Padre Arrupe, herói em Hiroshima. O relato de García Márquez

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06 Fevereiro 2016

"Uma testemunha presencial da devastação de Hiroshima pela bomba atômica está desde ontem em Bogotá: o sacerdote jesuíta Pedro Arrupe, que, no dia 6 de agosto de 1945 – primeiro dia da era atômica –, desempenhava o cargo de reitor do noviciado da Companhia de Jesus em Hiroshima." Era maio de 1955, quando um promissor repórter colombiano se encontrou com o futuro prepósito geral dos jesuítas. Ele escreveu uma magnífica reportagem sobre isso para o jornal El Espectador. E, a partir dessa conversa, o jornalista Gabriel García Márquez, então com 28 anos, saiu com algumas perguntas que, para serem respondidas, era necessário algo mais do que o melhor "realismo mágico".

A reportagem é do jornal Avvenire, 19-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota da IHU On-Line: Hoje, 05-02-2016, quando se celebra o 25º ano da morte do Padre Pedro Arrupe, traduzimos e reproduzimos uma série de artigos, sobre sua vida e seu testemunho.

Arrupe e a pequena comunidade de jesuítas sobreviveram à onda do choque, além disso, sem se contaminarem. Não só isso: o missionário espanhol era um dos pouquíssimos que entendia algo de medicina. E, na total falta de medicamentos, "um aldeão – relatou García Márquez – pôs à disposição do sacerdote um saco de 20 quilos de ácido bórico". Com esse produto, que, diluído com água, pode aliviar as queimaduras, foram socorridas dezenas de pessoas. "Hoje, todos se encontram em bom estado de saúde", disse o padre Arrupe.

O que aconteceu entre "Gabo" e o jesuíta foi algo mais do que uma entrevista de rotina. O grande escritor, falecido há um mês [em 2014], não renunciou a relatar nenhuma das circunstâncias que, para muitos, pareciam incríveis.

"O lugar onde a bomba explodiu era o centro geográfico e, ao mesmo tempo, o centro comercial da cidade. Ao redor desse centro, em uma área de dois quilômetros e meio, os habitantes foram vítimas imediatas da radioatividade, do calor e da explosão. Na área de dois quilômetros e meio em torno ao centro de radioatividade, foram vítimas das reações térmicas e da explosão. Dali em diante, em uma área de seis quilômetros, na qual se encontrava o noviciado da Companhia de Jesus, as vítimas foram causadas exclusivamente pela explosão." Mas nenhum jesuíta ficou ferido ou envenenado pelas radiações.

Em Hiroshima, havia 260 médicos. Duzentos morreram por causa da detonação. "A maioria dos restantes – escreveu Gabo – ficou ferida. Os muito poucos sobreviventes, entre eles o padre Arrupe, graduado em medicina, não dispunham de nenhum elemento para auxiliar as vítimas."

Antes disso, ninguém sabia nada sobre bombas atômicas nem sobre radioatividade. "Agora, qualquer um entende disso", explicou Arrupe. No comportamento dos nipônicos, havia algo de antigo e épico. "Todos os habitantes, salvo os sacerdotes católicos e 500 japoneses, professavam o culto a Buda: havia 750 templos, e apenas uma pequena paróquia católica no centro mesmo da explosão, e uma capela no noviciado, a seis quilômetros de distância."

Até mesmo isso, por si só, despertava admiração. O retorno dos religiosos era um fato recente. O próprio Arrupe, sendo espanhol, e sendo a Espanha um país neutro, tinha permanecido em território japonês depois que o governo do Mikado havia banido todos os estrangeiros originários de países considerados inimigos.

Não era a primeira vez. Por 250 anos, os padres não puderam pôr os pés no Estado insular. Porém, a fé cristã não se extinguiu. Uma história à qual o Papa Francisco se sente muito ligado. Quando jovem, de fato, ele queria ser enviado como missionário para o Japão. Foi-lhe dito que não, porque ele devia ficar saudável de novo. "Você ainda não é santo o suficiente", disse-lhe ironicamente o superior, que conhecia bem o Japão. Era o prepósito geral, justamente o padre Pedro Arrupe, que dirigiu a Companhia de 1965 a 1981.

"Ouçam esta", contou Bergoglio no dia 15 de janeiro, durante a audiência da quarta-feira. "A Igreja no Japão sofreu uma dura perseguição no início do século XVII, houve inúmeros mártires, membros do clero foram expulsos e milhares mortos, não permaneceu nenhum padre; na época, a comunidade se retirou para a clandestinidade, conservando a fé às escondidas, e, quando nascia uma criança, o pai ou a mãe o batizava, porque – sublinhou o papa – todos nós podemos batizá-lo. Cerca de dois séculos e meio depois, quando os missionários retornaram ao Japão, milhares de cristãos saíram à tona, e a Igreja conseguiu florescer: tinham sobrevivido com a graça do seu batismo. Isso é grande, tinham mantido, embora no segredo, um forte espírito missionário, estavam isolados e escondidos, mas sempre membros do povo de Deus, da Igreja. Podemos aprender tanto com essa história."

Arrupe, por meio do furacão radioativo, tinha admirado esse temperamento com os seus próprios olhos. "A recuperação moral Hiroshima foi quase imediata. No dia seguinte à catástrofe – escreveu García Márquez nas linhas finais – começaram a receber auxílios das cidades vizinhas. Durante seis dias, cada sobrevivente recebeu uma bacia com 150 gramas de arroz. A fortaleza moral do povo foi superior à bárbara e impiedosa experiência atômica."

Pouco depois que o bombardeiro norte-americano lançou a bomba mais devastadora de todos os tempos, "era impossível ver ou escutar – lembrou o missionário jesuíta – algo que lembrasse a presença humana".

No entanto, um ano depois, a cidade estava praticamente reconstruída. Não se podia esperar outra coisa de pessoas que, na ausência de Igrejas e clero, tinha conseguido preservar o cristianismo por mais de dois séculos entre as paredes domésticas.

Nem García Márquez nem o jesuíta quiseram falar de milagre, mas nem mesmo depois de muitos anos ambos conseguiam explicar "o que um agricultor de Hiroshima – perguntava-se Gabo – fazia com 20 quilos de ácido bórico em sua casa".

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