Papa Francisco e Patriarca Kirill: “Polêmicas” diplomáticas, preocupações ecumênicas

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12 Fevereiro 2016

"Francisco é alguém que assume alguns riscos, e este evento certamente envolve alguns deles", escreve Massimo Faggioli, professor de Teologia e diretor do Instituto para o Catolicismo e Cidadania da Universidade de St. Thomas em artigo publicado por Commonweal, 09-02-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O anúncio do encontro de duas horas a acontecer entre o Papa Francisco e o Patriarca de Moscou Kirill nesta sexta-feira, dia 12 de fevereiro, em Cuba animou muita gente – mas trouxe também algumas críticas quanto à decisão de Francisco em se reunir com o líder ortodoxo. Há basicamente três tipos de críticas sendo feitas aqui.

Em primeiro lugar, há a dimensão político-diplomática do encontro. O papa está indo se reunir com o líder de uma igreja que é vista, cada vez mais, como parte do regime autoritário de Vladimir Putin e um apoio ideológico para a sua política externa neoimperial. Esta crítica salienta os riscos à credibilidade de Francisco, especialmente se se considerar o papel da Igreja Ortodoxa Russa na sustentação das ações militares de Putin na Síria e na Ucrânia. (Kirill foi, no entanto, mais cauteloso com respeito à Ucrânia, dadas as consequências potenciais da perda da Crimeia e da guerra na Ucrânia oriental para as relações interortodoxas entre Moscou e Kiev.)

Em segundo lugar, há a política interna das igrejas ortodoxas à luz não só das rivalidades históricas entre Moscou e Constantinopla pela supremacia dentro da ortodoxia oriental, mas também do vindouro Grande Sínodo das Igrejas Ortodoxas na ilha grega de Creta, no mês de junho. Alguns consideram Francisco como ingênuo com respeito à forma como o Patriarcado de Moscou poderá usar este encontro para afirmar uma nova supremacia em um período crítico para o futuro das igrejas ortodoxas. Aqui também a guerra na Ucrânia atua como um fator importante.

Em terceiro lugar, há a dimensão ecumênica do encontro. A Igreja Ortodoxa Russa tem estado muito menos engajada no diálogo ecumênico com a Igreja Católica do que o tem o Patriarca de Constantinopla; ao concordar em se encontrar com Kirill, Francisco é acusado de se sentar à mesa com um líder que não tem mostrado um mínimo de espírito ecumênico exigido para dar início a um diálogo com o papa.

Francisco é alguém que assume alguns riscos, e este evento certamente envolve alguns deles.

A atividade diplomática e ecumênica do pontífice faz parte da sua ênfase na misericórdia, conforme explica o editor da Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, SJ, em artigo recente na edição atual da citada publicação. Nessa decisão, Francisco está particularmente correndo riscos em vários níveis: com os católicos e ocidentais que acreditam no isolamento da Rússia de Putin, com os cristãos ortodoxos não russos que acreditam na manutenção de uma certa distância do Patriarcado de Moscou, e com os católicos orientais que veem a guerra na Ucrânia e a postura da ortodoxia russa nela como algo revelador das intenções profundas de Kirill e seus comandados. Esses sentimentos devem ser respeitados – não subestimados. Mas também deve ser dito que a visão de longo prazo sempre governou a atividade ecumênica e diplomática da Santa Sé, e que às vezes a perspectiva a respeito dos eventos é melhor quando vista a certa distância. (Foi este o caso com a eleição presidencial americana de 1928, quando o Vaticano ficou contente em assistir de longe, com uma visão a longo prazo em mente, apesar da presença nas urnas de Al Smith, quem, evidentemente, foi esmagado.)

Além disso, um olhar na história recente permite certo otimismo sobre o futuro das relações ecumênicas entre Roma e Moscou. Se voltamos a não mais de meio século atrás, vemos um tipo parecido de crítica sendo feita a João XXIII por receber, em audiência, Rada Nikitichna – filha de Nikita Khrushchev – e seu marido, o jornalista Alexandr Adjoubei, em 1963; estes foram os primeiros cidadãos soviéticos admitidos no Vaticano desde a Revolução Russa de 1917. A audiência de João XXIII com ele não apenas encontrou resistência por parte do Cardeal Alfredo Ottaviani, do Santo Ofício; ele também se deparou com um silêncio ensurdecedor da voz semioficial vaticana La Civiltà Cattolica e da recusa da Secretaria de Estado a emitir um comunicado de imprensa. O movimento inédito para um papa em meio à Guerra Fria funcionou como uma declaração pública de João XXIII sobre o envolvimento da Igreja na “Ostpolitik” vaticana, que, em última análise, conduziriam a Helsinki em 1975, onde a União Soviética assinaria o tratado sobre os direitos humanos, em parte devido à influência diplomática do Vaticano.

Quaisquer que sejam as preocupações em torno da “ingenuidade” de Francisco, importa lembrar que a Rússia sempre foi um ator-chave em trazer a Igreja Ortodoxa oriental inteira às iniciativas ecumênicas da Igreja Católica. Apenas as repentinas e inesperadas decisões do Santo Sínodo de Moscou, na véspera do Vaticano II em outubro de 1962, de aceitar um convite para enviar “observadores” a Roma acabou fazendo com que muitas outras igrejas ortodoxas enviassem os seus próprios observadores (inclusive o Patriarcado de Constantinopla).

Finalmente, quanto à “falta” de maturidade ecumênica do líder da Igreja Ortodoxa Russa que está se encontrando com Francisco, é sábio recordar quando a Igreja Católica era considerada um pária ecumênico. Em um encontro importante do Conselho Mundial de Igrejas – CMI em Rhodes, no mês de agosto de 1959, observadores católicos estiveram oficialmente presentes apenas como “jornalistas”, porque não tinham autorização para se reunir com não católicos em eventos ecumênicos. Um dos temas no debate sobre a relação entre católicos e o CMI era a liberdade religiosa. Uma preocupação quanto ao péssimo estado da teologia católica a respeito de questões ecumênicas, tais como a citada liberdade religiosa, teve destaque nas páginas do diário do Monsenhor Johannes Willebrands: “Visser’t Hooft [secretário-geral do CMI, 1938-1966] levanta o tópico da liberdade religiosa. Nós não temos um documento sobre isso. A comissão responsável por esse tema está trabalhando no assunto”. A Igreja Católica Apostólica Romana debateu o ecumenismo e a liberdade religiosa alguns anos mais tarde no Vaticano II: o decreto Unitatis Redintegratio sobre ecumenismo foi aprovado pelo Vaticano II em 21 de novembro de 1964, e a declaração Dignitatis Humanae foi aprovada em 7 de dezembro de 1965, um dia antes de terminar o Concílio.

A história da “Ostpolitik” vaticana na segunda metade do século XX faz parte de um trabalho histórico-geográfico ainda em curso, caso não estiver apenas começando; para ser honesto, os historiadores na Europa ocidental (eu incluído, quando trabalhei nesse campo) e na Europa oriental possuem interpretações diferentes sobre as realizações da diplomacia vaticana com os comunistas na Europa oriental e na Rússia. (Este tema não é somente uma preocupação para a academia; é relevante para a abertura do Vaticano à China hoje.) Mas não há dúvida de que a abertura do Vaticano à Rússia foi parte integral do engajamento ecumênico da Igreja Católica nos anos imediatamente antes, durante e após o Vaticano II. O Papa Francisco faz parte deste legado; é nesse contexto que a sua decisão de se encontrar com Kirill precisa ser compreendida.

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