O papa e os muros que caem um após o outro

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11 Fevereiro 2016

"Estou muito feliz." Quando se pede que Francisco comente a reconciliação entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa depois de quase mil anos de cisma, a resposta é confiada a um superlativo que expressa principalmente alegria.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 08-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além disso, a estratégia com a qual o papa guiou e acompanhou as negociações foi igualmente desarmante na sua simplicidade. "Eu deixei fazer. Eu só disse que queria encontrar e abraçar novamente os meus irmãos ortodoxos. Isso é tudo. Foram dois anos de negociações às escondidas, bem conduzidas por bons bispos. Pelos ortodoxos, quem se ocupou foi Hilarion, que, além de ser bom, também é um artista, um musicista. Eles fizeram tudo."

Às véspera do face a face histórico que vai ocorrer no dia 12 de fevereiro em Cuba com o patriarca russo Kirill, na tranquila tarde da Casa Santa Marta, em um encontro sob o sinal da informalidade, Jorge Mario Bergoglio parece satisfeito, especialmente porque considera que construiu outra ponte.

Há meses, intuía-se que a última pedra estava para ser posta. No fim de junho passado, no Corriere della Sera, justamente o teólogo Hilarion, "ministro das Relações Exteriores" do Patriarcado de Moscou, dissera que esse encontro histórico "estava na agenda". Ele havia falado de "perspectiva próxima". E expressou a esperança de que "não se encontrarão um futuro papa e um futuro patriarca, mas estes dois".

No fim do ano, as vozes haviam se adensado. Falava-se de uma insistência do patriarcado para acelerar a fase final, compartilhada também pela Santa Sé. Começou-se a levantar a hipótese de uma "parada técnica" em Cuba para a visita papal ao México.

No dia 23 de janeiro passado, o cardeal alemão Kurt Koch, que preside no Vaticano o Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, dissera que "o semáforo não está mais vermelho, mas amarelo". E o comandante da Gendarmeria vaticana, Domenico Giani, ao voltar de uma visita ao México, em Ciudad Juarez, a cidade de imigração na fronteira com os Estados Unidos, onde o papa irá celebrar a missa e que estava na sua trajetória mental desde o início, acrescentou que uma "mudança de itinerário" de surpresa não devia ser descartada.

O "semáforo" ficou verde no espaço de nem mesmo duas semanas. De repente, uma ponte ruída há mil anos se materializou, pronta para ser atravessada. Uma reconciliação do cristianismo europeu, mas fora das fronteiras europeias: quase testemunhando que o centro de gravidade da Igreja hoje está em outro lugar.

Aos que o encontram na Casa Santa Marta, o papa repete isso com uma mistura de esperança e de lúcida preocupação. "Pontes: é preciso construí-las. Passo a passo, até chegar a apertar as mãos com aqueles que estão do outro lado. As pontes duram e ajudam a paz. Os muros não: estes parecem nos defender, mas apenas nos separam. Por isso, devem ser derrubados, não construídos. Muitos estão destinados a cair, um após o outro. Pensemos no de Berlim. Parecia eterno, mas, em vez disso: 'puf', em um dia caiu."

A "ponte" reconstruída com a ortodoxia é fruto dessa paciente estratégia do diálogo; de respeito pelos interlocutores que o papa valoriza acima de tudo como pessoas.

Francisco sabe bem que "a Rússia tem sangue imperial", desde os tempos da czarina Catarina. E, como a China, também "a Rússia pode dar muito". Nesta fase, repete o papa às pessoas que lhe são próximas, "não podemos dizer que estamos cercados por um mundo em paz. Para qualquer lado que nos voltamos, há conflitos. Eu falei de terceira guerra mundial em pedaços. Na realidade, não é aos pedaços: é precisamente uma guerra. Como se fazem as guerras? Agindo na economia, com o tráfico de armas e fazendo guerra contra a nossa casa comum, que é a natureza. Os traficantes estão fazendo muito dinheiro, comprando armas de um país que lhes dá para atingir outro, seu inimigo. E sabe-se quais são".

Para ele, a questão ecológica é uma peça fundamental daquela que pode ser definida como segurança global. "Cortar as árvores significa desertificar territórios inteiros. Por isso, em países como a Zâmbia, começaram a replantá-las, a reflorestar as regiões para evitar o empobrecimento da terra. E é preciso ficar atentos às monoculturas. Se sempre se produzem as mesmas coisas, sem alternar os cultivos, logo o solo vai morrer."

"O Ocidente deve fazer a autocrítica das primaveras árabes"

Não perder nenhuma oportunidade para construir pontes e evitar qualquer tipo de guerra é um ponto firme para o pontífice. A intervenção militar do Ocidente na África do Norte e as chamadas "primaveras árabes" foram uma aposta que agora é paga a um preço elevado.

"Sobre as primaveras árabes e o Iraque, era possível imaginar antes o que poderia acontecer. E, em parte, houve uma convergência de análises entre a Santa Sé e a Rússia. Em parte, é bom que não exageramos, porque a Rússia tem os seus interesses."

Mas o papa sempre convida a pensar "na Líbia antes e depois da intervenção militar: antes de Gaddafi, havia um só, agora há 50. O Ocidente deve fazer a autocrítica".

Não se pode deixar de pensar com um pouco de apreensão no que pode acontecer se os EUA e a Europa considerarem que devem atacar novamente o território líbio, dilacerado entre tribalismo e terrorismo islâmico. Sabe-se muito bem que o que acontece do outro lado do Mar Mediterrâneo é uma tragédia.

"A Europa, no fim, vai sorrir aos migrantes"

Aos interlocutores que lhe falam das migrações epocais que estão ocorrendo e do alerta que eles despertam na Europa, Bergoglio responde recordando a sua primeira viagem de julho de 2013 à ilha siciliana de Lampedusa, lugar-símbolo da tragédia dos refugiados. Na época, ele jogou uma coroa de flores no mar: uma homenagem a todas as pessoas que morreram afogadas ao atravessar o Mediterrâneo nos barcos e botes superlotados.

"Quando eu fui para Lampedusa, o problema da imigração estava apenas começando. E agora explodiu", ele repete sempre, como que para dizer que a visão de longo prazo da Igreja não foi compreendida a tempo; e a Europa se encontra diante de um problema agravado pela falta de visão e de estratégia.

"É um desafio que deve ser enfrentado com inteligência, naturalmente, porque, por trás dele, está o problema enorme e terrível do terrorismo." O olhar do papa ao Velho Continente, no entanto, não é pessimista. Contam que ele está preparando o discurso que vai pronunciar por ocasião do Prêmio Carlos Magno pela paz e a integração, que lhe foi outorgado pelo júri em Aachen, na Alemanha. E será "um grande discurso de grande afeto".

Chamou muito a atenção o que ele disse na breve visita ao Parlamento de Estrasburgo, em em novembro de 2014: uma ocasião na qual as suas palavras sinceras, em algumas passagens até duras sobre a Europa, criaram um eco imenso. Naquela ocasião, ele disse que "uma Europa que seja capaz de valorizar as próprias raízes religiosas, sabendo aproveitar a riqueza e as potencialidades", também poderá ser "mais facilmente imune aos tantos extremismos que crescem no mundo de hoje, também pelo grande vácuo ideal a que assistimos no chamado Ocidente".

O "chamado" Ocidente: o adjetivo escolhido já era significativo. Mas ele foi além. Dirigidino-se aos deputados europeus, ele não hesitou em evocar "uma Europa avó e não mais fértil e vivaz. Razão pela qual os grandes ideais que inspiraram a Europa parecem ter perdido a força de atração, em favor dos tecnicismos burocráticos das suas instituições".

Poucas horas depois, o papa recebeu um telefonema. "Telefonou-me a chanceler alemã, Angela Merkel", Francisco gosta de contar. "Ela estava um pouco irritada, porque eu tinha comparado a Europa com uma mulher estéril, incapaz de ter filhos. Ela me perguntou se eu realmente pensava que a Europa não podia mais ter filhos. Eu lhe respondi que sim, a Europa ainda pode tê-los, e muitos, porque tem raízes sólidas e profundas. Porque tem uma história única. Porque teve e ainda pode ter um papel fundamental: pensemos apenas na cultura e nas tradições que ela encarna. E porque, nos momentos mais sombrios, ela sempre demonstrou ter recursos insuspeitos."

Mas, nos encontros na Casa Santa Marta, ele insiste com seus interlocutores que "a Europa deve e pode mudar. Deve e pode se reformar. Se não foi capaz de ajudar economicamente os países de onde provêm os refugiados, ela deve se pôr o problema de como enfrentar esse grande desafio que é, em primeiro lugar, humanitário, mas não só. Rompeu-se um sistema educacional: o que transmitia os valores dos avós aos netos, dos pais aos filhos. Pois bem, é preciso pôr-se o problema de como reconstruí-lo".

Muitas vezes, Bergoglio usa uma metáfora bíblica. Compara o Velho Continente com Sara, a mulher de Abraão. Sara é estéril e, quando já tem mais de 70 anos, de acordo com os costumes daqueles tempos remotos, ela dá como mulher ao marido a sua escrava, para que ela dê à luz um filho para ela. Depois, porém, milagrosamente, ela consegue ter um filho aos 90 anos.

"A Europa", Francisco gosta de repetir, "é como Sara, que primeiro se assusta, mas depois sorri às escondidas." A sua esperança, relatam aqueles que conversaram com ele, é que a Europa "sorria às escondidas" aos imigrantes.

A força pode lhe vir da memória dos "grandes personagens esquecidos" da sua história recente. Francisco é um admirador dos protagonistas do renascimento europeu depois da Segunda Guerra Mundial. Ele cita o chanceler alemão Konrad Adenauer, o ministro do Exterior da França, Robert Schuman, o italiano Alcide De Gasperi. Mas entrevê "grandes esquecidos" até mesmo na crônica dos nossos dias.

"Por exemplo, a prefeita da Lampedusa, Giusi Nicolini", pelo modo como se consumiu em favor dos refugiados. E ele costuma citar "entre os grandes da Itália de hoje" tanto o chefe de Estado emérito, Giorgio Napolitano, quanto a ex-ministra Emma Bonino. "Quando Napolitano aceitou, pela segunda vez, naquela idade, e embora por um período limitado, assumir um encargo daquele peso, eu lhe telefonei e lhe disse que era um gesto de 'heroísmo' patriótico."

Quanto a Bonino, a interlocutores que arregalam os olhos ao ouvi-lo citar a expoente radical, ele defende que ela "é a pessoa que mais bem conhece a África. E ofereceu o melhor serviço para a Itália para conhecer a África. Dizem-me: são pessoas que pensam diferente de nós. É verdade, mas paciência. É preciso olhar para as pessoas, para aquilo que fazem".

Uma mensagem ao presidente chinês, Xi Jinping?

No fundo, a sua ideia do poliedro como figura geométrica que mais bem reflete a fragmentação desta fase histórica e a exigência de encontrar um ponto de equilíbrio, de unidade e de convivência entre desiguais nascem dessa abordagem inclusiva: a mesma que lhe está permitindo remover os detritos deixados pela Guerra fria e tentar contribuir com a construção de uma nova ordem mundial.

A mediação entre EUA e Cuba. A viagem aos EUA. A abertura do Jubileu na África. Agora, o México e a reconciliação com o mundo ortodoxo. São todas etapas de uma "estratégia das pontes" para a qual este papa argentino e austral, expressão de um "Ocidente alternativo", não coloca limites: nem mesmo os do Império do Médio chinês.

A sua entrevista à agência Asia News sobre a China fez a volta ao mundo. E se fala de uma mensagem dirigida, nas próximas horas, ao próprio presidente da República Popular, Xi Jinping: outra pedra colocada na ponte, com a qual Francisco espera atravessar, mais cedo ou mais tarde, também a Grande Muralha.

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