Luta contra o terrorismo. “Esta é uma guerra assimétrica”

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Por: Jonas | 20 Novembro 2015

Entender o que está acontecendo hoje na Europa, em particular na França, com os atentados e ameaças dos jihadistas do Estado Islâmico, não é simples nem sequer para os que vivem no Velho Continente. Na Itália, quando se aproxima o Jubileu que o Papa Francisco inaugurará, no dia 8 de dezembro, a preocupação aumenta. Muitos se perguntam de onde saíram estes extremistas islâmicos, por que querem arrasar a Europa, qual é o risco real para os europeus e, sobretudo, se perguntam se a guerra lançada pela França e que, aparentemente, toda a União Europeia daria ajuda, é a solução. Claudio Lo Jacono, professor durante várias décadas de História do Islamismo, na Università degli studi di Napoli L’Orientale - uma das mais prestigiadas universidades italianas especializadas no mundo muçulmano -, atual diretor da revista Oriente Moderno e do Instituto para o Oriente C. A. Nallino de Roma, respondeu estas perguntas em uma entrevista ao jornal Página/12.

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 19-11-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como especialista em história e cultura islâmica, em sua opinião, qual é a explicação histórica, mas também sociopolítica do surgimento do Estado Islâmico e do terrorismo associado a ele?

A origem é preciso buscar nas decisões dos Estados Unidos após a derrubada do governo de Saddam Hussein, em 2003. A máxima autoridade das forças de ocupação, Paul Bremer, decidiu dissolver em bloco o exército iraquiano. Cerca de 400.000 soldados e oficiais ficaram na rua. E, em seguida, dissolveu o Partido Baaz, que sustentava Hussein. Esta mudança de rota criou centenas de milhares de desempregados. Foram feitas manifestações pedindo que fossem reintegrados, porque não era todo o exército que estava sob as ordens ideológicas de Hussein. O problema não foi resolvido como se esperava e isto criou uma massa enorme de descontentes e desempregados que deram voz, lentamente, a um sentimento de descontentamento com o Ocidente. O fundamentalismo, que é o caldo de cultivo do jihadismo, é hostil ao Ocidente por muitos motivos, mas, sobretudo, pela política que há decênios o Ocidente investiu contra o mundo islâmico. O Ocidente tende a exportar sua própria democracia, seu modo de viver, tende a condicionar as escolhas econômicas do mundo muçulmano. E então, cerca de 5% do mundo muçulmano começaram a nutrir sentimentos de ódio em relação ao Ocidente, prepotente e em via de expansão ideológica, graças à globalização econômica e cultural. Calcula-se que os muçulmanos são cerca de 1, 2 bilhão no mundo. Esses 5% representam aproximadamente 60 milhões de pessoas, mas só umas 50.000/100.000, acredita-se, escolheram o enfrentamento armado, ou seja, a via jihadista.

Quanto influenciou, em tudo isto, o passado de dominação inglesa e francesa sobre muitos países muçulmanos, como Síria ou o próprio Iraque?

Por certo, impérios como o francês e o britânico, no curso do século XIX e XX, criaram um forte sentimento nacionalista naqueles que não queriam ser governados, nem assimilados pelo Ocidente, especialmente desde que o mundo árabe descobriu o petróleo. Após a Primeira Guerra Mundial, ocorreram as primeiras descobertas de petróleo no Iraque e também na península arábica e Argélia, uma matéria-prima que para o Ocidente era fundamental.

Por que, em sua avaliação, o jihadismo decidiu atacar a França em primeiro lugar? A França teve piores relações com o mundo muçulmano do que a Grã-Bretanha?

O primeiro objetivo foi os Estados Unidos, não se deve esquecer o atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono. Também houve um atentado no metrô de Londres e na estação de Atocha, em Madri. Grã-Bretanha e França são atualmente os países que têm a maior comunidade muçulmana na Europa, de três ou quatro gerações, em razão de seus impérios. Integraram-se bem. Mas, sempre há algum filho que reage contra a forma como os muçulmanos se integraram nesses países. A Itália ocupou Líbia por muito tempo; a França esteve muito presente no norte da África e também, de modo muito condicionante, na região sírio-libanesa. Os bombardeios que foram efetuados recentemente pela França contra o Estado Islâmico provocaram a decisão de puni-la pela sua atividade bélica.

Você mencionou os atentados contra as Torres Gêmeas, Londres e Madri. Mas são dois momentos históricos diferentes. Antes era a Al-Qaeda, agora os jihadistas. São iguais em sua opinião?

Al-Qaeda e Daesh (Estado Islâmico, em árabe) são os dois movimentos jihadistas. No entanto, neste momento, a Al-Qaeda está em contraste com o Estado Islâmico. Após a morte de Osama Bin Laden pela mão dos estadunidenses, a Al-Qaeda passou a ser dirigida pelo egípcio Ayman al Zawahiri e está orientada a não provocar atentados contra o Ocidente porque quer se concentrar na luta política no mundo árabe. Primeiro derrotemos nossos inimigos internos, dizem, depois voltaremos sobre a questão internacional, porque não nos convém ter muitos inimigos para enfrentar ao mesmo tempo. O Estado Islâmico, ao contrário, está convencido de que deve lutar em todas as frentes, seja contra os inimigos internos – o governo do Iraque e Síria, por exemplo -, como também contra a Europa e os Estados Unidos.

Alguns dizem que os terroristas se escondem entre os migrantes que chegaram aos milhares na Europa, nos últimos meses...

Os imigrantes não vêm para provocar atentados. Obviamente, pode existir algum caso isolado entre eles. No entanto, a maioria é gente pobre que está buscando sobreviver, que foge da guerra e da fome. Pensar que em um barco desses, que cruzam o Mediterrâneo com imigrantes, é possível transportar armas ou bombas, não é tem condições. Estas são coisas que se encontram na Europa. O mercado de armas é muito florescente. Uma metralhadora Kalashnikov, como essas que usaram nos atentados de Paris, já não são produzidas majoritariamente pela Rússia. Há uma fábrica, por exemplo, no Paquistão. E não custam nem sequer muito, uns 500 dólares. Além disso, existe o mercado livre das armas que floresce para além das religiões e das ideologias. Os terroristas que estão na Europa são europeus muçulmanos de segunda ou terceira geração, gente cujos pais ou avós trabalharam pacificamente aqui.

Qual é o risco para a Itália e outros países europeus?

É impossível evitar atentados de pequenas células. Não quero ser alarmista, mas um atentado pode ocorrer hoje em Roma, Madri ou Berlim. Ninguém pode garantir que não vá ocorrer. Evidentemente, França e Reino Unido estão na mira dos terroristas em primeiro lugar. Porém, a Itália ocupou a Líbia por muito tempo, uma ocupação em nada pacífica e que teve momentos muito duros, durante o fascismo. Os Estados Unidos são vistos como os inspiradores do modo de pensar ocidental e prepotente, ao menos nos últimos 60 anos.

A solução é a guerra para a qual a França está convidando?

É difícil dar uma resposta. Seguramente, a reação será com ações militares. No entanto, golpear uma organização como o Estado Islâmico é muito difícil. É uma guerra assimétrica, como as chamava Che Guevara. É difícil lutar contra as organizações que não movimentam muita gente, que são clandestinas, que se escondem no grande mar de muçulmanos que não tem nada a ver. Haverá bombardeios, mas não acredito que sozinhos possam resolver o problema, a não ser que se faça uma guerra terrestre que acarretaria muitas mortes e que nem Estados Unidos, nem França e nem o Reino Unido querem fazer. Eu, pessoalmente, acredito mais em uma resposta que possa ser produzida a longo prazo, ou seja, uma mudança da política internacional do Ocidente. Em parte, foi feita porque o Ocidente depurou bastante seu racismo e sua prepotência colonialista, mesmo que ainda exista o colonialismo econômico. Mudar a política exterior significa mudar a cabeça. Essa, sim, seria a resposta definitiva. Não se pode combater um terrorista que reclama pelas injustiças no mundo, caso se continue sendo injusto. Encontrar uma linha de política justa, tanto econômica como cultural, seria a linha justa. Porém estas são mudanças muito lentas, que podem levar gerações.

E se fosse proibida a venda de armas?

Certamente. Porém, parece-me bastante utópico. A quantidade de armas no mundo é tal que seria possível diminuir um pouco o problema, mas não acabar com ele imediatamente. Parece-me uma bela ideia, mas impraticável. Quero reiterar que o jihadismo é uma parte minoritária do fundamentalismo que, por sua vez, é uma parte minoritária do mundo islâmico. O jihadismo pode ser derrotado, mas isso deve ser feito não apenas com uma política melhor, mas também com ações pontuais mais estudadas. Não acredito que os bombardeios levem a algum resultado. Haverá muitos civis inocentes mortos. E isso produzirá novos terroristas. É preciso enfatizar muito bem este problema, não disparar exageradamente, porque isso custaria a vida de muitos inocentes. E isso não faz com que se vença a guerra.

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