A nossa civilização é defunta. Entrevista com Michel Onfray

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08 Fevereiro 2016

"A nossa civilização judaico-cristã se extinguiu, está morta. Após dois mil anos de existência, se compraz no niilismo e na destruição, na pulsão de morte e no ódio de si, não cria mais anda e vive somente de ressentimento e rancor", assevera Michel Onfray, em entrevista concedida a Stefano Montefiori e publicada por Corriere della Sera, 04-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

E, polêmico, questiona: "O Islã manifesta aquilo que Nietzsche chama “uma grande saúde”: dispõe de jovens soldados prontos a morrer por ela. Qual o ocidental que está pronto a morrer pelos valores da nossa civilização: o supermercado e o e-comércio, o consumismo trivial e o narcisismo egoísta, o hedonismo vulgar e o mono-patim para adultos?”

Eis a entrevista.

Hoje se abre o Carnaval de Colônia, com a jornada da mulher que será a ocasião para recordar as agressões sexuais massivas de 31 de dezembro de 2015. Qual tem sido a sua reação àqueles fatos?

Considero inaudito que a nossa elite jornalística e mundana, intelectual e parisiense, tão pronta a considerar sexista quem quer que se recuse escrever professora ou autora no feminino (em francês professor e autor não se declinavam), não tenha nada a dizer sobre a violência a centenas de mulheres por obra de hordas de emigrados ou imigrados, como não se diz mais, porque o politicamente correto impõe o termo ‘migrantes’. A mesma elite – tão pronta a encontrar antissemitismo por toda parte, eu inclusive quando escrevo um livro contra Freud que quer trabalhar com os nazistas para salvar a psicanálise sob o Terceiro Reich – não tem nada a repetir sequer sobre as declarações antissemitas, quando vêm de muçulmanos integralistas. A França tem renunciado à inteligência e à razão, à lucidez e ao espírito crítico. Michel Houellebecq tem razão: já vivemos sob o regime da submissão.

Sobre a questão do terrorismo islamita, você indica como responsáveis “décadas de bombardeios ocidentais” de um lado, mas, do outro, explica que uma conduta belicosa e totalitária do Islã está bem presente no Corão. Não há aí uma contradição? De quem é a culpa mais grave?

Os dois aspectos não se excluem: a partir da primeira guerra do Golfo o Ocidente matou quatro milhões de muçulmanos (segundo um relatório publicado por Physicians for Social Responsability, ndr) e o Corão convida à guerra contra os infiéis. Esta mistura explosiva produz a situação na qual nos encontramos. Recordo que na época na qual os Estados Unidos trabalhavam com Bin Laden contra os soviéticos no Afeganistão, o terrorismo islâmico não era de atualidade no planeta.

Mas, por que toma a primeira guerra do Golfo, de 1991, como ponto de partida? Se a “guerra de civilizações” existe, como você diz no seu livro, ela não recua mais atrás no tempo?

“Sim”, certamente, existe desde a Égira (o início da era muçulmana, ndr) e o mostro num livro muito volumoso no qual estou trabalhando agora e que se chamará Decadência. As cruzadas, a queda de Constantinopla, a batalha de Lepanto, a colaboração do grande mufti de Jerusalém com os nazistas, a fatwa contra o escritor Salman Rushdie fazem parte desta história tormentosa que ainda persiste. Este mau conhecimento das relações entre as duas civilizações, difusa entre os nossos governantes, somada à sua imprudência, à sua incapacidade, explica o estado atual das coisas. O Islã político é uma bomba com a qual o Ocidente joga desde sempre.

Segundo a sua análise, no Corão se encontram passagens que justificam igualmente um Islã de paz e um de guerra. É razoável esperar numa vitória do Islã de paz? E o que o Ocidente poderia fazer para favorecê-la?

Só se pode fazer a paz querendo-a e somente com os nossos inimigos. O pacifismo se baseia sobre o cérebro e a inteligência, a razão e o diálogo, a cultura e a civilização: a guerra, ao invés, aponta para os instintos e as paixões, a vingança e o ódio, a barbárie e a desumanidade. A França foi a pátria dos direitos do homem, mas não o é mais, a França foi a pátria da paz perpétua com o abade de Saint-Pierre (no qual se inspira Kant), mas não o é mais, a França foi a pátria do pacifismo com Jaurès, mas não o é mais. Esta mesma França poderia tomar uma grande iniciativa diplomática e promover uma conferência mundial pela paz. Mas não creio nisso. François Hollande não tem nenhum carisma internacional e sua única perspectiva é ser reeleito. E acontece que a testosterona do comandante em chefe seja antes um argumento eleitoral.

Você escreve que o Islã não tem, neste momento, interesse em ser pacífico, porque está em condições de vencer e dominar. Realmente considera a civilização ocidental tão priva de forças, e a muçulmana tão expansiva na Europa?

Sim, a nossa civilização judaico-cristã se extinguiu, está morta. Após dois mil anos de existência, se compraz no niilismo e na destruição, na pulsão de morte e no ódio de si, não cria mais anda e vive somente de ressentimento e rancor. O Islã manifesta aquilo que Nietzsche chama “uma grande saúde”: dispõe de jovens soldados prontos a morrer por ela. Qual o ocidental que está pronto a morrer pelos valores da nossa civilização: o supermercado e o e-comércio, o consumismo trivial e o narcisismo egoísta, o hedonismo vulgar e o mono-patim para adultos?”. Você sugere que se negocie com o Estado Islâmico e, no entanto, diz trabalhar pelo apocalipse, e a batalha final entre muçulmanos e “descrentes” em Dabiq. Não lhe parece que os jihadistas agem segundo uma lógica diversa com respeito à nossa racionalidade ocidental?

A França não considera indigno negociar com Países que sustentam este terrorismo quando se trata de fazer comércio e vender aviões de combate: Arábia Saudita, Qatar, Turquia... Os jihadistas são soldados que obedecem ao seu califa que é um comandante de guerra e um chefe de Estado. A diplomacia não saberia funcionar senão com Estados amigos, moralmente impecáveis e desconhecidos da  Anistia Internacional. Ao invés, é preciso jantar em companhia do diabo com uma longa colher (para mantê-lo à distância, segundo o provérbio).

Você se define sempre de esquerda, mas sobre o terrorismo e numerosos outros temas as suas opiniões são opostas à linha política de um governo de esquerda. Estaria pronto a apresentar-se às eleições de 2017?

A esquerda libertista, que está no poder na França desde 1983, é muito liberal e por nada é atualmente de esquerda. Do meu lado, eu permaneci sendo de esquerda e anti-libertista. Esta esquerda que suprime as 35 horas, manda sindicalistas à prisão, legitima o aluguel dos úteros das mulheres pobres para as mulheres ricas, faz da escola o lugar onde somente os filhos dos burgueses conseguem vaga, dá plenos poderes ao dinheiro na saúde e na cultura, nos transportes e na mídia, na polícia e na defesa, esta esquerda, dizia eu, não é de esquerda.

Agora se mete até a por em prática as ideias da Frente Nacional (Le Pen) sobre o estado de emergência e a revogação da nacionalidade, e as da direita sobre a guerra imperialista! Quanto a apresentar-me às presidenciais, é impossível: sou um homem só e sem partido, sem dinheiro e sem redes de alianças. Mas, pior, sou um homem de ética e de convicções, coisa que está em contraste com o exercício de uma campanha presidencial onde a mentira e a demagogia ditam lei.

Por que decidiu publicar “Pensar o Islã” na França somente num segundo momento? E após a saída do livro hoje na Itália, pensa voltar a aparecer na mídia francesa?

A data de publicação originária coincidia com a data de comemoração dos atentados de janeiro de 2015 a “Charlie Hebdo” e ao supermercado hebraico, e na França atualmente há lugar somente para o compassivo, que está nos antípodas do filosófico. Depor pelúcias aos pés da estátua na Praça da República é a única manifestação de inteligência autorizada pelo poder de Estado sustentado pelo poder midiático. Retomarei a palavra na França, sim, certamente, em março, com a publicação de Pensar o Islã e o livro político o ‘Lo spechietto per le allodole’ [A isca para os ingênuos]. E depois estou criando minha mídia independente para poupar-me a estupidez midiática francesa.

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