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Por: Jonas | 19 Fevereiro 2016

Alguns disseram que o Papa colocaria um pé no limite entre inferno e o paraíso que está do outro lado da fronteira, cuja travessia faz dezenas de vítimas. Esse lugar chamado Ciudad Juárez, que alguma vez foi conhecido como A Cidade do Mal, por conta do elevado número de crimes, foi a última etapa e, ao mesmo tempo, a síntese de toda a viagem que o papa Francisco realizou nas golpeadas geografias sociais do México.

Em Ciudad Juárez, à sombra da fronteira com os Estados Unidos, convergem à flor da pele o narcotráfico, a pobreza, a impunidade, a imigração, a corrupção e, também e acima de todas as coisas, a vontade de viver e se superar de todo um povo. Este país filho do milho é forte como a espiga que se levanta frente ao sol. Francisco sintetizou sua viagem quando disse: “O que o México quer deixar para seus filhos? Quer lhes deixar uma memória de exploração, de salários insuficientes, de assédio trabalhista?”.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 18-02-2016. A tradução é do Cepat.

Nenhum Papa havia visitado este lugar, fundado em 1659 pelo padre franciscano espanhol Frei García de San Francisco. Primeiramente, a cidade se chamou Paso del Norte e nela os franciscanos, acompanhados por índios cristianizados, levantaram a nova Igreja de A Missão de Guadalupe.

Quando visitou o México, em 1990, João Paulo II não passou de Chihuahua, a capital do Estado. Este mundo fronteiriço, de onde o Papa exortou os dirigentes mexicanos “que não se pode deixar só e abandonado o presente e o futuro do México”, mudou de nome em 1888. É um lugar mítico da memória nacional, e não só pela fronteira.

Durante a expedição colonial francesa a mando de Maximiliano (1861-1867), as forças republicanas de Benito Juárez fizeram de El Paso del Norte seu refúgio e sua capital. Por isso, a cidade leva o nome do ex-presidente mexicano. A escala papal envolve toda uma série de símbolos e realidades.

Uma delas é a das terríveis consequências da imigração. Na missa que ofereceu na fronteira, Francisco disse que esse lugar era “uma passagem, um caminho carregado de terríveis injustiças: escravizados, sequestrados, extorquidos, muitos irmãos nossos são fruto do negócio do narcotráfico humano, do tráfico de pessoas”.

A outra realidade atual de Ciudad Juárez é a da violência, herdada, em sua versão mais recente, do narcotráfico, e também de uma longa história de péssimas influências oriundas do vizinho império, que sempre lava as mãos de sua responsabilidade esmagadora pelos males que exportou e exporta ao México.

Ciudad Juárez obscureceu quando, a partir dos anos 1920 e com a Lei Seca vigente nos Estados Unidos, os norte-americanos cruzavam a fronteira para comprar e consumir álcool.

A visita do Papa, acompanhada de múltiplas controvérsias sobre “a maquiagem” da cidade e dos números da violência é, mesmo assim, um grande marco na história fronteiriça.

Francisco visitou o Centro de Reinserção Social número 3, uma prisão. Renovada a golpe de pinceladas para receber o Pontífice, a prisão foi, até pouco tempo, um dos feudos do Cartel de Sinaloa. Assim que chegou à prisão, uma prisioneira disse ao Papa: “não somos donos de nossos sonhos”.

Francisco, depois, destacou que “já contamos com várias décadas perdidas, pensando e acreditando que tudo se resolve isolando, afastando, encarcerando, abrindo mão dos problemas, acreditando que estas medidas solucionam verdadeiramente os problemas”.

O Sumo Pontífice aprofundou sua visão social quando insistiu em que a prisão não resolve nada porque a salvação vem antes: “A reinserção não começa aqui nestas paredes, mas, ao contrário, começa antes, começa fora, nas ruas da cidade. A reinserção e reabilitação começam criando um sistema que poderíamos chamar de saúde social, ou seja, uma sociedade que busque não adoecer contaminando as relações no bairro, nas escolas, nas praças, nas ruas, nos lares, em todo o espectro social. Um sistema de saúde social que procure gerar uma cultura que atue e busque prevenir aquelas situações, aqueles caminhos que acabam deplorando e deteriorando o tecido social”.

Falar de reinserção social em Ciudad Juárez é um desafio completo. Aqui, o Papa voltou a encarnar sua geopolítica das periferias, que ele coloca no centro ao fazer de lugares com má fama como Bangui, capital da República Centro-Africana, regiões libertas do esquecimento, da condenação e do menosprezo. Sua crítica às minorias abastadas se dá a partir de territórios marginalizados.

A cidade registra altíssimas porcentagens de violência e desaparecimentos. A visita de Francisco fez com que se retirasse das ruas os cartazes das pessoas desaparecidas e que se tentasse apagar as cruzes pretas com fundo rosa feitas por grupos de mulheres em sinal de denúncia dos feminicídios.

Segundo o Promotor Geral do Estado, Jorge González Nicolás, “Ciudad Juárez encerrou o ano de 2015 com 311 homicídios”. O número se situa muito distante dos 3.500 assassinatos de 2010. Ciudad Juárez pagou um altíssimo preço à guerra contra o narcotráfico, cujo epicentro foi, entre 2008 e 2011, o conflito entre o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Juárez. Centenas de pessoas desapareceram nesse período.

Ciudad Juárez venceu muitas coisas, entre elas o deserto de Chihuahua, do qual é filha. Clima extremo, mundo extremo. Ali, entre os empresários e trabalhadores, o Papa voltou a colocar em circulação sua mensagem social e de justiça quando criticou o “paradigma da utilidade econômica” que modela as “relações pessoais” e opinou que “o lucro e o capital não são um bem acima do homem, estão a serviço do bem comum”.

Em seu percurso e muito mais que em outros pontos do globo, Francisco parece ter revisitado as teologias mais progressistas.

Não disse palavra alguma, nem pediu desculpas pelos abusos sexuais cometidos pelos Legionários de Cristo, mas, por outro lado, semeou nestas terras da América sementes de uma retórica combativa, altamente crítica aos ricos e poderosos, corrosiva com os estragos de um sistema mundial depredador e indolente.

Muitos dirão que são palavras e nada mais. Porém, o Vaticano e o Papa não têm outra arma a não ser as palavras e a fé daqueles que o escutam. Basta pensar que, há apenas alguns anos, tudo o que Francisco disse no México teria custado a vida de qualquer sindicalista ou ativista social. Chamou de corruptos aos corruptos, cara a cara, de assassinos aos assassinos, cara a cara, de privilegiados a bispos e cardeais com vidas de monarcas, sempre cara a cara.

Sua retórica foi, do início ao fim, uma feroz crítica ao poder. Aos pobres, às vítimas, falou-lhes mais de si mesmas do que de Deus. Os estragos da imigração, a pobreza, a segregação indígena, a violência e o narcotráfico foram seus temas, que são os do México e também os de nosso mundo. O México os concentra em seu território, mas o planeta inteiro os padece, de múltiplas formas, às vezes ocultas em muitas formas de engano.

“Esta tragédia humana que representa a migração forçada hoje em dia é um fenômeno global”, recordou Francisco em plena fronteira com os Estados Unidos.

Roberto Blancarte, pesquisador no Colmex, destacava nas páginas do jornal Milenio que “esta visita poderia ser benéfica para o estado de ânimo dos católicos, e talvez para os crentes de outras religiões e não crentes. Porém, dificilmente a visita terá um impacto maior nas questões sociais, como a diminuição da violência ou o melhor tratamento aos imigrantes”. Os papas não têm “divisões”.

No entanto, João Paulo II, a partir de uma visão conservadora e estreita, não demonstrou que os papas modelam, em parte, os destinos geopolíticos do mundo?

Este nosso Papa resgatou valores puros da Teologia da Libertação. Francisco pôs sob a luz os despossuídos de um mundo que, toda manhã, desperta com o único desejo de possuir.

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