Wall Street autoconsciente e cínica no filme "A Grande Aposta"

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Por: Cesar Sanson | 26 Janeiro 2016

Desde os anos 1980 fundos de investimento de Wall Street investem em Hollywood nos chamados estúdios independentes. Ironicamente, os mesmos estúdios que inventaram o subgênero “cinema da crise” que desde o crash da bolha especulativa imobiliária de 2008 denunciam as “fraudes” e “mentiras” de Wall Street em diversos documentários e dramas ficcionais.

O filme A Grande Aposta, indicado ao Oscar desse ano, é mais uma dessas produções supostamente críticas, mas ironicamente financiadas pelo próprio sistema que denuncia. Wall Street é autoconsciente e cínica ao financiar filmes como A Grande Aposta? Será que toda “ganância é boa” ao ponto do sistema financeiro lucrar com a própria denúncia de si mesmo? 

A reportagem é de Wilson Ferreira e publicado por GNN, 24-01-2016.

As ondas da crise financeira global de 2008 continuam se espalhando não só nas tendências econômicas, mas também no universo cinematográfico. Foi capaz de criar uma espécie de subgênero que poderíamos denominar como “cinema da crise”: Capitalismo - Uma História de Amor (2009), A Ascensão do Dinheiro (2009), O Último Dia do Lehman Brothers (2009), Trabalho Interno (2010), Margin Call: O Dia Antes do Fim (2011), O Lobo de Wall Street (2013), para ficar nos mais conhecidos.

Sejam documentários ou narrativas ficcionais, esses filmes têm em comum o esforço em tentar explicar aos leigos a terminologia hermética dos sistemas financeiros como subprimes, swaps, agências de classificação de risco, CDO sintética, CDO composta, obrigações hipotecárias, tranches etc.

A Grande Aposta é mais um filme desse subgênero que inova o esforço pedagógico ao misturar ficção e documentário, comédia e drama – um famoso cozinheiro falando das suas estratégias culinárias e Margot Robbie em uma banheira cheia de espumas fazem analogias para explicar termos financeiros; constantemente a quarta parede é rompida quando o narrador onisciente (que na verdade é um dos personagens) fala para o espectador; movimentos de câmera característicos da linguagem documental; personagens se dirigindo ao espectador para corrigir sua própria atuação ficcionalizada.

São recursos propositais que o filme utiliza para quebrar o ritmo e criar uma impressão de autoconsciência e cinismo.

Ironias

Mas esse “cinema da crise” guarda algumas ironias. Primeira: são produções de estúdios hollywoodianos e alguns chegaram a ser premiados e/ou indicados para o Oscar, como o caso de A Grande Aposta que concorre a Melhor Filme. O mainstream da indústria do entretenimento desmascarando fraudes e mentiras de Wall Street?

Segunda: desde os anos 1980 fundos de hedge de Wall Street passaram a investir em Hollywood, impactando a estrutura dos estúdios – passaram a financiar produções de estúdios independentes como a Catch 22 Entertainment, Lionsgate, Relativity Media e a própria Regency Enterprises, produtora de A Grande Aposta.

Questão paradoxal: Wall Street investe em filmes que revelam suas próprias mazelas à opinião pública? Como dizia Gordon Gekko (o inescrupulosa especulador do filme Wall Street feito por Michael Douglas) “a ganância é boa”. Mas ao ponto de fundos hedge de Wall Street procurarem lucros em filmes onde eles próprios são denunciados?

Talvez essa ganância pragmática não seja surpreendente tendo em vista o que praticaram em 2008: mesmo sabendo que as obrigações hipotecárias estavam podres, asseguravam a saúde financeira a seus clientes enquanto secretamente apostavam na explosão da bolha imobiliária. Afinal, dinheiro não tem ideologia, moral ou pátria.

Máquina de propaganda

Mas no caso do cinema da crise, parece haver um propósito de utilizar Hollywood mais uma vez como máquina de propaganda e de agendamento da opinião pública.

Como o filme Obrigado Por Fumar mostrou de forma magistral, em uma sociedade da informação é impossível negar, esconder ou negligenciar fatos e tendências. Esse filme mostrou como a indústria tabagista era capaz de financiar campanhas e pesquisas ao mesmo tempo contra e a favor do tabaco – deixe que as pessoas escolham o que é melhor para elas, mas o cigarro sempre estará em evidência.

A Grande Aposta parece ser mais um exemplo dessa tática, dessa vez com o sistema financeiro onipresente nas produções hollywoodianas: mostrar que a explosão da bolha imobiliária de 2008 foi o resultado da fraude, mentira e relações promíscuas (profissionais ou sexuais, como de passagem mostra o filme) entre as agências de classificação de risco e os bancos.

Fraude, mentira e promiscuidade são conceitos morais, perfeitos para um filme que se limita ao foco microeconômico (as táticas dos investidores, traders, bancos de investimento e fundos), passando ao largo das questões macroeconômicas – Banco Central e o sistema bancário norte-americano.

Veremos que A Grande Aposta, assim como todo o subgênero “cinema da crise”, é incapaz de abandonar o campo da moralização (mostrar os “bad guys”) e fazer um questionamento ontológico ou macroeconômico: como o sistema não apenas frauda, mas simula a riqueza com a substituição do dinheiro pelo crédito. E como as crises são as novas formas destrutivas de realização de lucros (quando crédito vira dinheiro), e não mais “o fim do capitalismo” como de forma sensacionalista esses filmes parecem quer passar com termos como “último dia”, “o fim” ou “o dia do apocalipse”.

O Filme

A narrativa acompanha quatro clarividentes excêntricos do mercado financeiro de diversas origens que, dois anos antes do crash de 2008, pressentem que a cintilante bolha do mercado financeiro iria explodir. Resolvem fazer apostas em massa contra o mercado imobiliário (fazer seguros de hipotecas subprimes), sob a descrença generalizada de todos: como um investidor vai apostar contra uma das instituições econômicas mais sólidas do país?

Michael Burry (Christian Bale) é um médico que se tornou um guru de um fundo de hedge. É o primeiro a pressentir que a inadimplência hipotecaria subirá incontrolavelmente a partir de modelos matemáticos de tendências.

Mark Baum (Steve Carrell) é um investidor impulsionado por uma mistura volátil de ódio contra o sistema, tristeza e profundo cinismo – considera-se o último dos justos de Wall Street.

Jared Vennett (Ryan Gosling) é um especialista de hipotecas subprime do Deutsche Bank onde está na melhor sequência didática do filme: explica o significado do colapso das subprimes a partir de uma pequena torre com blocos de madeira do jogo Jenga.

Ben Rickert (Brad Pitt) é um plutocrata com discursos conspiratórios, fala baixinho e caminha calmamente e acredita que a civilização está condenada – para ele, após “o fim” sementes para plantar serão a nova moeda. Ele vai ajudar dois jovens investidores de um escritório montado na garagem da casa da mãe a conseguir também apostar contra o mercado imobiliário.

O filme divide claramente os investidores em três categorias: os que enriqueciam sem entender a especulação que estavam manipulando e inflando (a striper que possui apartamentos e cobertura); os que sabiam perfeitamente o que acontecia mas seguiam operando sem se importar com as consequências – afinal, nada é mais sólido do que o mercado hipotecário; e os que anteciparam a crise.

Os protagonistas pertencem a essa terceira categoria que são caracterizados como freaks, outsiders, corsários, autônomos como fossem abutres pós-modernos que se antecipam à carniça. São mostrados como anti-heróis: Burry trabalha de bermudas, descalço e ouvindo rock pesado enquanto lida com modelos matemáticos; Baum odeia o sistema e é o único que apresenta algum escrúpulo com as consequências da crise para os cidadão comuns pela miséria e desemprego; Rickert é um desiludido à espera do apocalipse e Jared um funcionário que aposta contra o próprio banco que trabalha.

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