De Certeau, um "sujeito de inquietação verdadeira"

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12 Janeiro 2016

Um sociólogo, um antropólogo, um historiador da espiritualidade ("sou apenas um viajante da literatura mística") capaz de interpretar o pós-moderno e o inconsciente dos contemplativos do século XVII, através das categorias da psicanálise freudiana que ele aprendeu na escola de Lacan, ou simplesmente um sacerdote jesuíta capaz de ler o "cristianismo em pedaços" da sociedade do seu tempo.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada no jornal Avvenire, 09-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A 30 anos da morte de Michel de Certeau (1925-1986), ocorrida na fria noite do dia 9 de janeiro de 1986, em Paris, ainda são muitos e inumeráveis os traços distintivos e atuais, mas também as interrogações em aberto em torno dessa complexa figura do século XX – que foi, dentre outras coisas, junto com Hans Urs von Balthasar, um dos discípulos prediletos de Henri de Lubac –, definida pelo seu coirmão Maurice Giuliani como um "sujeito de inquietação verdadeira" pela sua capacidade de ser transversal no conhecimento entre os saberes e as práticas cotidianas: da filosofia à teologia, da psicanálise à história, até a etnografia.

Um estudioso de raça citado e tomado como modelo pelo próprio Papa Francisco (a homenagem a Certeau aconteceu durante a sua primeira entrevista como pontífice a Antonio Spadaro nas colunas da revista La Civiltà Cattolica em setembro de 2013) por ter sido um dos melhores intérpretes e curadores do Memorial escrito pelo primeiro sacerdote da Companhia de Jesus e hoje santo: Pedro Fabro (1506-1546).

E, justamente sobre a edição crítica a esse volume, editada em 1960 por Certeau – natural da Saboia, como o seu autor –, quem se debruça é Diana Napoli, jovem estudiosa e autora de Lo storico "smarrito", belo livro dedicado ao intelectual francês, publicado pela editora Morcelliana.

"A centralidade desse texto tem como seu núcleo fundamental o tema da viagem que se repetirá também em outras publicações de Certeau como A escrita da história. Fabro é um viajante exatamente como Certeau, ao qual se assemelha: reconhecem-se em ambos as mesmas virtudes como a ternura, a afabilidade, a capacidade de estreitar e tecer amizades. Trata-se de um relato quase biográfico de Certeau: ainda não há a leitura mais psicanalítica e inquieta que emergiria em outro jesuíta e exorcista como seria o estudado apenas poucos anos depois como Jean Joseph Surin (1600-1665).

Tanto Certeau quanto Fabro são viajantes experimentadores, embora colocados um na Europa do Concílio de Trento às lidas com os protestantes, e o outra naquela do pós-Concílio: movem-se, como diria o Papa Francisco, rumo às 'periferias', 'saem de si mesmos' e debatem as questões mais candentes do seu tempo. Lendo a introdução ao Memorial, ainda não há a leitura complexa e típica da produção posterior de Certeau, que se manifestaria nos seus ensaios mais maduros como Fábula mística, em que o autor vai usar novas categorias como o diálogo com a psicanálise e a interdisciplinaridade, a descoberta de categorias novas como o 'retorno do reprimido' na sua prática de historiador profissional. Parece quase que Fabro é o espelho de Certeau, enquanto Surin é, em certo sentido, a sua sombra, o seu fantasma".

Mas palavras como "alteridade", "errância" também disciplinar e "ruptura" às vezes "refundadora" parecem ser, a tantos anos do seu falecimento, as outras chaves hermenêuticas mais adequadas para compreender a grandeza desse intelectual, natural de Chambéry, à luz da sua leitura da revolução estudantil de 1968 em Paris, da sociedade contemporânea (pense-se nos seus ensaios como A captura da fala ou A invenção do cotidiano), da sua interpretação do cristianismo pós-conciliar (basta reler os seus textos mais proféticos como Fraqueza do crer).

Disso está convencido o teólogo beneditino alemão Elmar Salmann. "Eu acho que, relendo essas publicações, vê-se o 'salto de qualidade' do seu 'mestre de sempre', Henri de Lubac. Com o 1968 e o pós-Concílio, há a ruptura entre esses dois grandes pensadores e nascerá daí um silêncio de comunicação que nunca mais seria preenchido. Com o idoso jesuíta de Fourviére ainda há uma interpretação do cristianismo para dentro da Igreja: basta retomar em mãos a sua obra-prima, Catholicisme, ou as suas reflexões em torno de questões como a liberdade e a graça. Com Certeau, abrimo-nos a cenários novos: há uma visão capaz de ler o pós-moderno, que também olha para aqueles que estão fora da Igreja. A meu ver, há a ideia de uma "gramática do cristianismo" que se expõe ao anonimato e o mistério da ausência de Deus".

E é justamente na sua atenção às "diásporas do crer", segundo uma feliz definição de Carlo Ossola e no seu dar finalmente voz e semelhança às figuras dos místicos da Companhia de Jesus olhados com preocupação por aquela "espiritualidade suspeita" da hierarquia da sua ordem e do Santo Ofício – como aqueles narrados em Fábula mística, do já citado Surin e os seus demônios combatidos no convento de Loudun em 1638, aos "santinhos de Aquitânia", Louis Lallemant ou Jean de Labadie – que emerge um Michel de Certeau capaz de estar à margem da história e de relatar as tramas desses "estrangeiros em casa" e as suas "periferias existenciais".

É a convicção que vem de Silvano Facioni, editor, pela Jaca Book, dos textos mais importantes de Certeau, como Fábula mística e A escrita da história. "Nele, é fundamental a centralidade de tudo o que é marginal, residual, porque a margem é inaferrável. Assim como certamente é singular a importância que ele reconhece ao inconsciente, ao 'significado do insignificante', ao 'estrangeiro que nos habita'. Uma das suas maiores lições foi justamente a de encontrar o outro e de tentar compreendê-lo".

E anuncia uma importante novidade editorial: a próxima publicação pela Jaca Book do livro póstumo Fábula mística II: "Esperamos 30 anos para ter na Itália esse texto editado pela sua discípula e executora testamentária, Luce Giard. Trata-se de um volume em plena continuidade com o primeiro, em que, no centro da narrativa, aparecem novos personagens, caros a Certeau, como Cusa, João da Cruz e Pascal. No entanto, respeitou-se a vontade do autor de nunca publicar coisas incompletas".

Uma herança e um legado, portanto, ainda atual a 30 anos da sua morte. "Até poucos anos atrás, nas universidades pontifícias, ele era visto quase como um autor marginal e 'esotérico'", é a reflexão final de Salmann. "Era quase impossível pensar na ideia de um doutorado sobre Certeau. Mas hoje há uma total redescoberta desse autor graças à sua 'errância' nos saberes e na sua arte de ter criado uma gramática capaz de compreender, em certo sentido, a situação social e religiosa do cristianismo minoritário na Europa."

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