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15 Janeiro 2016

Aqueles de nós cujas memórias são antigas o suficiente para recordar os dias da Revolução Sandinista na Nicarágua conhecem, por vários motivos, estão familiarizados com os nomes Miguel D’Escoto, Ernesto Cardinal e Fernando Cardenal, especialmente por suas nomeações a cargos no governo sandinista e pela resposta menos animada de Roma à ideia de sacerdotes ordenados estarem servindo a um governo marxista-socialista. Em geral, sabemos menos acerca de Fernando, porém estas memórias recém-publicadas, encurtadas da versão original publicada em 2009, deveriam mudar essa impressão.

O comentário é de Paul Lakeland, diretor do Centro de Estudos Católicos da Fairfield University, publicado por America, 25 de janeiro de 2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Um jesuíta que acabou se comprometendo com a luta anti-Somoza na década de 1970, tornando-se diretor da Cruzada Nacional de alfabetização e, mais tarde, ministro da Educação no governo pós-revolucionário na década seguinte, Fernando Cardeal foi forçado por João Paulo II a deixar a Companhia de Jesus. Continuou, todavia, a viver na comunidade e, depois, se tornou a primeira pessoa a ser readmitida aos votos na ordem jesuíta após ter sido desligado. A tudo isso, em seu relato Cardeal acrescenta um bocado de cor e paixão, com uma pitada de humor aqui e ali. 

Ainda que o texto das memórias remonte brevemente ao tempo de formação do autor na qualidade de jesuíta e termina em 2004, com o seu pronunciamento dos votos perpétuos na ordem, a maior parte destas recordações cobrem os anos de 1970 a 1990.

Em 1970, Cardenal assumiu o seu primeiro posto como sacerdote, atuando na Universidade Centro-Americana (UCA) em Manágua como vice-presidente para assuntos estudantis. Em 1990, o governo sandinista de Daniel Ortega, de modo surpreendente, perdeu a eleição para uma coalizão de partidos pequenos liderados por Violetta Chamorro, precipitando a corrupção e lutas pelo poder entre os sandinistas, o que levou Cardeal a se desligar do partido. Ele saiu pelo mesmo motivo que tinha se juntado ao partido havia mais de 15 anos: a sua preocupação com os pobres.

Em meus 35 anos lecionando Teologia da Libertação, ouvi repetidas vezes que, aqui, tudo se inicia na experiência dos pobres e que, nas palavras famosas de Gustavo Gutiérrez, “a teologia vem depois”, ela é o “segundo ato”. Que isso é verdade eu não tenho dúvida, e consequentemente aprendi também que, se quisermos lecionar Teologia da Libertação aos alunos, os inúmeros ensaios dos grandes teólogos acadêmicos latino-americanos empalidecem ao lado de relatos escritos em primeira mão. O melhor de todos tem sido o conjunto de entrevistas dadas no Brasil na década de 1980 de Mev Puleo, intitulado “The Struggle Is One: Voices and Visions of Liberation”. Mas “Faith and Joy” está, certamente, entre os melhores.

Faith and Joy é um relato em primeira pessoa do que significou, para os pobres, uma mudança revolucionária. O livro descreve, geralmente em detalhes, muitos dos movimentos atuantes na revolução nicaraguense com inspiração católica. Encontramos a própria versão nicaraguense dos movimentos estudantis que marcaram a Europa nos idos de 1960, quando os alunos da UCA exigiram uma maior participação em sua própria formação e ocuparam a universidade até que estas exigências fossem ouvidas. Aprendemos como a ordem dos jesuítas na América Central mudou a sua orientação para o serviço aos pobres. Temos um relato ocular da devastação terrível do terremoto que arrasou Manágua em 1972. E somos levados ao longo da autoanálise que Cardenal fez antes de se comprometer com a causa da Frente Sandinista para a Libertação da Nicarágua.

De forma inevitável, os capítulos mais interessantes são os que cobrem os anos entre a aproximação do sacerdote à Frente Sandinista e o final do governo de Ortega, em 1980. Pode constituir surpresa para alguns o quão importante Cardenal foi nos cinco anos antes de Somoza ser derrubado do poder, quando atuava como um dos membros do “grupo dos 12”, time influente de pessoas que, em sua maioria, viviam fora de Nicarágua naquele período.

Não eram oficialmente representantes da Frente Sandinista, mas trabalhavam para promover a sua causa nos países da América Central, em particular a Costa Rica. Sem dúvida, foi o sucesso de Cardenal que o levou a receber uma proposta para participar do novo governo, embora ele tenha ficado horrorizado em saber que queriam que ele fosse o embaixador do país nos Estados Unidos. Felizmente para ele, esta ideia foi deixada de lado em nome de uma função muito mais apropriada: a de trabalhar com a juventude.

Os bispos nicaraguenses da época eram bastante conservadores, muito embora no fim eles falaram abertamente contra Somoza. (Um amigo certa vez os descreveu para mim, nos dias depois que se deu a revolução, como “menininhos que tiveram os seus brinquedos tirados”.) Eles se puseram a invocar o Cânone 285 do Código de Direito Canônico, que proíbe que sacerdotes assumam cargos públicos.

Apesar da intervenção do secretário de Estado do Vaticano à época, o Cardinal Casaroli, Cardenal, juntamente com o seu irmão Ernesto e o padre maryknoll Miguel D’Escoto, foram suspensos do trabalho sacerdotal e Cardenal acabou sendo desligado da Companhia, embora os jesuítas estivessem obedecendo o édito papal com o coração partido e tendo feito tudo o que estava ao alcance para mitigar o dano. Mais tarde, felizmente, ele foi reintegrado.

Esta história é conhecida e continua sendo angustiante. O que este livro acrescenta, nesse episódio bem como em todos os 15 capítulos, é o testemunho em primeira mão de um homem santo para com a luta em ser fiel ao chamado do Evangelho no cuidado dos pobres. “Faith and Joy” [fé e alegria] é um bom título para o livro. Mas talvez “Courage and Compassion” [coragem e compaixão] teria sido melhor ainda.

Faith & Joy
Fernando Cardenal, S.J. 
Orbis Books. 288 páginas, US$ 29,00

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