico na Universidade de Georgetown, Washington, DC, publicada  por National Catholic Reporter, 07-03-2016. O teólogo vietnamita, radicado nos EUA, escreve uma resenha do livro An Asian Theology of Liberation”, de Aloysius Pieris, SJ, (Orbis Books, 1988). A  A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando cursei Teologia no Pontifício Ateneu Salesiano, posteriormente recebendo o nome de Universitas Pontificia Salesiana, em Roma entre 1968 e 1972, a reforma dos estudos teológicos requeridos pelo Concílio estava começando a ser implementada. No entanto, pouquíssimos professores, que haviam sido formados dentro do tomismo neoescolástico, estavam dispostos ou eram capazes de embarcar nessa jornada.

Todas as aulas eram dadas no formato de palestras; os alunos recebiam cópias mimeografadas das palestras dos professores, o que fazia desnecessária a presença em aula; e os materiais para a única prova durante o curso – um exame oral de uma hora e meia ao final do semestre – baseava-se nesta dispensa, como eram chamados tais textos. O objetivo primordial do currículo teológico era inculcar as verdades da fé conforme eram ensinadas pela Bíblia e a tradição, e os alunos eram avaliados de acordo com as suas capacidades de expor com precisão tais verdades.

Para o grau de licenza, o que então exigia quatro anos de estudos em tempo integral e qualificava o detentor dele a lecionar em um seminário ou escola pontifícia, requeriam-se um exame geral escrito sobre uma centena de “teses”, apropriadamente chamadas de universis (acerca de tudo), e uma tesina (uma pequena tese). Não se incentivavam a criatividade ou o pensamento crítico; a ortodoxia e a fidelidade ao magistério eram altamente prezadas.

Em termos de orientação teológica, o currículo baseava-se grandemente no ensinamento do magistério hierárquico, papal e conciliar. Raramente eram lidos os escritos originais de Agostinho e Aquino; em vez disso, os alunos aprendiam sobre as teologias destes autores através dos resumos fornecidos pelos professores. Entre os teólogos contemporâneos, apenas eram considerados autores europeus, tais como Henri de Lubac, Jean Daniélou, Yves Congar, Marie-Dominique Chenu, Karl Rahner, Edward Schillebeeckx e Hans Küng (embora, curiosamente, esta lista não inclua Hans Urs von Balthasar nem Joseph Ratzinger).

Muito raro se mencionou, se é que alguma vez isso aconteceu, a teologia latino-americana, mesmo depois da marcante conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano em Medellín, Colômbia, em 1968, e do surgimento da Teologia da Libertação. Nem é preciso dizer que os teólogos africanos e asiáticos nem sequer aparecem no radar teológico. Em suma, havia somente um tipo de teologia, a saber: a europeia, e esta era considerada como contextualmente livre, culturalmente universal e permanentemente válida.

Apresento este pano de fundo teológico para auxiliar os leitores a compreender por que o meu encontro com o livro de Pieris constituiu uma experiência que mudou o meu pensamento e a minha vida. Logo depois de completar a minha licenza em 1972, voltei ao Vietnã do Sul, e logo também se tornou dolorosamente claro a mim que a teologia que eu havia assimilado em Roma era inútil ao meu ministério, especialmente como capelão da única prisão feminina no país à época. Dado que não havia oportunidades nem recursos (tampouco, devo admitir, interesse) pela pesquisa teológica, eu não pude acompanhar os desenvolvimentos teológicos na Ásia. Depois que vim para os Estados Unidos como refugiado em 1975, deixei o ministério pastoral para lecionar teologia, francamente não como uma busca mística de verdades eternas fundamentais, mas como um emprego para sustentar minha família.

Os meus interesses iniciais de pesquisa acadêmica eram a teologia ortodoxa do ícone, a patrística e a teologia de Karl Rahner. Mais tarde, no transcorrer do ensino e da pesquisa, familiarizei-me primeiro com a Teologia da Libertação latino-americana e, em seguida, com a Teologia da Libertação asiática. Nesse segundo caso, comecei a pesquisar a história das missões cristãs na Ásia e das teologias asiáticas, especialmente os ensinamentos da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas. Foi aí então que “descobri” Aloysius Pieris e o meu horizonte teológico se expandiu, com Pieris servindo como inspiração e guia.

Primeiramente li “An Asian Theology of Liberation” em 1991 e, em seguida, “Love Meets Wisdom: A Christian Experience of Buddhism” (Orbis Books, 1988), e “Fire & Water: Basic Issues in Asian Buddhism and Christianity” (Orbis Books, 1996).

Como amor à primeira vista foi, no entanto, a leitura do primeiro livro de Pieris, “An Asian Liberation Theology”, que teve um impacto duradouro e profundo em minha compreensão e prática teológica. O título alemão desta obra expressa os quatro aspectos da influência de Pieris sobre mim melhor do que a sua versão em inglês: Befreiung (libertação), Christentum im Kontext (cristianismo em contexto), Armut (pobreza) e Religionen (religiões).

Primeiro, a libertação (e não a contemplação intelectual) é o objetivo da teologia.

Segundo, o contexto da Igreja local determina o método e os temas da teologia.

Terceiro, o contexto social do cristianismo asiático é a pobreza sistêmica. Quarto, o contexto religioso do cristianismo asiático é a pluralidade, o pluralismo religioso. Curiosamente, o livro “An Asian Theology of Liberation” não é uma monografia planejada organicamente. Em vez disso, é uma coleção de nove artigos previamente publicados, resultando, felizmente, em um volume elegante – com apenas 139 páginas – e altamente legível. Os ensaios estão agrupados em torno do tema central, a saber: a libertação, e foram divididos em três partes: “Pobreza e Libertação”, “Religião e Pobreza” e “Teologia da Libertação na Ásia”. É evidente que a preocupação nuclear da teologia asiática é a libertação, e as duas áreas nas quais ela será encontrada são a pobreza e a religião.

A primeira lição que aprendi com Pieris, tão óbvia à primeira vista que quase sequer merece menção, é que a teologia é inescapavelmente dependente do contexto. Mas imaginemos o quão desestabilizador é esta simples verdade para aqueles, como eu, e especialmente aos que têm interesses em defendê-la, formados na teologia romana, verdade que se apresenta – pelo menos, implicitamente – como contextualmente livre, culturalmente universal e permanentemente válida. É preciso humildade e honestidade para reconhecer a situacionalidade essencial – leia-se: limitação, parcialidade, preconceito, incompletude, provisoriedade – de todas as teologias, incluindo o autoproclamado ensino autorizado (“autêntico”) do “magistério ordinário” e mesmo das definições ex cathedra papais, os pronunciamentos infalíveis dos concílios ecumênicos e os “ensinamentos definitivos” do “magistério episcopal universal”.

O reconhecimento da contextualidade essencial de todos os ensinamentos e teologias católicos – Christentum im Kontext – rejeita tanto a “ditadura do relativismo” quanto a “ditadura do absolutismo”, que são primos ideológicos não reconhecidos. De um lado, ao reconhecer que a verdade de alguém é apenas um modo de se conhecer o que é verdadeiro, rejeita-se a alegação relativista de que inexiste verdade como autocontraditória, desde que, pelo menos, as assuma a proposição de que “não existe a verdade” como categoricamente verdadeira. De outro lado, reconhecer que a verdade de alguém é apenas um modo entre muitos de se saber o que é verdadeiro exige o abandono da tentação quase irresistível do absolutismo, imperialismo e colonialismo intelectual ao se afirmar que a “verdade” de um é a única verdade.

Se o contexto do cristianismo especifica a abordagem e os temas desta teologia, como seria possível descobrir o contexto distintivo da Ásia? Aqui reside a segunda lição que aprendi com Pieris, a saber: a necessidade da análise sociopolítico-econômica para a teologia. É claro que os teólogos latino-americanos da libertação há muito têm praticado este tipo de análise social a fim de desmascarar as causas originárias da pobreza sistêmica em seu continente. Porém a insistência de Pieris na sua necessidade para a teologia é altamente significativa, e assim o é por duas razões.

Primeiro, o emprego da análise social na Teologia da Libertação latino-americana foi condenado pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em sua Instrução “Sobre alguns aspectos Teologia da Libertação” (1984) como sendo de proveniência marxista, e por isso em contrariedade com a fé cristã. Que Pieris insista na sua necessidade para a teologia asiática é um desafio direto à compreensão de Ratzinger sobre como se deveria fazer teologia.

Segundo, Pieris, embora admire a Teologia da Libertação latino-americana, sustenta que a análise social é necessária porém insuficiente para a Ásia. Dada a religiosidade desse continente, exige-se uma outra análise a fim de se entender o papel indispensável da religião, tanto a religião “cósmica” quanto a “metacósmica” – isto é, popular e organizada – para a libertação.

O terceiro insight que aprendi com Pieris é a sua caracterização do contexto asiático como marcado pela pobreza generalizada e por uma religiosidade profunda. É claro que a Ásia é extremamente complexa – até mesmo o uso do termo “Ásia” é contestado – e qualquer descrição abreviada dela pode ser facilmente questionada. Mas, para fins teológicos, o pequeno esboço feito pelo autor sobre o contexto desse continente é tão bom quanto qualquer outro.

O que é mais significativo ainda é que, a partir desta característica dupla, ele deriva a também dupla tarefa para o cristianismo asiático e, por extensão, para os teólogos daqui, que é o que chama de o “duplo batismo”, a saber: “o do Calvário da pobreza asiática” e “o do Jordão da religiosidade asiática”. Conforme mencionado acima, este duplo batismo forma o núcleo de “An Asian Theology of Liberation”. Sem este batismo simultâneo junto à pobreza e à religiosidade, não é possível haver absolutamente nenhuma teologia asiática da libertação e, além disso – e esta afirmação de Pieris é impressionante –, não é possível se ter, sic et simpliciter [pura e simplesmente], uma teologia cristã.

Observemos que Pieris insiste na necessidade de ambos os batismos ao mesmo tempo e afirma que este duplo batismo constitui a “experiência primordial de libertação” dada por Jesus de Nazaré, que é a “memória coletiva” (termo de Pieris para Bíblia e a Tradição), que se interpõe através dos tempos e que os teólogos devem constantemente reinterpretá-los para os seus contemporâneos em diálogo com a religiosidade popular (“cósmica”), com a memória coletiva de outras religiões (“metacósmica”), em prol da libertação. O batismo no Calvário da pobreza realiza-se ao ser-se voluntariamente pobre (“a opção por ser pobre”) e ao trabalhar pelos pobres (“a opção pelos pobres”).

Sem o primeiro, a teologia não é outra coisa senão um exercício acadêmico para a classe elitizada e desocupada; sem o segundo, a teologia não é outra coisa senão uma theoria (“contemplação”) irrelevante e estéril. O batismo no Jordão da religiosidade requer que a teologia na Ásia seja feita em colaboração e em diálogo com os fiéis de outras religiões a fim de encontrar “homólogos” (não conceitos paralelos, muito menos idênticos) para uma linguagem religiosa comum em que se possa manifestar a experiência primordial de libertação.

Para Pieris, a teologia não é principalmente fides quaerens intellectum (fé na busca do entendimento), definição favorita de teologia no Ocidente, mas sim fides promovens justitiam (a fé que promove justiça) ou fides promovens liberationem (a fé que promove a libertação). Libertação de quem e do quê? Para o autor, a libertação dos ricos de suas riquezas (desprendimento sem o qual, através da pobreza voluntária, é impossível entrar no Reino de Deus); a libertação dos pobres de sua condição de pobreza forçada (que é uma opressão escravizante); e a libertação de ambos da “ganância” (a adoração do Mamom).

Devo confessar que é difícil fazer teologia da forma como Pieris recomenda e faz. Difícil em dois sentidos. Primeiro, o rigor acadêmico. Pieris nunca se cansa de insistir na necessidade de domínio das ferramentas eruditas e de habilidades linguísticas para se fazer teologia propriamente. Ele conduz via exemplo: além de ser fluente em várias línguas europeias e asiáticas, o teólogo dominava as línguas clássicas tais como o hebraico, o grego, o sânscrito e o páli. Segundo, a disciplina espiritual. Teologia é espiritualidade e vice-versa: espiritualidade é teologia. Não é de se admirar que, pelo menos eu, permanecerei para sempre um iniciante ou noviço na escola pierisiana, e um principiante profundamente grato por isso.

Nota bibliográfica: Dos inúmeros livros de Pieris, escolhi “An Asian Theology of Liberation” como um dos livros mais influentes em meu desenvolvimento teológico. Pieris escreveu cerca de 20 livros e centenas de artigos, a maioria dos quais está publicada na Ásia (não estando amplamente disponível na Europa e América do Norte). Aos leitores que quiserem compreender de forma mais plena a teologia deste autor, recomendo o seu texto “The Genesis of an Asian Theology of Liberation: An Autobiographical Excursus on the Art of Theologizing in Asia” (2013). Todos os seus livros estão disponíveis no Tulana Research Centre for Encounter and Dialogue [1], rua Kohalwila, n. 521/2, Gonowala, Kelaniya, no Sri Lanka. Mais informações em: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..


[1]
http://tulana.org/books-by-aloysius-pieris/

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