Cardeal Wuerl: “Há um enorme apoio” ao Papa Francisco entre os bispos

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28 Outubro 2015

O Papa Francisco introduziu uma forma “muito mais aberta de abordar problemas pastorais na Igreja” e “há um enorme apoio entre os bispos para o que papa está tentando fazer”, contou-me o Cardinal Donald Wuerl em entrevista à revista America, horas depois da conclusão do Sínodo sobre a família.

Claramente satisfeito com a aprovação de todos os 94 parágrafos do documento final, o cardeal arcebispo de Washington passou em retrospectiva o Sínodo dos Bispos que reuniu 270 Padres Sinodais de 120 países vindos de todos s continentes.

Falando comigo no Colégio Norte-Americano em Roma, onde uma vez estudou, o cardeal conversou sobre a forma como a dinâmica sinodal se desenvolveu, as vozes diferentes e, às vezes, contrastantes que se ouviram, a diversidade cultural nesta Igreja global e sobre como eles todos conseguiram votar a favor de um documento consensual, o qual o próprio cardeal ajudou a escrever.

Wuerl também comentou sobre os três importantes parágrafos concernentes aos católicos divorciados e recasados no civil, e o desejo do Sínodo em integrá-los à Igreja. Falou sobre o papel do Papa Francisco em tudo isso e qual a direção que a Igreja vai, agora, tomar.

A entrevista é de Gerard O'Connell, publicada por America, 26-10-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis a entrevista.

O Sínodo concluiu o seu trabalho. Ontem, os Padres Sinodais aprovaram o documento final e todos os 94 parágrafos receberam uma maioria de dois terços dos votos. Quais são as suas reflexões agora?

Bem, vendo em retrospectiva todo o Sínodo e, especialmente, o dia de ontem, acho que o grande resultado dele é nem tanto o debate sobre este ou aquele parágrafo, este ou aquele assunto, mas a introdução do Papa Francisco de toda uma forma, mais ampla, mais aberta de abordar os problemas pastorais na Igreja. Depois destes dois Sínodos, não mais poderemos voltar a uma versão fechada dele.

A conclusão ontem me disse, em meio aquele grupo de bispos de todo o mundo, que há um enorme apoio para o que o papa está tentando fazer, e isso abre as discussões na Igreja para um grupo mais amplo de pessoas, que é, creio eu, como ele acredita que o Espírito Santo irá conduzir a Igreja adiante.

Em sua alocução na noite passada, ele disse: “Muitos de nós experimentaram a ação do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista e artífice do Sínodo”. É isso o que o senhor também sentiu?

Quando me perguntaram sobre o documento, a minha primeira resposta foi que este é o trabalho do Espírito. O documento final não poderia ter saído apenas da equipe de elaboração. Havia 10 pessoas ao redor daquela mesa, e teve vezes em que eu, realmente, pude sentir que existia algo mais acontecendo na sala do que pessoas simplesmente escrevendo; algo estava acontecendo e eu acho que foi o dom do Espírito que estava atuando para dizer que a misericórdia de Deus, o amor d’Ele, o ministério pastoral da Igreja, têm de ser vistos hoje como integrais à vida da Igreja e que é isso o que o Sínodo realizou.

Na homilia desta manhã o papa disse: “Este é um tempo de misericórdia”, e eu, particularmente, acho isso foi muito significativo de sua parte. O Sínodo havia terminado e ele o relacionou diretamente com o Ano da Misericórdia.

E tudo isso faz muito sentido, não faz? Nessa homilia, ele tomou todas as três leituras [bíblicas] e mostrou como o central é a misericórdia de Deus. E um dos sacerdotes disse no Sínodo, em sua intervenção, que o amor do Pai, quando ele encontra a condição humana, torna-se a misericórdia de Cristo. Penso que estamos vendo que esta revelação magnífica do amor de Deus por nós, em nos criar e redimir, está viva no mundo de hoje precisamente por causa da misericórdia de Deus em sua Igreja. Acho que este é um outro resultado do Sínodo.

O primeiro é a abertura – e não há como voltar atrás aqui. Em segundo lugar, o Código de Direito Canônico não mais é o enquadramento para a resposta pastoral da Igreja. Agora é a compreensão eclesial da misericórdia divina em ação no ministério pastoral e sacramental da Igreja. Eis uma grande mudança.

São João Paulo II certa vez disse a um assessor próximo em relação a uma grave situação que a Igreja estava enfrentando: quando for uma dúvida entre o Direito Canônico ou o Evangelho, você siga o Evangelho.

É a mesma coisa. Sabemos o que fica deste Sínodo e de todos estes debates – e eu acho que foram debates muito bons – assim que sumir aquela ideia de que o Sínodo estava sendo manipulado e que havia um complô sinistro; esta ideia ela foi explodida nos pequenos círculos [grupos divididos por preferências de idioma] quando todos perceberam que estávamos falando sobre o que gostaríamos de falar. Acho que o que vimos naquelas três semanas de encontro foi uma verdadeira reavaliação não do ensino – desde o primeiro dia todos reafirmamos o ensino –, mas de como partilhamos este ensino; como conseguir com que as pessoas esperem o suficiente para ouvi-lo? Como nós – conforme disse Francisco inicialmente – saímos, encontramos e acompanhamos as pessoas? Este Sínodo fez simplesmente isso. É a primeira vez que ouço um Sínodo tentar fazer algo desse tipo.

E o senhor participou de muitos sínodos...

Desde 1990.

Alguns consideram este Sínodo como um ponto de inflexão na história da Igreja. Como o senhor o vê? 

Eu acho que ele é uma abertura a uma nova direção. Penso que esta nova direção está em completa continuidade com o Concílio Vaticano II. Passaram-se apenas 50 bons anos nesse intervalo onde houve, às vezes, muita turbulência e, em seguida, a consolidação de João Paulo II. Hoje não estaríamos aqui se não fosse João Paulo II. Mas agora estamos no momento que o Concílio havia pedido, tomando o Evangelho em toda a sua integridade, em toda a sua verdade e tentando encontrar como ele, de fato, alcança, toca e muda o mundo hoje. Creio que é aí onde nos encontramos, mas de um jeito todo novo. O Papa Francisco tem dito que não podemos ficar sentados detrás de portas fechadas e fazer estas coisas.

Sim, e o conceito dele de “sinodalidade” é fundamental aqui. Há uma semana, falando no 50º aniversário da criação do Sínodo dos Bispos, ele disse: “O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio”.

Sim, e penso que o gênio em ligar os dois sínodos é para dizer que esta ideia está em curso. Não é possível se reunir num raio de duas semanas, três semanas, e chegar a decisões pastorais que, verdadeiramente, impactam o mundo. Mas se começarmos a falar sobre isso e convidarmos a Igreja como um todo para dentro do diálogo, conforme ele o fez antes do primeiro Sínodo, por meio das consultas, as consultas episcopais, então estaremos no caminho. O Papa Francisco basicamente disse que precisamos debater estes assuntos de forma aberta e à luz do Espírito Santo. Não acho que podemos voltar atrás agora.

É muito interessante que, na fala dele ontem à noite no final do Sínodo, o papa tenha afirmado: “Aquilo que parece normal para um bispo de um continente pode resultar estranho, quase um escândalo, para o bispo doutro continente”. Isso é algo que ficou evidente no Sínodo.

Acho que o que aprendemos no Sínodo em lidar com a sexualidade humana, com o casamento (o matrimônio) e a família foi que, ao redor do mundo, tudo isso é vivido e experienciado de forma diferente em termos culturais. A Igreja não alterou o seu ensino sobre nenhum desses assuntos, mas o desafio de se fazer ouvir estes ensinamentos varia grandemente. Em nosso pequeno círculo [grupo linguístico], eu gostei muito de escutar os representantes da Índia, da África e um de um país que esteve anteriormente por detrás da chamada Cortina de Ferro, e, em seguida, de todos nós dos países ocidentais.

Acho que você vai notar que este documento final não é visto somente dentro do quadro conceitual do mundo ocidental. Quando analisamos aqueles parágrafos, não são mais os países ocidentais falando em nome de toda a Igreja. Esta é também uma enorme diferença.

Conforme o senhor disse anteriormente, passaram-se quase 50 anos para que a Igreja chegasse a esse ponto. Ao olhar para o futuro, o que o senhor enxerga?

Bem, lembremos que a Igreja sempre, por causa de seu tamanho e importância de sua mensagem, move-se muito, muito lentamente. Um dos motivos por que ela demorou 50 anos para chegar aonde chegou foi por causa de toda a confusão e reviravolta dos anos 60 e 70. E levou todo o pontificado de João Paulo II para se começar a pôr em ordem as coisas. Isso para dar, novamente, estabilidade à Igreja com base no Concílio.

Hoje, estamos na posição de seguirmos em frente. Suspeito que iremos nos esbarrar em uma série de correntes, e caberá às lideranças eclesiais, atualmente trabalhando de uma maneira muito diferente, atuar com todo o corpo da Igreja no intuito de seguir adiante eliminando os exageros.

Com isso o senhor quer dizer o povo, os sacerdotes e os bispos trabalhando juntos?

Sim, os bispos exercitando a sua responsabilidade, mas como pastores de uma Igreja composta de fiéis. É isso o que o Papa Francisco pediu que estes sínodos fizessem, e foi o que eles fizeram. As vozes ouvidas no Sínodo recém-terminado refletiam as consultas ao redor do mundo. Isso fará parte do futuro. Porém, penso que temos de ter cautela em que, ao nos movermos em direção ao futuro, não aceitar toda e qualquer sugestão, e dizer que isso agora precisa ser feito. Podemos pegar todas as sugestões e dizer: vamos considerá-las.

Discernimento é a chave.

Sim, discernimento.

Obviamente a pergunta que agora muitas pessoas estão se fazendo, após verem que a verdadeira batalha no Sínodo girava em torno de três parágrafos do documento final [parágrafos n. 84, 85 e 86], diz respeito aos divorciados e recasados. O senhor estava na equipe de elaboração do documento final. Como vocês conseguiram chegar a um texto que pôde contar com a aprovação de dois terços do Sínodo?

A regra era que deveria haver um equilíbrio, independentemente do que apresentássemos. Lembremos que o Santo Padre falou que queria que tudo o que produzíssemos deveria refletir, verdadeiramente, o que foi ouvido no salão sinodal.

Isso foi quando ele veio e falou à equipe de redação.

Ele falou que este documento tinha de ser um documento consensual, e um documento consensual precisa refletir o que a maioria das pessoas no plenário estava dizendo. E desse modo fizemos disso a pedra de toque: de tudo o que produziríamos, a maioria dos bispos teriam de ter condições de falar: “Quer saber, isso se parece com o que ouvimos, isso se parece com o que falamos”. E quando nos víamos diante dessas questões nevrálgicas – tenho de dizer que continuei empregando esta palavra até que um dos outros me falou: “Por que você não usa a palavra ‘difficile’ (difícil) em vez de nevrálgico?” –, quando nos víamos diante dos pontos difíceis, dizíamos que era preciso um equilíbrio, pois se ouviu um grande equilíbrio no salão sinodal, ouvimos as pessoas falarem a partir de uma ampla gama de pontos de vista.

O senhor também ouviu declarações apocalípticas.

Sim, mas elas não representaram o consenso no plenário.

O senhor quer dizer que eram vozes excluídas?

Sim, elas não representavam o consenso na aula. Foi isso o que tentamos fazer [escrever um documento consensual] e creio que os nossos irmãos bispos reconheceram isso no plenário.

Estes parágrafos estão bastante equilibrados, eles não favorecem nenhum dos lados dizendo: “Vocês estão certos e vocês estão errados”. Estes parágrafos descrevem muito bem onde a Igreja se encontra atualmente; o que a Igreja está dizendo nós estamos tentando fazer hoje, sem dizer: “Isso está certo, aquilo está errado”.

Os três principais jornais italianos hoje trazem a mesmo título em suas páginas iniciais: o Sínodo alcança um acordo em se abrir aos divorciados e recasados.

O documento final do Sínodo diz que as pessoas divorciadas e recasadas ainda são partícipes da família, elas ainda são nossos irmãos e irmãs. E portanto queremos nos certificar de que elas não se sintam excluídas da Igreja, mas ele [o documento sinodal] não fala, todavia, que isso e aquilo deve acontecer. É este “todavia” sobre o qual estaremos falando a respeito em se tratando de futuro.

Imagino que o papa vai escrever algo sobre isso, posto que vocês lhe pediram para assim fazer no documento final.

Isso no último parágrafo. Aliás, introduzimos este último parágrafo porque havia alguns dizendo: “O que vai sair disso tudo?” Então nós dissemos: Por que não pedimos que o papa produza algo a partir desse texto?

O que o senhor espera?

Eis algo que me deixa realmente perplexo. Não sei se ele irá produzir um documento, uma exortação apostólica pós-sinodal, ou se ele vai usar este material, as diferentes seções dele, para refletir a respeito, ou para conceder uma série de conferências, dar homilias, discursos nas audiências gerais das quartas-feiras... Eu realmente não sei.

Acha que ele pode escrever uma encíclica?

Ele facilmente poderia escrever uma encíclica com base nisso tudo. Mas simplesmente eu não sei.

O que o senhor traz de volta para a Igreja americana?

O que quero trazer para casa, e o que eu já comecei a reunir, é o reconhecimento, antes de tudo, de que este Sínodo foi um sucesso. Nós nos colocamos a falar sobre a família, e durante três semanas o mundo todo estava falando sobre a Igreja Católica.

Nunca vi tantos jornalistas virem para cobrir um Sínodo.

Sim. Então, tivemos sucesso em nos focarmos sobre a família. Também fomos bem-sucedidos, creio eu – e isso é algo a respeito do qual todos na Igreja precisamos trabalhar –, em perceber, em reconhecer que precisamos focar muito mais energia em nossas famílias e em fortalecer, na próxima geração, o conceito de família e matrimônio.

Dito isso, também dissemos que não podemos simplesmente dizer que todo e qualquer assunto pastoral já está terminado. Deve haver na Igreja uma reflexão e um debate em constante. Acho que isso também é uma coisa boa.

Então, estarei dizendo à Igreja nos Estados Unidos – volto para a minha arquidiocese amanhã – que desejo poder falar que este Sínodo foi um sucesso porque ele voltou a nossa atenção ao matrimônio e à família. Foi um sucesso porque podemos ver a obra do Espírito nesses 94 parágrafos finais. E, em terceiro lugar, o Sínodo foi um chamado do Espírito para dizer que temos de ser muito mais acolhedores, o estender a mão da Igreja precisa ser muito mais acolhedor, até mesmo para com os seus próprios membros.

Gostaria também de lembrar a todos que rezem pelo nosso Santo Padre.

Sim, todos reconhecem que, sem o Papa Francisco, este tipo de Sínodo não teria acontecido.

A sua alocução final, penso eu, falava à sua santidade. Ele proferiu essa fala serena, compassiva, pontuando fatos e estando aberto, mesmo referindo-se a teorias conspiratórias, mas, em momento algum, condenando alguém, simplesmente dizendo: Sigamos em frente agora.

Sim, e ele falou: “O primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor”.

Acho que é por isso que as pessoas gostam dele. Ele fala a verdade, mas o faz, realmente, no amor.

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