‘Francisco é um típico patriarca latino-americano, mas aberto ao aprendizado’

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16 Fevereiro 2016

Decidida a ver o mundo a partir de uma perspectiva fora da Europa, a teóloga austríaca Martha Zechmeister esteve pela primeira vez na América Latina em 1999, quando relata ter passado por um "choque” em relação ao contexto social de El Salvador. No que denomina um "ano sabático”, Martha conheceu a tradição latino-americana, bem como Jon Sobrino [sacerdote e teólogo jesuíta], a história do monsenhor Oscar Romero [recentemente beatificado pelo Vaticano] e do teólogo e sacerdote jesuíta Ignacio Ellacuría. Em entrevista exclusiva à Adital, a teóloga explica as diferenças em comparação com o contexto europeu, revelando o conflito entre a teoria e a prática de ‘buscar e encontrar Deus em todas as coisas’, lema de Ellacuría.

A entrevista é de Cristina Fontenele, publicada por Adital, 12-02-2016.

Doutora em Teologia, há mais de 30 anos Martha é religiosa da Congregação de Jesus, organização fundada por María Ward. Atualmente, é professora e diretora do Mestrado em Teologia Latino-Americana, na Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), em El Salvador, sendo especialista em Teologia Política, Antropologia Teológica e Espiritualidade Ignaciana.

Aluna de Johann Baptist Metz, um dos fundadores da Teologia Política na Europa, Martha se reconhece formada em uma corrente teológica que está muito em sintonia com a Teologia da Libertação. A partir da perspectiva central de Metz, que defende que, "para o cristão, não há nenhum sofrimento que não o afete”, a austríaca destaca que esta corrente teológica ajudou a romper com o narcisismo europeu, autossuficiente e a abrir-se às experiências do sofrimento também na América Latina.

Avaliando o contexto das mulheres na Igreja e em El Salvador, a teóloga revela suas surpresas com o Papa Francisco, ‘um típico patriarca latino-americano’, reflete ainda sobre a questão do aborto no país e o contexto de violência na América Central.

Eis a entrevista.

Como a senhora avalia as diferenças entre o contexto teológico europeu e o latino-americano, a partir de quando foi morar em El Salvador?

A partir dessa corrente teológica, na qual fui formada, não houve uma mudança tão brusca. Vejo muita sintonia entre a teologia de Johann Baptist Metz e a de [Ignacio] Ellacuría. Por exemplo, Metz fala muito sobre a autoridade dos que sofrem, que Deus nos fala nas situações de sofrimento e, a partir daí, devemos determinar nossa práxis. E nisso vejo muita consonância com a Teologia de Ellacuría. Mas claro que a situação eclesial europeia e a situação salvadorenha, e também o social e político, são muito diferentes. Não quer dizer que, na Europa, não há pobres, que não tenha marginalizados, mas são uma minoria. Eu participava, em Viena, de um movimento que tratava de incluir as pessoas sem teto, mas, em Viena, esse percentual é pequeno e você fica com a ilusão de que, com boa vontade, pode solucionar isso. No entanto, atualmente, ocorre outra situação, com a irrupção de milhares e milhares de sírios. Tudo, então, se torna complicado, o que mostra que, na Europa, a situação também está mudando.

Em El Salvador, primeiro, tive um grande susto. Eu sou da espiritualidade inaciana e um lema de Santo Inãcio é ‘buscar e encontrar Deus em todas as coisas’, o que significa que, em toda realidade, Deus está presente. Porém, chegando a El Salvador, me dei conta de que minha espiritualidade foi um pouco ingênua, porque não é difícil sentir, saborear a presença de Deus na bondade da vida, da natureza, da amizade. É importante aprender isso para ter essa sensibilidade sobre a maravilha que é a vida, mas, chegando a El Salvador, minha primeira experiência foi no centro, quando tive um choque com uma cidade grande do Terceiro Mundo. Em 1999, se sentiam muito as consequências da guerra civil – muitos homens mutilados pela guerra, muito alcoolismo.

Atualmente, a situação não melhorou, mas mudou – prostituição, droga, aumento da violência das gangues. Pela primeira vez, me senti exposta a uma situação, perdão pela má educação, mas, antes, eu tinha a impressão de que, com boa vontade, podemos humanizar o mundo, se assim queremos. E, chocada com aquela situação, eu pensava: ‘este mundo não tem solução’. E, naquele momento, eu me dava conta de que esta frase, ‘buscar e encontrar Deus em todas as coisas’, não é um romantismo barato, ou cinismo. É preciso aprender a encontrar Deus também nas situações que parecem negá-lo.

Para mim, sempre o mais importante foi um tipo de espiritualidade de grito, porque me dava conta de que não pode ser que vejamos essa realidade e digamos: ‘é assim’ - sem deixar isto nos afetar. Creio que a oração, diante dessa situação, significa gritar - ‘assim não pode ser!’. Este é um grito profundo e alto para Deus – ‘Não se pode continuar assim!’.

Sobre o contexto das mulheres na Igreja, como avalia os desafios e avanços no papado de Francisco? E como é ser uma teóloga em El Salvador?

Creio que todos estamos felizes que Papa Francisco é como é. Jon Sobrino tem uma expressão que eu gosto, que fala dos ‘ateus como Deus manda’. O que quer dizer isto? Existem ateus que são ateus, mas são justos, por lutarem pela dignidade do ser humano, por exemplo. Eu, aplicando essa palavra de outra forma, sempre digo que Francisco é um patriarca como Deus manda. Creio que não se pode esconder que ele é um típico patriarca latino-americano.

No voo de volta da Jornada Mundial da Juventude, no Brasil, creio que uma repórter italiana perguntou sobre a ordenação de mulheres. O Papa respondeu que essa questão não se discute e já existe uma resposta definitiva. Isto não me surpreendeu muito porque ele é um patriarca. Em outra ocasião, ele disse: ‘veja, a Madona, a Virgem, é muito mais importante do que os apóstolos’. Não sei se ele quis falar sobre uma dignidade da mulher dentro da Igreja, sobre uma vocação da mulher ser ícone da Virgem, mas eu me senti confundida.

Outro dia, comentei com um amigo que, quando me dizem que tenho que viver como apóstolo, como discípula de Jesus, eu sei o que fazer, sempre sei que vou fracassar porque é uma exigência demasiadamente alta, mas eu sei onde me colocar em ação. Porém, quando me dizem, como mulher, que tenho que viver como ícone da Madona, da Virgem, não sei o que fazer.

Pesam em relação à mulher muitas categorias do patriarcado latino-americano. Acredito que, pela má consciência, pelo machismo, vem também, em seguida, uma elevação da mulher. Mas essas duas atitudes, ou o machismo que pisoteia a mulher ou a eleva, são duas faces da mesma moeda, que é a incapacidade de uma relação olho no olho, de serem companheiros e companheiras na mesma luta.

Vejo que a Igreja tem um caminho longo. Por um bom tempo, pensei que podíamos esperar muito deste Papa e, hoje, sou uma grande fã dele, encantada, porque ele está dando à Igreja um rosto muito mais de Jesus. Porém, sobre esse tema da mulher na Igreja, me senti um pouco estranha, embora, por outro lado, também me surpreende de verdade, por exemplo, a questão das religiosas norte-americanas.

Eu participava de uma audiência com o Papa e 800 superioras da Congregação, no ano de sua eleição, em 2013. Ali, já se sentia uma tensão, quando ele nos falava sobre obediência aos bispos e à santa Igreja, eu ficava ‘argh’. Porém, esse Papa sempre surpreende. Eu pensava: ‘mais convencional não é possível’ e, logo depois, ele recebeu a Clar (Conferência Latino-Americana de Religiosas/os) em um clima aberto, fraternal e dizia coisas como ‘não tenham medo, atrevam-se’, ‘não temam receber uma carta da Congregação da Fé, sigam adiante’. Foi muito animador.

O ponto alto de tudo isso, que mais me surpreende sobre este Papa, é que ele vem de um certo contexto de patriarcado latino-americano, porém, ele é muito capaz de aprender. Depois de tudo que ocorreu com as religiosas norte-americanas, punidas pelo Vaticano, pela Congregação da Fé, agora, o Papa diz, em público, que ele está admirando a coragem dessas mulheres, valentes, que lutam na primeira fila.

Os rostos dos bispos se petrificaram porque o choque com essas religiosas foi, em grande parte, um choque com os bispos norte-americanos, que se opuseram à reforma dos centros de saúde, sob o argumento de nesses locais também vai se praticar o aborto. E as religiosas apoiaram a reforma da saúde, não porque estavam a favor do aborto, mas porque entendiam que isto deixava desprotegidos os pobres, sem acesso à saúde. Então, quando o Papa felicitou publicamente o valor dessas mulheres, isto para mim foi um grande passo, sua capacidade de aprender o caminho.

Temos vivido muitos anos de paralisação, de exclusão. Agora, é um momento histórico, em que é importante não perder o Kairós [momento oportuno]. É um clima de abertura, mas o perigo é que esperamos tudo isso do Papa. Antes, fomos paralisados por medo, exclusão, etc. Agora, estamos tão fascinados com o Papa que, talvez, esqueçamos que precisamos nos mover. Ele abre uma brecha, mas temos que despertar.

E como avalia a questão do aborto?

Creio que a vida é santa. Dizem para mim que quem é a favor do aborto é um idiota. Ocorre que estamos perseguindo mulheres que, em situação limite, se decidem pelo aborto. Na Romênia, por exemplo, eu conheci mulheres mais velhas que, nos tempos quando não havia outro método de planejamento, e pela miséria social, e já tendo muitos filhos, submeteram-se ao aborto, e, agora, com 80, 90 anos estão condenadas ao inferno por isso. Uma coisa é promover o aborto, que, para mim, não é uma opção, e outra coisa é criminalizar as mulheres que, em situações limites, se decidem pelo aborto.

O Papa diz: ‘quem sou eu para condenar uma mãe a quem o médico diz que seu filho vai nascer com uma deformação grave, que vai fazê-lo sofrer’. Eu não sou a favor do aborto, mas quem sou eu para julgar uma mãe que se decide por isto. É preciso proteger o mistério da vida, mas criminalizar o aborto é outra coisa. E eu sou, certamente, contra a criminalização.

É o que ocorre em El Salvador, onde as mulheres são criminalizadas por qualquer tipo de aborto?

Sim. Isto me parece uma dupla moral insuportável, começando pelos métodos de planejamento. É uma ofensa ao varão falar de preservativos, é impensável falar disso, mas não é obsceno que, nos centros de saúde, se apliquem injeções com hormônios para três meses, que provocam nas jovens uma desordem hormonal, que têm consequências para a saúde da mulher. Isto é uma moral dupla.

O que significou a beatificação de Oscar Romero para El Salvador?

Em março de 2015, realizamos um Congresso na UCA, sem saber que, no mesmo ano, seria realizada a beatificação. A memória no Cristianismo é algo central, celebrar a morte e a ressurreição, e a vida que brota aqui e agora. Podemos fazer uma memória nostálgica, recordando um tempo passado glorioso, mas perder o Kairós atual. O drama de Jesus, por exemplo, tem que nos inspirar, não para ficarmos no passado, mas para agir aqui e agora. Por isso também as lembranças da beatificação de monsenhor Romero.

Ignácio Ellacuría dizia que, com monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador. Nesse mundo acabado pela situação econômica, pela violência, pela corrupção, a máfia das drogas, que está flagelando uma grande parte da população centro-americana, 60%, ou seja, 2/3 da população estão submetidos a isso. Esse amor claro, tão profundo e profético de monsenhor Romero é a irrupção de Deus neste mundo.

A Igreja precisa obedecer a esta fé do povo, não pode negá-la. Essa fé do povo já confessou Romero como santo muito antes da beatificação, e não temos que esperar a canonização. É algo que deu a muitas pessoas esperança e alegria, por estar, agora, oficialmente, reconhecido pela Igreja. Há uma grande parte dos salvadorenhos profundamente católica e, agora, não é preciso ir contra a hierarquia, uma vez que a autoridade máxima da Igreja confessa este santo do povo.

Para mim, é precioso o texto da carta da beatificação, que fala desse beato Romero, ‘bispo e mártir, pai dos pobres, testemunho heroico do reino, reino da justiça, do amor e da paz’. É algo muito forte, que resume a fé do povo, embora seja triste que, no nível eclesial local, na conferência episcopal, isso foi muito relativizado. Romero é um modelo de santidade, o que quer dizer viver ao modo de Jesus, aquele que se põe, incondicionalmente, ao lado das vítimas, e, por isso, denuncia os que estão vitimando as vitimas. Ele é um santo que incomoda e não um santo doce, sem arestas, que permite uma reconciliação barata.

E quem são os mártires de hoje?

A meta não é produzir mais mártires, por favor, não mais mortos. A pergunta que me faço é que, nos tempos de conflito, de monsenhor Romero, ele denunciava o terrorismo do Estado. Ele nunca foi um amigo da violência, mas disse que há situações em que a violência, sempre como um recurso limite, pode ser legítima porque é a defesa da vida. E reconhecia que a violência da opressão por interesses é o que vem primeiro, e a que a violência do revolucionário da guerrilha é algo secundário nisso, e tem certa legitimidade. Por que o mataram? Porque isso incomodou os poderosos.

Agora, em El Salvador, falta uma palavra clara por parte da Igreja e também uma proposta clara por parte da política. Estamos com um governo de esquerda, mas o que se sente é que não existe uma resposta clara, caindo na armadilha de governos anteriores, de aplicar a política de mão dura contra as gangues.

Atualmente, a situação é complexa, não sabemos como entendê-la e fazer o discernimento. Essa violência das gangues é formada por jovens humilhados, que tiveram o futuro roubado e se converteram em vitimadores que, por sua parte, exercem uma violência terrorista, impõem medo. Impotentes, a única forma de sentir seu poder é imporem-se sobre os mais fracos. Nos tempos da guerrilha, também se questionavam atos terroristas, mas havia uma meta nessa luta. A luta atual é irracional, autodestrutiva, que comparo com uma doença autoimune, que destrói o próprio corpo, os pobres que matam seus irmãos pobres.

Também, nos tempos de monsenhor Romero, ele disse: ‘irmãos, parem de matar seus próprios irmãos, militares da guerrilha’. No entanto, a guerrilha tinha uma meta política, já as gangues não têm. É um grito desesperado, irracional, muito destrutivo e perigoso. E o povo que está flagelado por esse terror começa a gritar pelo linchamento, com lemas como ‘é preciso fumigar os ratos’.

As palavras de monsenhor Romero, em sua situação, davam luz, orientação. Agora, faltam pastores com uma análise clara. Os bispos seguem com sua conferência de imprensa, mas não oferecem uma palavra de orientação. Espero e rezo por uma irrupção do espírito, mas não vejo esse momento. O martírio é uma consequência de um sim incondicional à vida. Nenhum desses mártires tinha uma doença patológica autodestrutiva, que buscava o martírio. Lutavam pela vida.

Eu não peço por mais mártires, eu peço por mais lutadores apaixonados pela vida, que se atrevem. Jon Sobrino citava, muitas vezes, um camponês salvadorenho que dizia que monsenhor Romero defendia os pobres, dizia a verdade e, por isso, o mataram. Isto foi decisivo.

Atualmente, o complicado é que não há uma linha clara sobre onde estão as vítimas e onde estão os vitimadores. É necessária uma solução social e sustentável para El Salvador, e há um desejo forte de se reconhecer as gangues como parte de um povo crucificado, esses jovens que tiveram o futuro roubado, estão humilhados, porque ninguém necessita deles. Uma noite, dormi muito mal pensando sobre o que significa decifrar esse contexto. Jesus incluiu os marginalizados, dividia a mesa com os pecadores. O que significa essa atitude de Jesus diante dessa violência juvenil em El Salvador?

Não quero justificar nenhum destes atos de violência, não se trata disso, mas quem é a boa sociedade? Entendo quando uma pessoa sofre uma violência de um marginal, não compartilho, mas posso entender psicologicamente quando uma pessoa que perde seus familiares, grita por linchamento. No entanto, os que se aproveitam socialmente, política e economicamente, dessa situação gritam que é preciso ‘fumigar os ratos’, o que, para mim, é um pecado imperdoável contra o espírito. E como é uma situação real de violência na América Central, a pergunta é: ‘onde há redenção?’.

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