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Por: André | 18 Junho 2015

Após ter sido eleito, Francisco decidiu manter em seu emblema papal o lema do seu escudo cardinalício, Miserando atque eligendo – “olhou-o com misericórdia e o chamou” –, mas à vista de suas próprias palavras no Rio de Janeiro, e do que acontece com muitas coisas nas quais intervém, talvez teria sido mais acertado se o tivesse mudado para um “arrumem confusão”, que em latim seria algo como tumultuantur.

A reportagem é de Jorge Marirrodriga e publicada por El País, 17-06-2015. A tradução é de André Langer.

A última confusão franciscana gira em torno da encíclica que deve ser apresentada hoje, 18 de junho, em Roma. Tecnicamente, trata-se da segunda de seu pontificado, mas na realidade é a primeira exclusivamente de Jorge Bergoglio, que escolheu levar “às ruas” – outra vez suas próprias palavras – não apenas a Igreja, mas as encíclicas. E não propriamente às ruas; ao campo. De fato, o tema escolhido é a ecologia.

Como a previsibilidade e a confusão não combinam bem, também pela primeira vez uma encíclica vazou antes que fosse apresentada e a Oficina de Imprensa do Vaticano puniu o jornalista responsável por este ato, tirando-lhe suas credenciais: o veterano vaticanista Sandro Magister, que demonstrou novamente que, às vezes, por mais anos que se tenha, um jornalista, diante da tentação de um furo jornalístico, não tem medo nem das penas do inferno.

Esta não será a única coisa pela qual esta encíclica vai dar o que falar. Olhando superficialmente suas 187 páginas – segundo o documento em italiano vazado –, o texto de Francisco faz uma advertência sobre a fragilidade do meio ambiente; a bem da verdade, faz uma chamada de atenção sobre o ser humano e a vida que está conformando em nosso planeta. É um texto que não vai agradar a muita gente, tanto dentro como fora da Igreja.

Dentro, porque a Laudato Si’ – este é o nome do documento e são palavras tomadas de Francisco de Assis não em latim, outra novidade, mas no dialeto umbro – não parece uma encíclica clássica. Não cita nenhum dos quatro Evangelhos até a página 65 e a maior parte das referências bibliográficas não é de textos espirituais, mas de documentos de conferências episcopais que abordam temas sociais. As encíclicas são textos dirigidos fundamentalmente aos crentes, mas este, às vezes, parece que foi escrito para quem não acredita.

E fora da Igreja também não vai ser bem acolhido. O Papa empunha uma reivindicação social inédita em suas formas, que pode parecer a muitos uma invasão de seu até agora exclusivo território ideológico. Francisco denuncia uma relação direta entre destruição do meio ambiente, pobreza e exploração econômica e adverte que não basta lutar contra um destes três fatores se não se atacar os outros. Ao mesmo tempo, levanta a voz contra a tecnificação obsessiva e um falso humanismo que, no fundo, relega a pessoa em benefício da máquina.

Na época desse mantra convertido em dogma leigo que é digitalfirst, Bergoglio contrapõe o seu as pessoas em primeiro lugar e, com elas, a natureza. Usa a ecologia como desculpa para falar do homem e de Deus. Pode parecer uma confusão, mas conhecendo o Papa portenho, na Laudato Si’ há muito mais que tumultuantur.

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