Os confins da misericórdia. Artigo de Vito Mancuso

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25 Janeiro 2016

"Eu, obviamente, posso estar errado, mas sinto que posso afirmar que Deus não pensa a família, muito menos a do Código de Direito Canônico. Ele pensa, em vez disso, a relação harmoniosa a qual chama todos os seres humanos, porque o sentido de estar no mundo é exatamente a relação harmoniosa, que se explicita de diversos modos e que encontra o seu cumprimento no amor. Cada indivíduo é chamado ao amor: este é o sentido da vida humana de acordo com o núcleo da revelação cristã. De modo que ninguém deve ser excluído da possibilidade de um amor pleno, total, até mesmo reconhecido publicamente", escreve o teólogo italiano, leigo, Vito Mancuso, professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-01-2016, ao comentar o discurso do Papa Francisco ao Tribunal da Rota Romana. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ao contrário de muitas outras vezes, o papa não surpreendeu ninguém com o discurso dessa sexta-feira, 22, ao Tribunal da Rota Romana, um texto totalmente de acordo com o roteiro, o mesmo que não só Bento XVI e João Paulo II, mas também todos os outros 263 papas poderiam ter proferido.

Francisco disse que "não pode haver confusão entre a família desejado por Deus e qualquer outro tipo de união", porque a família tradicional (ou seja, aquela "fundada no matrimônio indissolúvel, unitivo e procriador") pertence "ao sonho de Deus e da sua Igreja para a salvação da humanidade".

Existe, portanto, um modelo canônico de família, em relação ao qual todas as outras formas de união afetiva e permanente são níveis mais ou menos intensos daquilo que o papa definiu como "um estado objetivo de erro". É por isso que só a família da doutrina eclesiástica merece o nome de família, enquanto a todas as outras cabe o termo menos intenso de "união"...

Mas é realmente verdade que a família da doutrina eclesiástica corresponde ao desígnio de Deus? Ou ela também é uma determinada expressão social, nascida em um certo momento da história e, portanto, em um outro momento, destinada a declinar, como está acontecendo justamente nos nossos dias dentro das sociedades ocidentais?

Eu acho que o referendo da catolicíssima Irlanda, com o qual a constituição foi mudada para permitir que pessoas do mesmo sexo contraiam casamento, é uma lição imprescindível para o catolicismo, a qual, porém, em Roma, ainda se custa a reconhecer.

Na realidade, o fato de que a família evolui e muda já é mostrado pela linguagem. O termo "família" deriva do latim familia e, portanto, parece ser dotado de uma estabilidade mais do que milenar, mas, se consultarmos o dicionário, veremos que o termo latino, bem longe de se restringir ao modelo de família da doutrina católica, exprime uma gama de significados bem mais amplas: "Complexo de escravos, servos; tropa, quadrilha; companhia de comediantes; a casa inteira que inclui membros livres e escravos; estirpe, casta, gente".

O mesmo vale para o grego do Novo Testamento, a língua da revelação divina para o cristianismo, que conhece um significado totalmente semelhante ao latino, pois usa, a esse respeito, o termo oikia, que significa, em primeiro lugar, "casa" (daí também o termo "paróquia", formado por oikia + a preposição pará, que significa "junto").

No hebraico bíblico, casa e família também são sinônimos: dizer "casa de Davi" é o mesmo que "família de Davi", ou seja, remete-se ao casario, incluindo mulheres, filhos, escravos, concubinas, bens móveis e imóveis.

Portanto, as línguas da revelação de Deus não conhecem o termo família no sentido usado pela doutrina católica tradicional e reiterado nessa sexta-feira pelo papa. Não é um pouco estranho? A estranheza aumenta se abrirmos a Bíblia. É verdade que, nela, lê-se que "o homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e eles dois se tornarão uma só carne" (Gênesis 2, 24), mas, se analisarmos as existências concretas dos homens escolhidos por Deus como veículos da Sua revelação, vemos um cenário muito diferente, com outras formas de família: Abraão teve três mulheres (Sara, Agar e Quetura); Jacó, dua; Esaú, três; Davi, oito; Salomão, 700.

À parte Salomão, que, com efeito, excedeu, não há uma única palavra de condenação da Bíblia contra eles. O que dizer? A palavra de Deus é contra o desígnio de Deus? Ou se trata de textos que devem ser interpretados historicamente? Mas, se os textos bíblicos devem ser interpretados historicamente, como não afirmar que também deve ser interpretado historicamente o modelo de família da doutrina eclesiástica?

Isso deveria levar, a meu ver, a evitar afirmações como "estado objetivo de erro". A vida cotidiana na sua concretude ensina que há uniões muito pouco tradicionais de seres humanos, nas quais a harmonia, o respeito, o amor são visíveis por todos e, vice-versa, uniões com o devido sacramento católico nas quais a vida é um inferno.

Estamos, portanto, realmente certos de que a doutrina católica tradicional sobre a família é coerente com a afirmação tão cara ao Papa Francisco segundo a qual "o nome de Deus é misericórdia"? Eu, obviamente, posso estar errado, mas sinto que posso afirmar que Deus não pensa a família, muito menos a do Código de Direito Canônico. Ele pensa, em vez disso, a relação harmoniosa a qual chama todos os seres humanos, porque o sentido de estar no mundo é exatamente a relação harmoniosa, que se explicita de diversos modos e que encontra o seu cumprimento no amor. Cada indivíduo é chamado ao amor: este é o sentido da vida humana de acordo com o núcleo da revelação cristã. De modo que ninguém deve ser excluído da possibilidade de um amor pleno, total, até mesmo reconhecido publicamente.

E é precisamente por isso que nos desposamos: para que o próprio amor, de fato ou simplesmente privado, adquira uma dimensão pública, política, por ser reconhecido pela polis. Esse amor é definível como integral conforme integra a dimensão subjetiva com a dimensão pública e objetiva da existência humana.

O nascimento de alguns seres humanos com uma inextirpável inclinação sexual para com pessoas do mesmo sexo é um fato, não pequeno, aliás: eles devem permanecer estruturalmente excluídos da possibilidade do amor integral?

Na realidade, a aspiração ao amor integral deve ser reconhecido como direito inalienável de todo ser humano, adquirido no nascimento. O amor integral é um direito nativo, primigênio, radical, isto é, diz respeito à própria raiz do ser humano, e ninguém pode ser privado dele. Muitas vezes, no passado, alguns o foram, e ainda hoje, em muitas partes do mundo, não raramente, continuam a sê-lo.

Hoje, porém, o tempo está completo para apoiar do modo mais explícito que todos têm o direito de se realizar no amor integral, heteroafetivos ou homoafetivos, sem distinção. A maturidade de uma sociedade é medida pela possibilidade dada a cada cidadão de realizar o direito nativo ao amor integral, mas eu acredito que a maturidade da comunidade cristã também é medida pela capacidade de acolhida a todos os filhos de Deus assim como vieram ao mundo, sem excluir ninguém.

O que quer dizer que "o nome de Deus é misericórdia" para quem nasce homossexual? É bastante fácil dizer que Deus é misericórdia quando nos encontramos diante de casos elaborados por séculos de experiência. Mais difícil quando nos encontramos diante do pedido de reconhecimento da plena dignidade por parte daqueles que, por séculos, tiveram que reprimir a própria identidade.

Aqui, a misericórdia só pode ser exercida modificando a própria visão de mundo, ou infringindo o tabu da doutrina. Mas é aqui que se mede a verdade evangélica, é aqui que se vê se vale mais o sábado ou o homem. É aqui que o Papa Francisco joga boa parte do valor profético do seu pontificado.

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