Zero censuras. Uma Igreja para todos. O populismo “bom” do Papa Francisco

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08 Fevereiro 2016

Então, cá estamos: como previsto, a urna do Padre Pio será, por primeira vez, trasladada de San Giovanni Rotondo a Roma. Este é um dos eventos mais importantes do Ano santo desejado pelo Papa e dedicado à misericórdia. Como interpretá-lo? Como é possível que o “Papa revolucionário”, presumido tifoso do encontro feliz entre a Igreja e a modernidade, descrito e idolatrado por tantos comentadores, tenha decidido encorajar uma das formas mais tradicionais, retrógradas e decididamente macabras da religiosidade popular tradicional? Como é possível que aquele que, sempre segundo muitos admiradores progressistas, teria o ânimo de recuperar plenamente o espírito do Concílio Vaticano II, ponha no centro do Ano Santo um homem como Padre Pio, que o Papa do Concílio João XXIII, olhava de longe com uma desconfiança enorme? Como é, de fato, amplamente conhecido, em alguns folhetos pessoais seus, publicados pelo historiador Sergio Luzzato, o Papa Roncalli falava do fenômeno Padre Pio como de uma “dolorosa e vastíssima enfatuação religiosa, um desastre de almas, diabolicamente preparado” e revelava rezar misericordiosamente pela alma do frade que “ainda se deve salvar”.

O artigo é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bergamo, em artigo publicado por Fatto Quotidiano, 04-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

O ponto é que em tantos, demasiados, quase todos os comentadores, puxam a cada dia o Papa pela jaqueta, procurando inseri-lo, de quando em quando, entre as próprias fileiras, de colocá-lo a serviço do próprio projeto eclesial de sintonizá-lo com a própria espiritualidade. Julgando a situação a partir de fora, a verdade me parece ser outra: por certo este Pontífice, diversamente dos precedentes, deseja que a Igreja seja um lugar hospitaleiro para todos, reacionários e progressistas. Francisco jamais se tornaria sustentador de iniciativas de censura desta ou daquela corrente eclesial. Em suma, ele não parece disposto a agir, quem sabe na direção oposta, como João Paulo com os teólogos da libertação, isto é, a censurar ou a por de lado algum deles.

Para ele, a Igreja deve ser um lugar onde convivem as diferenças, onde se albergam diversas e talvez até mesmo opostas sensibilidades. Ninguém é afastado e todos são acolhidos, como o ensina eloquentemente a metáfora do hospital de campo. Dito isto, sua personalíssima visão da Igreja e do catolicismo vai numa direção que eu penso que se possa definir populista. O Papa é de fato certamente, de um lado, indignado pelas pavorosas e crescentes desigualdades econômicas globais, embora não pregue por certo a insurreição revolucionária, nem jamais nos indicou como sair de forma concreta da sujeição sob o pensamento único liberal.

À preocupação pelas condições de vida dos mais pobres entre os habitantes da terra, o Papa manifesta certa simpatia pelos sistemas de crenças mais populares entre estes setores. Crenças que o Papa não dá sinal de querer de algum modo modificar.

Infelizmente não tenho à disposição dos dados confiáveis sobre os peregrinos que se dirigem a San Giovanni Rotondo, mas creio que se possa dizer que Padre Pio é tudo exceto um “santo burguês”. Será certamente amado também por muitas pessoas cultas e pertencentes aos grupos idosos, mas o santo de Pietrelcina era um homem simples, privo de uma cultura refinada, impulsivo e sanguíneo.

Em suma, um homem do povo. O qual, com grande parte do povo de seu tempo compartilhava a confiança irracional naquele mundo encantado e nos limites da superstição das curas miraculosas, das conversões instantâneas, dos estigmas, do sobrenatural que se faz visível, dos anjos em luta com os demônios, etc.

Um universo simbólico decididamente pouco iluminista, empapado de pensamento mágico e herança antes viva de um mundo pré-moderno que ainda hoje custa desaparecer. Um mundo, genericamente não propriamente simpatizante com o individualismo moderno e os direitos dos casais homossexuais, que depois alimenta, e não pouco, a participação popular nos Family Day e a resistência cultural à mudança social e à difusão de uma mentalidade igualitária.

A este propósito, pode seguramente dar-se que o papa tenha, - como muitos sustentam, - desaprovado os altos tons e o estilo radicalmente opositivo do Family Day, mas certamente não parece distante e insensível aos valores (uma religiosidade tradicional baseada essencialmente sobre a devoção e a prece) que estão tanto a peito de muitíssimos dos participantes daquele evento. Todos eles, desde hoje, terão a possibilidade, graças a Francisco, de admirar os despojos do Padre Pio na Cidade Santa do catolicismo mundial.

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