Francisco e o cuidado pela criação

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04 Maio 2015

À espera da publicação da encíclica sobre a globalização e a ecologia, eis um compêndio daquilo que o papa disse sobre o assunto.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 30-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós", escrevia Paulo VI na encíclica Populorum progressio (1967), um texto muitas vezes esquecido. Para Francisco, o primeiro papa a escolher o nome do Pobrezinho de Assis, a defesa da Criação é uma prioridade. A encíclica dedicada a esses temas já está quase finalizada, e espera-se para junho a sua publicação.

Repassamos alguns discursos e catequeses que Francisco já dedicou a esse assunto, citando em conclusão também algumas afirmações do Papa Ratzinger.

No dia 5 de junho de 2013, no Dia Mundial do Ambiente, um evento promovido pelas Nações Unidas, o pontífice argentino tinha abordado o tema da proteção ambiental na audiência geral.

"O meu pensamento vai para as primeiras páginas da Bíblia, para o Livro do Gênesis, em que se afirma que Deus colocou o homem e a mulher na terra para que a cultivassem e a cuidassem", afirmou o pontífice.

"E surgem em mim as perguntas: o que significa cultivar e cuidar da terra? Estamos verdadeiramente cultivando e cuidando na Criação? Ou a estamos explorando e ignorando? O verbo 'cultivar' me lembra o cuidado que o agricultor tem pela sua terra, para que dê fruto e este seja compartilhado: quanta atenção, paixão e dedicação! Cultivar e cuidar da Criação é uma indicação de Deus dada não só no início da história, mas também a cada um de nós; é parte do seu projeto; significa fazer com que o mundo cresça com responsabilidade, transformá-lo para que seja um jardim, um lugar habitável para todos."

Francisco citou o antecessor Bento XVI, recordando que várias vezes ele chamou a todos para "essa tarefa que nos foi confiada por Deus Criador", que exige "captar o ritmo e a lógica da Criação".

"Nós, ao contrário – acrescentou o Papa Bergoglio –, somos muitas vezes guiados pela soberba do dominar, do possuir, do manipular, do explorar; não, não a 'cuidamos', não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito para se cuidar. Estamos perdendo a atitude do estupor, da contemplação, da escuta da Criação; e assim não conseguimos mais ler nela aquilo que Bento XVI chama de 'o ritmo da história de amor de Deus com o homem'."

Por que isso acontece?, perguntou-se o papa. "Porque pensamos e vivemos de modo horizontal, afastamo-nos de Deus, não lemos os Seus sinais."

Francisco explicou que "cultivar e cuidar" não inclui apenas a relação entre nós e o ambiente, entre o homem e a Criação. Também diz respeito às relações humanas. "Os papas falaram de ecologia humana, intimamente ligada à ecologia ambiental. Nós estamos vivendo um momento de crise; vemos isso no ambiente, mas sobretudo vemos isso no homem. A pessoa humana está em perigo, isso é certo! A pessoa humana hoje está em perigo! Eis a urgência da ecologia humana!"

E o perigo, explicou ainda o pontífice no seu discurso, é "grave, porque a causa do problema não é superficial, mas profunda: não é apenas uma questão de economia, mas de ética e de antropologia. A Igreja salientou isso várias vezes; e muitos dizem: 'Sim, é certo, é verdade'... mas o sistema continua como antes, porque o que domina são as dinâmicas de uma economia e de uma finança carentes de ética".

Depois, falando de improviso, Francisco acrescentou: "O que manda hoje não é o homem, é o dinheiro: o dinheiro manda! Deus, nosso Pai, deu a tarefa de cuidar da terra não ao dinheiro, mas a nós: aos homens e às mulheres! Nós temos essa tarefa!".

"Assim – continuou –, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo: é a 'cultura do desperdício'. Se um computador quebra, é uma tragédia, mas a pobreza, as necessidades, os dramas de tantas pessoas acabam entrando na normalidade...".

Por isso, "se, em uma noite de inverno, aqui, na Praça Ottaviano, por exemplo, uma pessoa morre, isso não é notícia. Se em muitas partes do mundo há crianças que não têm nada para comer, isso não é notícia. Parece normal! Isso não pode ser! E essas coisas entram na normalidade: que algumas pessoas sem-teto morram de frio pela rua não é notícia... Ao contrário disso, por exemplo, uma queda de dez pontos nas Bolsas de algumas cidades é uma tragédia. Quem morre não é notícia, mas se as Bolsas caem em dez pontos é uma tragédia. Assim, as pessoas são 'descartadas'. Nós, as pessoas, somos descartados, como se fôssemos dejetos".

Essa cultura do descarte, adverte Bergoglio, "tende a se tornar uma mentalidade comum que contagia a todos. A vida humana, a pessoa não são mais sentidas como valor primário a se respeitar e proteger... Essa cultura do descarte nos tornou insensíveis também aos desperdícios e aos resíduos alimentares, que são ainda mais desprezíveis quando, em todas as partes do mundo, infelizmente, muitas pessoas e famílias passam fome e desnutrição. Antigamente, os nossos avós eram muito atentos para não jogar fora nada dos restos de comida. O consumismo nos induziu a nos acostumarmos ao supérfluo e ao desperdício cotidiano de alimentos, aos quais muitas vezes não somos mais capazes de dar o justo valor, que vai muito além dos meros parâmetros econômicos".

Francisco, depois, lembrou que o alimento que é jogado fora é como se "fosse roubado da mesa de quem é pobre, de quem tem fome! Convido todos a refletirem sobre o problema da perda e do desperdício de alimentos para identificar formas e modos que, enfrentando seriamente tal problemática, sejam veículo de solidariedade e de partilha com os mais necessitados".

De fato, "há alguns dias, na Festa de Corpus Christi – destacou o pontífice –, lemos o relato do milagre dos pães: Jesus dá de comer à multidão com cinco pães e dois peixes. E a conclusão do trecho é importante: 'Todos comeram com saciedade e foram levados os pedaços que sobraram: 12 cestos'. Jesus pede aos discípulos que não se perca nada: nada de desperdício! É há esse fato dos 12 cestos: por que 12? O que isso significa? Doze é o número das tribos de Israel, representa simbolicamente todo o povo. E isso nos diz que, quando o alimento é compartilhado de modo igual, com solidariedade, ninguém fica privado do necessário, cada comunidade pode ir ao encontro das necessidades dos mais pobres".

Por isso, explicou ainda o Papa Bergoglio, ecologia humana e ecologia ambiental caminham juntas. "Gostaria, então, que todos assumíssemos o sério compromisso de respeitar e cuidar da Criação, de estarmos atentos a cada pessoa, de combater a cultura do desperdício e do descarte, para promover uma cultura da solidariedade e do encontro".

No dia 13 de janeiro de 2014, na Sala Régia do Palácio Apostólico, no seu primeiro discurso aos membros do corpo diplomático credenciado junto da Santa Sé, Francisco advertiu que "é preciso respeitar a natureza, porque, quando ela é maltratada, não perdoa". Além disso, "a ávida exploração dos recursos ambientais é uma ferida à paz no mundo".

Lembrando as vítimas do tufão Hayan, que atingiu as Filipinas em novembro de 2013, causando mais de cinco mil vítimas, o pontífice quis enfatizar o tema da proteção do ambiente como proteção da Criação.

"Permanecem diante dos olhos os efeitos devastadores de algumas catástrofes naturais recentes. Deve ser chamada em causa a responsabilidade de cada um para que, com espírito fraterno, se persigam políticas respeitadoras da nossa Terra, que é a casa de cada um de nós." Porque, lembrou, "Deus perdoa sempre, nós perdoamos às vezes, mas a natureza nunca perdoa quando é maltratada".

No domingo, 9 de fevereiro de 2014, Francisco voltou a falar sobre o tema da proteção e do respeito pela Criação. Palavras motivadas pela onda de mau tempo que atingiu várias partes do mundo.

O papa rezou "por aqueles que estão sofrendo danos e incômodos por causa de calamidades naturais em diversos países" e observou que a natureza "nos desafia a sermos solidários e estarmos atentos à proteção da Criação, também para prevenir, na medida do possível, as consequências mais graves".

Além disso, a atenção à Criação já tinha sido expressada pelo pontífice na missa pelo início do pontificado, no dia 19 de março de 2013, quando tinha exortado não apenas os cristãos, mas também a todos os homens e mulheres a "cuidar da Criação inteira, da beleza da Criação" e a "ter respeito por cada criatura de Deus e pelo ambiente em que vivemos".

Além disso, no dia 21 de maio de 2014, durante a audiência geral, Francisco reiterou o seu grito de alerta: "Devemos salvaguardar o ambiente, ou a natureza nos destruirá". E lançou uma forte advertência: "Que o homem proteja e salvaguarde o ambiente, ou será a própria natureza que ele destrói que o aniquilará".

Nessa mesma ocasião, o papa recordou a responsabilidade do homem, quando disse que "o dom da ciência do Espírito Santo nos ajuda a não cair em algumas atitudes excessivas ou equivocadas em relação à Criação" e que o primeiro desses erros é o risco de nos considerarmos donos da criação: ela não é "uma propriedade da qual podemos nos apossar à vontade, muito menos uma propriedade apenas de alguns, de poucos. Mas é um dom que Deus nos deu para que o cuidássemos e o utilizássemos em benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão".

Francisco exortou os fiéis a "cuidar da criação, não a dominá-lo. Nós somos os cuidadores da criação, mas, quando a exploramos, destruímos também o sinal de amor de Deus: é como dizer a Ele que a criação não me agrada, que eu gosto apenas de mim mesmo. Eis o pecado! O cuidado pela criação é o cuidado pelo dom de Deus que nunca deve ser destruído. Não esqueçam disso".

O pensamento de Bento XVI

O Papa Francisco já concluiu os trabalhos sobre a encíclica dedicada à defesa da criação, ao desenvolvimento e aos impactos sobre os pobres da exploração selvagem da terra. Vale a pena lembrar como o tema também esteve presente em várias intervenções de Bento XVI.

Em particular, na encíclica Caritas in Veritate, abordado na segunda parte do capítulo IV, nos parágrafos 48-52. "O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural", escreve o Papa Ratzinger, lembrando que "a natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade" e, portanto, "também ela é uma vocação".

Bento XVI citava "questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente" que hoje "devem levar na devida consideração as problemáticas energéticas". Ele lembrava que "a monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro delas".

Depois, apontava que "lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a população que a habita. Há espaço para todos nesta nossa terra".

Será necessário, portanto, concluía o Papa Ratzinger, "reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus".

Também aqui, como nos discursos do seu sucessor Francisco, emerge a ancoragem bíblica do olhar da Igreja Católica sobre esse tema.

"As modalidades com que o homem trata o ambiente – lembrava Bento XVI na sua encíclica – influem sobre as modalidades com que ele trata a si mesmo, e vice-versa."

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