Reflexões sobre a assembleia da Conferência Episcopal dos EUA (Parte I)

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24 Novembro 2015

"Há desacordos entre os bispos em todas as suas reuniões, porém eles sempre são manifestados em termos respeitosos e falados com caridade. Sou todo a favor das discordâncias abertas entre os bispos, mesmo quanto a questões importantes, como vimos no Sínodo e como vimos no dia 17 de novembro passado. Os adultos podem e, mesmo, devem discordar às vezes", escreve Michael Sean Winters, jornalista e escritor, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 18-11-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Na quarta-feira (18 de nov.), os bispos americanos encontram-se a portas fechadas em sessão executiva enquanto nós, jornalistas, nos direcionados às portas de saída. Vendo em retrospectiva os últimos dois dias de sessões públicas, quatro momentos merecem destaque especial, dois dos quais demonstram o que é bom e saudável sobre a Conferência dos Bispos americana e dois que ressaltam aquilo que continuo a pensar serem os verdadeiros problemas que devem ser abordados em algum momento, mas que não foram, de fato, olhados de perto este ano.

O primeiro momento foi a intervenção, no dia 17, por Dom Robert McElroy (de San Diego) na discussão do “Faithful Citizenship” [documento oficial do citado organismo episcopal]. O meu colega Tom Roberts escreveu sobre a intervenção de McElroy e a resposta que ela fez surgir. O bispo estava tomado pela emoção e a sua eloquência combinava com o seu sentimento. Não é necessário dizer que, nas questões relativas à interseção da política pública com a teologia moral católica, inexiste alguém mais esclarecido do que McElroy. E a sua fala foi mais notável ainda à luz do fato de que ele esteve no comitê administrativo que revisou o documento, reconheceu o trabalho árduo empregado por todos nele, mas, no final, concluiu que o texto era insuficiente e deveria ser rejeitado.

O organismo episcopal não concordou com McElroy e o texto foi adotado. Mas, quer concordemos com ele ou não, e eu particularmente concordo, tratou-se de um momento impressionante e me fez recordar de uma troca de correspondência entre o Pe. John Courtney Murray, SJ, e o Msgr. John Tracy Ellis. Em 1953, ao refletir sobre as mudanças dentro na hierarquia americana, Ellis escreveu a Murray: “Algo bonito e animador saiu da Igreja americana, e é difícil ver como algo assim poderá ser recobrado”. Ao escutar McElroy falar, algo bonito e animador retornou à Igreja dos EUA, foi o que pensei comigo, e é a combinação rara de McElroy envolvendo um esforço intelectual com uma sensibilidade pastoral, tão evidente na pessoa do Papa Francisco também, o que recobrou aquela qualidade admirável.

O segundo momento veio logo depois, quando o Cardeal Donald Wuerl (de Washington) discursou aos bispos sobre o mesmo tópico. Wuerl instou os prelados a adotarem o texto, observando que ele não era perfeito, sustentando que o perfeito não deveria ser inimigo do bom, e aqui ele tinha duas coisas boas em mente: a necessidade de preservar certa semelhança de unidade entre um organismo profundamente dividido e a necessidade de ofertar o ensinamento ao Povo de Deus nos EUA.

A fala de Wuerl acabou com a tentativa de rejeição do documento, mas as suas palavras não foram as de um guerreiro cultural, e sim de um eclesiástico. Há um motivo pelo qual Wuerl talvez seja o membro mais respeitado da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA – USCCB, e mesmo se se discorda dele nesse ou naquele assunto, como o fez McElory, a combinação do poder intelectual e a sua sensibilidade pastoral é notável.

A intervenção do cardeal lembrou um outro momento na história da Igreja. Em 12 de outubro de 1899, os arcebispos da Igreja Católica nos Estados Unidos se reuniam para o seu encontro anual. Era o primeiro encontro do gênero desde a encíclica Testem Benevolentiae, do Papa Leão XIII, a qual havia condenado a heresia do “americanismo”. Em resposta à encíclica, o Cardeal James Gibbons (de Baltimore) escreveu a Roma para assegurar ao papa que ninguém nos EUA sustentava as doutrinas condenadas, que elas eram imaginações febris dos europeus hostis à vida neste país. Dom Frederick Katzer (de Milwaukee) escreveu a Roma, sugerindo que aqueles que negavam a heresia eram, na verdade, jansenistas. A carta de Katzer foi uma afronta direta a Gibbons.

Quando os arcebispos se reuniram, Katzer não estava presente. Dom John Ireland (de St. Paul), um dos aliados mais próximos de Gibbons, instou uma resolução por parte dos bispos em oposição a Katzer, negando que os erros condenados na encíclica existiam. A votação estava empatada até que Gibbons foi chamado para desfazer a situação. A resolução era feita no sentido de proteger a sua reputação. Eis como Ireland relatou o evento: “[os arcebispos Riordan, Kain, Christie e eu] tentamos reunir um protesto conjunto contra a ideia da existência de erros. A Filadélfia quase se juntou, mas Baltimore [Gibbons] gritou: ‘paz, paz – a morte para o bem da paz’, e nada foi conseguido”.

A intervenção de Wuerl foi o mesmo que a intervenção de Gibbons, um grito em nome da paz dentro da Conferência que transcendeu as questões em jogo, um apelo à unidade que exemplificou própria a unidade buscada. Devo observar que, como atual analista da Igreja, tenho ficado admirado com o Cardeal Wuerl.

Os outros dois momentos foram menos felizes. Durante a mesma discussão [do documento] Faithfull Citizenship, Dom Leonard Blair (arcebispo de Hartford) disse que estava preocupado com a “retórica da mudança de regime na Igreja”. Realmente, não lembro de ninguém empregando este termo horrível – “mudança de regime” – ao descrever as transformações que todos nós temos testemunhado nos últimos dois anos e meio de pontificado de Francisco. Há algo concernente ao uso da palavra “regime” no jargão político americano que sugere uma lufada de ilegitimidade, ou pelo menos algo mais efêmero do que implica a palavra “governo”. Faço notar, entretanto, que há uma verdade na observação de Blair: existe uma enorme continuidade entre os papados recentes, pelo menos no concernente à doutrina católica, muito embora não há como negar que houve mudanças significativas também. Questões que certa vez eram consideradas tabus foram discutidas abertamente nos dois últimos sínodos sobre a família. Dom Blase Cupich agora se encontra em Chicago (e não em Spokane). Os bispos que comprovadamente falharam em proteger os menores ou não conseguiram conduzir as suas dioceses de forma eficaz têm sido removidos do cargo bem antes da idade de aposentadoria compulsória. Eis algumas mudanças bem significativas.

Blair fez referênca ao discurso de Natal proferido à Cúria pelo Papa Bento XVI em 2005, observando que o Santo Padre, na interpretação do Concílio Vaticano II, havia rejeitado a “hermenêutica da descontinuidade”, associada com a escola de história de Bolonha, e, em vez disso, falou de uma “hermenêutica da continuidade”. O problema, como fiz notar em outro artigo, é que Bento nunca disse “hermenêutica da continuidade”. Esta frase foi rapidamente adotada pelos defensores americanos mais conservadores de Bento, porém ele nunca a proferiu e esta mudança na formulação evidencia uma pauta. Eis o parágrafo relevante daquele discurso de 2005:

“Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir ‘hermenêutica da descontinuidade e da ruptura’; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a ‘hermenêutica da reforma’, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho”.

A “hermenêutica da reforma” inclui elementos tanto de descontinuidade como de continuidade, conforme explicou Bento, e avaliar o pontificado de Francisco requer ambas as coisas, assim como o requer uma avaliação adequada do Concílio. Fico me perguntando que “hermenêutica da continuidade” explicaria o fato de que a avaliação doutrinal da Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Religious), conduzida por Blair, tenha se tornado parte da história passada a mando do Papa Francisco. Tenho certeza de que bispos mais conservadores do tipo Blair estão cansados de ouvir que eles não estão em sincronia com o atual papado. Mas a saída não é citar equivocadamente Bento XVI. A saída é entrar em sintonia bem Francisco.

O quarto e último momento-chave foi, é claro, a resposta imediata da Cardeal Daniel DiNardo a McElroy. Foi um rude “ponha-se no seu lugar”, traindo a mesma petulância que inspirou DiNardo a assinar aquela terrível carta ao Papa Francisco no recente Sínodo, que questionava a integridade tanto do processo sinodal como da comissão de redação composta por 10 membros que escreveria o documento final. Ao invés de elogiar a paixão evidente de McElory, ele desfez os “floreios retóricos” de seu irmão bispos. DiNardo, assim como Blair, citou equivocadamente Bento XVI sobre a “hermenêutica da continuidade”. Disse que o documento refletia o magistério do Papa Francisco, mas as citações de Francisco no texto não eram, na melhor das hipóteses, específicas e, certamente, careciam de qualidade incisiva da acusação do Santo Padre: “Esta economia mata”. Pode-se dizer que a resposta de DiNardo não foi bonita nem animadora.

Desde a noite passada e hoje pela manhã venho procurando em minha memória uma analogia histórica para a resposta rude de DiNardo, mas nada encontrei. Há desacordos entre os bispos em todas as suas reuniões, porém eles sempre são manifestados em termos respeitosos e falados com caridade. Sou todo a favor das discordâncias abertas entre os bispos, mesmo quanto a questões importantes, como vimos no Sínodo e como vimos ontem (17 de nov.). Os adultos podem e, mesmo, devem discordar às vezes. Mas, ser rude? Petulante? No encontro do ano que vem os bispos estarão elegendo um novo presidente da Conferência e, com uma exceção recente e lamentável, a norma é que o vice-presidente ascenda ao posto máximo. Os bispos têm um ano para refletir se querem, ou não, conceder o assento a alguém cuja personalidade espinhosa pode impedir a construção do consenso (ao invés de nutri-lo).

Em outro artigo irei trazer outras reflexões sobre a reunião da USCCB. Por enquanto, estas quatro intervenções ilustram as divisões dentro do organismo em termos bem claros. Navegar nestas divisões nos próximos anos será um desafio enorme, mas divisões parecidas sempre encontraram expressão na vida da Igreja, e os bispos sempre descobriram uma forma de manter a unidade essencial. Vivemos numa época diversa daquela em que Gibbons e Ireland firmaram uma batalha contra Corrigan e Katzer. De um lado, as divisões, hoje, são testemunhadas ao vivo. Mas estes quatro momentos também mostram dois estilos diferentes de liderança, um exemplificado por McElroy e Wuerl, completamente capazes de navegar nestas divisões, e outro nas intervenções de Blair e DiNardo, que representam um mau presságio para a capacidade da USCCB de traçar um caminho daqui para frente, na medida em que eles fazem uma descaracterização do Papa Bento e se mostram prontos para uma resistência ao Papa Francisco. Alguns bispos estão apostando num pontificado curto, ficando à espera de que as coisas, no final das contas, voltem à maneira como eram antes. Mas não há mais retorno. Quanto mais cedo a Conferência perceber isso, mais saudáveis serão estes debates e o futuro da Igreja nos EUA.

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