O apoio de dois professores sionistas ao boicote contra Israel

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12 Janeiro 2016

"Para apoiadores de Israel como nós, todas as formas de pressão são dolorosas. As únicas ferramentas que poderiam influenciar os cálculos estratégicos de Israel seriam a retirada de ajuda e apoio diplomático dos Estados Unidos, e boicotes e desinvestimento da economia de Israel. Boicotar apenas os bens produzidos nas colônias não teria impacto suficiente para induzir israelenses a repensar o status quo" declaram Steven Levitsky, professor na Universidade de Harvard, e Glen Weyl, professor de economia e direiro na Universidade de Chicago, em artigo publicado por Washington Post e reproduzido por Viomundo, 10-01-2016.

Eis o artigo.

Somos sionistas por toda a vida. Aqui explicamos porque decidimos boicotar Israel.

Somos sionistas por toda a vida. Como outros judeus progressistas, nosso apoio a Israel é fundado em duas convicções: primeiro, que um Estado era necessário para proteger nosso povo de um futuro desastre; segundo, que qualquer Estado judeu seria democrático, abraçando os valores universais dos direitos humanos que muitos tiraram como lição do Holocausto.

Medidas antidemocráticas, tomadas para garantir a sobrevivência de Israel, como a ocupação dos territórios palestinos, entendíamos como sendo temporárias.

Mas precisamos encarar a realidade: a ocupação se tornou permanente.

Quase meio século depois da Guerra dos Seis Dias, Israel está se tornando um regime de apartheid contra o qual muitos de seus ex-líderes alertaram.

A população de colonizadores na Cisjordânia aumentou 30 vezes, de 12 mil em 1980 para 389 mil hoje.

A Cisjordânia é tratada cada vez mais como parte de Israel, com a linha verde que demarcava os territórios ocupados apagada de muitos mapas.

O presidente de Israel, Reuven Rivlin, declarou recentemente que o controle da Cisjordânia “não é uma questão para debate político. É um fato básico do sionismo moderno”.

O “fato básico” representa um dilema para os judeus norte-americanos: podemos continuar a abraçar um Estado que permanentemente nega direitos básicos a outro povo?

Também representa um problema para a perspectiva Sionista: Israel embarcou num caminho que ameaça sua própria existência.

Como aconteceu nos casos da Rodésia e da África do Sul, a permanente subjugação dos palestinos vai inevitavelmente isolar Israel das democracias do Ocidente.

Não apenas o apoio dos europeus a Israel está desaparecendo, mas também o apoio da opinião pública dos Estados Unidos — que já foi sólido como pedra — está mudando, especialmente entre os jovens. Status internacional de Estado-pária não é uma receita para a sobrevivência de Israel.

Em casa, a ocupação está exacerbando pressões demográficas que ameaçam despedaçar a sociedade israelense.

O crescimento das populações de colonizadores e ultra-ortodoxos alimentou o chauvinismo e alienou ainda mais a crescente população árabe. Dividida entre comunidades irreconciliáveis, Israel se arrisca a perder a tolerância mínima necessária a qualquer sociedade democrática. Em tal contexto, violência como na recente onda de ataques em Jerusalém e na Cisjordânia provavelmente vai se tornar cotidiana.

Finalmente, a ocupação ameaça a segurança que pretendia assegurar. A situação de segurança de Israel mudou dramaticamente desde as guerras de 1967 e 1973.

A paz com o Egito e a Jordânia, o enfraquecimento do Iraque e da Síria e a superioridade militar absoluta de Israel — inclusive sua força nuclear não declarada — acabaram com qualquer ameaça existencial representada pelos vizinhos árabes.

Mesmo um Estado palestino liderado pelo Hamas não poderia destruir Israel.

Como seis ex-diretores do serviço de segurança interno de Israel, o Shin Bet, argumentaram no documentário The Gatekeepers, de 2012, é a ocupação em si que realmente ameaça a segurança de longo prazo de Israel: a ocupação força Israel a uma guerra assimétrica que causa a erosão de seu apoio internacional, limita sua habilidade de fazer alianças regionais contra o extremismo sectário e, crucialmente, permanece como o principal motivador da violência palestina.

Ao tornar a ocupação permanente, os líderes de Israel estão solapando a viabilidade do próprio Estado.

Infelizmente, movimentos domésticos para evitar tal destino sumiram. Graças a um boom econômico e à segurança temporária oferecida pelo muro da Cisjordânia e ao sistema defensivo de mísseis Iron Dome, boa parte da maioria secular Sionista de Israel sente que não precisa dar os passos necessários a uma paz duradoura, como expulsar os colonos da Cisjordânia e reconhecer a mancha moral do sofrimento causado por Israel a tantos palestinos.

Estamos num momento crítico. O crescimento das colonias e tendências demográficas vão em breve impedir Israel de mudar de rumo. Por muitos anos, apoiamos governos israelenses — mesmos aqueles dos quais fortemente discordamos — na crença de que Israel segura agiria para defender seus interesses de longo prazo. Tal estratégia fracassou.

Os apoiadores de Israel, tragicamente, se tornaram cúmplices. Hoje, não há perspectiva real de Israel adotar as medidas necessárias para garantir sua sobrevivência como Estado democrático sem pressão externa.

Para apoiadores de Israel como nós, todas as formas de pressão são dolorosas. As únicas ferramentas que poderiam influenciar os cálculos estratégicos de Israel seriam a retirada de ajuda e apoio diplomático dos Estados Unidos, e boicotes e desinvestimento da economia de Israel. Boicotar apenas os bens produzidos nas colônias não teria impacto suficiente para induzir israelenses a repensar o status quo.

Assim, relutante mas decididamente, nós nos negamos a viajar a Israel, boicotamos os produtos de lá e pedimos às nossas universidades que desinvistam em Israel e que nossos representantes eleitos retirem a ajuda financeira. Até que Israel seriamente se engaje num processo de paz que estabeleça um estado palestino soberano ou dê cidadania completa a palestinos vivendo em um estado único, não podemos continuar a subsidiar governos cujas ações ameacem a sobrevivência de longo prazo de Israel.

Israel, naturalmente, não é o pior violador de direitos humanos do mundo. Boicotar Israel mas não outros Estados que violam direitos não é dois pesos, duas medidas? Sim. Mas amamos Israel e estamos profundamente preocupados com sua sobrevivência. Não sentimos o mesmo em relação ao destino de outros Estados.

Ao contrário de outros Estados isolados internacionalmente, como a Coreia do Norte e a Síria, Israel poderia ser significativamente afetado por um boicote. O governo de Israel não pode seguir seu curso errôneo sem ajuda moral, financeira, de investimento, de comércio e diplomática dos Estados Unidos.

Reconhecemos que alguns dos apoiadores do boicote são guiados pela oposição (e mesmo pelo ódio) a Israel. Mas nossa motivação é precisamente a oposta: amor pelo Estado de Israel e desejo de salvá-lo.

Sentindo repulsa pelo fanatismo etno-religioso dos afrikâners da África do Sul, o fundador Theodore Herzl escreveu: “Não queremos um estado Bôer, mas Veneza”.

Os sionistas norte-americanos precisam agir para pressionar Israel a preservar a visão de Herzl — e para se salvar.

PS do Viomundo: Setores minoritários da esquerda brasileira têm demonstrado um nível baixíssimo de informação sobre o tema.

Veja também:

Palestina e Israel. A luta pela Paz Justa. Revista IHU On-Line, Nº. 402

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