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29 Janeiro 2016

Spotlight é um filme sobre o que o jornalismo foi e deveria ser. Falamos com Walter Robinson, editor da equiea do Boston Globe que em 2001 desenterrou um historial de abusos sexuais que envergonhou o Vaticano.

A reportagem é de Hugo Torres, publicada por Público, 27/01/2016.

Phil Saviano, Patrick McSorley e Joe Crowley são três nomes de que pouco ouviremos falar a propósito de O Caso Spotlight. As interpretações de Mark Ruffalo (nomeado para o Oscar de melhor ator secundário), Michael Keaton, Liev Schreiber ou Stanley Tucci sobrepor-se-ão. O mérito da investigação jornalística que deu origem ao argumento encherá as medidas de quem vê nos media um pilar social. A ignóbil ação da Igreja Católica, que encobriu durante décadas milhares de casos de abuso sexual de menores, ocupará os demais.

Phil Saviano, Patrick McSorley e Joe Crowley são o mais próximo de um conjunto de heróis que encontramos no filme de Tom McCarthy (A Estação, O Visitante). A tentação é outra: mitificar a equipe de jornalistas do Boston Globe que ao longo de oito meses, em 2001, desenterrou meticulosamente a história que envergonhou o Vaticano e pôs um ponto final na confiança, por vezes cega, que as famílias católicas depositavam nos seus párocos, bispos, arcebispos e cardeais (paremos por aqui na hierarquia clerical...) e associados.

Phil Saviano, Patrick McSorley e Joe Crowley — contrariando a negação bíblica de Pedro, vale a pena afirmá-los três vezes — são as vítimas de padres pedófilos representados em O Caso Spotlight. Saviano, abusado aos 11, criou um grupo de apoio e foi essencial na reunião de provas. McSorley, molestado aos 12, morreu de overdose dois anos após a publicação da história. Crowley teve com um destes predadores, aos 15, o que considerava a sua primeira relação amorosa — o que acabou por assombrar a sua homossexualidade.

Walter Robinson, o editor que tinha às suas ordens os dois repórteres e o jornalista de dados da equipe Spotlight, que é interpretado por Michael Keaton, prefere tratá-los por “sobreviventes”. “Os únicos heróis no filme são os sobreviventes. Se eles não estivessem dispostos a contar as suas histórias, não teríamos grande coisa. Precisaram de muita coragem para falar publicamente”, diz ao Ípsilon por telefone, a partir dos EUA. “Nós só estávamos fazendo o nosso trabalho, parte do qual é andar aos tropeções no escuro.”

A modéstia da resposta pode surpreender quando se trata de uma série de notícias (mais de 600 publicadas entre 2002 e 2003) que revelou um dos maiores escândalos do nosso tempo e abriu uma ferida ainda por fechar no seio do Vaticano; quando se trata de um conjunto de notícias que valeu à sua equipa o Pulitzer e constituiu o maior furo jornalístico dos 140 anos de história do Globe. Mas é a resposta que se esperaria de Robinson no filme.

É, aliás, a resposta que dá o próprio filme. O argumento assinado por McCarthy e Josh Singer (O Quinto Poder) mostra-nos todos os passos da investigação, sem concessões a qualquer ideia de glamour. O jornalismo é apresentado tal como é: cinzento, às vezes caqui. Há gente a discutir, a ler papéis, a beber café, a ler papéis, a analisar listas com uma régua, a ler papéis, a tirar notas, a ler papéis, a falar ao telefone, a ler papéis, a ter conversas desconfortáveis, a ler papéis, a ser hostilizada, a ler papéis — e assim sucessivamente.

A crítica norte-americana, que distinguiu o filme e o argumento como os melhores do ano, é unânime no aplauso ao rigor com que O Caso Spotlight retrata a profissão. Ou, pelo menos, do que ela foi nestas circunstâncias (neste jornal, com estes jornalistas, neste tempo) e do que deveria ser sempre, apesar de todos os constrangimentos que a era digital lhe trouxe na década e meia que já nos separa de 2001. É a sobriedade do argumento — que não explora flashbacks dos crimes, nem ficciona a reacção dos padres às notícias — e o fato de se ter centrado no método da investigação que farão deste filme um clássico para jornalistas, aspirantes e interessados, subindo ao panteão em que se encontram Mundo a Seus Pés (Orson Welles, 1941) e Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976).

Nas universidades, o método desta equipe será exemplar. Walter Robinson explica o “padrão” que impôs à sua equipe: “Precisávamos de pelo menos duas vítimas e alguma outra prova corroborativa antes publicar o nome de um padre.” Simples na teoria, difícil na prática, modelar no procedimento. (“Mas a Igreja assustou-se. Quando alguém decidia falar e nomear um padre, mesmo que fosse apenas uma vítima, a arquidiocese suspendia imediatamente esse padre e anunciava-o. Muitos nomes foram tornados públicos assim.”)

“O filme é incrivelmente preciso, retratando os passos exatos que demos para desenterrar a história”, relata Walter Robinson. “Fomos longamente entrevistados pelo realizador e pelo argumentista, e fornecemos-lhes emails e documentos originais de 2001. Deixaram-nos depois olhar para o argumento e dar sugestões. Aceitaram algumas. Eles fizeram uma imensa pesquisa.” Tanta que o filme acaba por dar uma notícia: o Boston Globe tinha elementos para descobrir o caso há quase uma década.

“Quase todos os grandes jornais obliteraram pistas do que se passava. Isso acontece, em parte, devido à pressão da produção diária de informação. Mas também porque todos considerávamos inimaginável que a Igreja fosse capaz de permitir e depois encobrir abusos de centenas de padres, envolvendo milhares de crianças”, justifica Robinson. No filme, contudo, vemos como este fato abala a posição moral dos jornalistas face aos advogados que vinham ajudando a manter os casos em segredo e os impede de ascender à condição de agentes redentores aos olhos das vítimas. A notícia que vem do cinema impede O Caso Spotlight de se transformar num dualismo hollywoodesco sem futuro.

Alma mater

A religião é central em Boston, cidade que cresceu no século XIX com a imigração europeia, em particular a irlandesa e a italiana (a comunidade portuguesa também é significativa no estado do Massachusetts, de que Boston é a capital). A Igreja Católica é onipresente e exerce grande influência sobre os cidadãos, da classe baixa às elites da política e do dinheiro. Talvez por isso tenha sido necessário chegar ao Globe “um homem solteiro de fé judaica que odeia basebol”, Martin Baron (Liev Schreiber), para descortinar a história.

Baron assumiu a direção do jornal em 2001. A redacção recebeu-o com desconfiança: o que é que um tipo de Tampa, Florida, poderia saber sobre Boston? Hoje, é uma lenda: Baron percebeu de uma imediato o potencial da pequena notícia que leu na seção local e, logo no primeiro dia de trabalho, pôs a equipe Spotlight a investigá-la. “É uma boa lição. Todas as organizações podem beneficiar em ter um par de olhos frescos”, diz Walter Robinson. E não poupa elogios: “Marty Baron é provavelmente o melhor director de jornais dos EUA. É um jornalista brilhante. Tem padrões muito elevados.” (Baron dirige agora o Washington Post.)

A coragem foi essencial. Primeiro, de Baron — que, mais do que desafiar a Igreja, testou a lealdade dos assinantes do Globe, maioritariamente católicos (53%), num tempo em que o jornal tinha as vendas em queda havia quase uma década. Em comparação, e apesar da história do seu pai no jornalismo, o então director adjunto, Ben Bradlee Jr. (John Slattery), filho do director que supervisionou o trabalho de Carl Bernstein e Bob Woodward no escândalo de Watergate, reagiu sempre com precaução. Convenceu-se quando viu as provas.

Depois, a coragem dos próprios jornalistas. Walter Robinson percebeu que um dos seus amigos estava envolvido enquanto advogado; o seu liceu também. A repórter Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) é ela própria católica. Levava a avó à missa todos os domingos. Não sabia como prepará-la para o que tinha para lhe contar. O jornalista de dados Matt Carroll (Brian d'Arcy James), pai de quatro crianças, descobriu a meio da investigação que era vizinho de uma espécie de casa de reabilitação de pedófilos — e não o podia revelar à família.

O luso-descendente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é retratado como um jornalista sem vida pessoal, capaz de passar todo o seu tempo à espera de um advogado para o convencer a colaborar, ou a embrenhar-se nos arquivos judiciais à procura de documentos que um certo e obscuro entendimento entre a Justiça e a Igreja quer manter longe das suas vistas. Coragem profissional, emocional e até física. Mais a coragem dos sobreviventes.

“Cada entrevista era emocionalmente muito desgastante para os jornalistas, para todos nós. Muitas vezes, fomos as primeiras pessoas com que as vítimas conversaram”, recorda Robinson. A equipe ficou tão envolvida que passou a trabalhar sete dias por semana. Mesmo quando aconteceu o 11 de Setembro em Nova Iorque e a redacção foi integralmente mobilizada para a cobertura dos ataques, mesmo aí os jornalistas continuaram a trabalhar na investigação. “Sentimos uma profunda responsabilidade em publicar a história.”

Para deixar bem clara a dimensão do problema, a perenidade dos abusos e a aparente cegueira de toda uma cidade, Tom McCarthy abre o filme em 1976. Mostra-nos o padre John Geoghan, mais tarde acusado de abusar sexualmente de mais de 80 menores, a ser desculpado por agentes da polícia, numa esquadra, depois de ter sido apanhado com uma criança. Nessa altura, o chefe local da Igreja era ainda o luso-americano Humberto Sousa Medeiros, o predecessor do responsável afastado pelo Vaticano na sequência do escândalo — o cardeal Bernard Law (a quem João Paulo II atribuiu mais tarde um posto em Roma).

“Quando publicamos a história, pensamos que as pessoas ficariam chateadas conosco, mas ficaram gratas. Viam isto como um câncer que tinha de ser extirpado da Igreja”, diz Robinson. “Muitos católicos ficaram horrorizados. Tinham criado as suas crianças na Igreja e sentiram que as tinham posto em risco durante muitos, muitos anos.” O jornalista lembra que, nas semanas seguintes, houve centenas e centenas de pessoas a telefonar para partilhar histórias — de dentro e de fora dos EUA. “Até tivemos um par de chamadas de Portugal.”

Só em Boston, o Globe desmascarou 250 padres. Um número que os jornalistas apenas perceberam ser possível depois de falar com Richard Sipe (Richard Jenkins), um psicoterapeuta que deixou o sacerdócio para se dedicar à investigação destes abusos. É ele quem lhes diz que se trata de uma questão sistemática e não de “algumas maçãs podres”. Sipe tem uma das revelações mais desconcertantes do filme: a maioria das vítimas são rapazes não por os padres serem homossexuais, mas porque é mais difícil para eles do que para elas falar sobre abusos perpetrados por homens. O segredo fica mais bem guardado.

“A resposta da Igreja nos EUA foi substancial, mas persistem alguns problemas. Há dioceses onde os bispos ainda resistem”, lamenta Walter Robinson, que aplaude o “aparente” comprometimento do Papa Francisco, embora “ainda não tenha feito o suficiente”. Do ponto de vista dos horrores que revela, O Caso Spotlight estabelece pontes com As Irmãs de Maria Madalena (Peter Mullan, 2002) e Filomena (Stephen Frears, 2013).

O cinema dará à história um impulso definitivo? “O filme tem um impacto extraordinariamente poderoso nas pessoas. Muito mais do que a palavra impressa que nós fizemos. Creio que tem potencial para despertar a consciência pública sobre esta matéria para um novo nível. Estamos muito satisfeitos com isso. Acreditamos que, apesar de ter tido muita atenção, este assunto merece ainda mais — porque, de fato, os problemas continuam.”

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