Operação Condor. Testemunhas do voo arrasador

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Por: Jonas | 15 Abril 2015

Foi um momento de muita emoção. E não podia ser menos, após décadas de esforços para obter justiça na Itália, sem consegui-la. As duas primeiras testemunhas que, ontem, prestaram depoimento no primeiro processo europeu contra a Operação Condor, que está ocorrendo em Roma, estavam emocionadas. Vieram as lembranças dolorosas e o agradecimento pelo que estava ocorrendo. Por esta tentativa de justiça, certamente aumentava a emoção. Cristina Mihura, uruguaia, viúva de Armando Bernardo Arnone Hernández, militante da uruguaia ROE (Resistência Operária Estudantil) e do PVP (Partido pela Vitória do Povo), sequestrado em Buenos Aires, no dia 1º de outubro de 1976, e María Paz Venturelli, chilena, filha do ex-sacerdote, professor universitário e militante do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário), Omar Roberto Venturelli, desaparecido no dia 4 de outubro de 1973 da prisão de Temuco, falaram um longo tempo sobre as próprias experiências. Alguns advogados dos 33 militares e civis acusados, da Bolívia (2), Chile (11), Peru (4) e Uruguai (16) – alguns detidos e outros em liberdade -, neste processo pelo desaparecimento de 43 pessoas (6 ítalo-argentinos, 4 ítalo-chilenos, 13 ítalo-uruguaios e 20 uruguaios), não perderam tempo e contestaram muitas das afirmações das depoentes, argumentando que elas não eram testemunhas diretas, mas contavam o que outras pessoas lhes haviam relatado.

A reportagem é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 12-04-2015. A tradução é do Cepat.

No setor de processos da prisão romana de Rebbibia, onde está ocorrendo o julgamento deste plano de aniquilamento de opositores, inventado e coordenado internacionalmente pelas ditaduras militares latino-americanas dos anos 1970, escutou-se primeiramente a leitura dos depoimentos da mãe de Bernardo Arnone, Petrona - já falecida -, para a Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas) argentina, a partir de 1983, e os que ela concedeu para uma escrivã no Uruguai, para ser enviado a Roma. “Bernardo teria gostado muito de saber que sua mãe foi a primeira que falou neste julgamento”, disse Mihura ao jornal Página/12. Nessas declarações Petrona falou da varredura que fizeram na casa de Bernardo e Cristina, em Montevidéu, dois dias após o sequestro de seu filho. E que levaram sua moto dizendo “que ele já não precisaria dela”. “Foi muito emocionante escutar este depoimento”, enfatizou Mihura. Em seguida, foi a vez dela, dizendo que se salvou fugindo da Argentina e conseguindo chegar na Suécia, como refugiada, e depois na Itália.

O sequestro de Arnone foi parte de uma operação que, entre 23 de setembro e 4 de outubro, resultou no desaparecimento de 26 uruguaios, em Buenos Aires, sendo 23 adultos e 3 crianças. Muitos deles foram levados para o centro clandestino Automotores Orletti, incluindo Bernardo. “Eu reuni muitíssima informação em todos estes anos sobre Bernardo e outros do PDV que desapareceram mais ou menos no mesmo período que ele. Reuni depoimentos, li arquivos, inclusive em Washington e na Argentina. Falei com sobreviventes uruguaios de Orletti. Entre os documentos, citei um escrito por um militar estadunidense de Buenos Aires, que foi liberado do segredo na época do presidente Clinton e que falava dessa operação do mês de outubro contra o PDV. Contei julgamento disse tudo isto, concluindo que os militantes do PDV foram um objetivo específico da Operação Condor, em operações das quais participaram militares uruguaios”, acrescentou. O mais importante da audiência de sexta-feira, segundo Mihura, é que começaram a apresentar provas, a falar dos acusados e das vítimas diante dos juízes e do júri popular.

O depoimento de María Paz Venturelli, no qual contou detalhes da vida, militância e compromisso de seu pai em favor dos índios mapuches e sobre como desapareceu, foi precedido pela leitura de uma pequena carta que seu pai lhe havia enviado da prisão. Ela tinha dois anos. Por meio dos presos comuns da prisão de Temuco, contou, era possível mandar pequenas mensagens para o exterior. Nessa carta, o pai a lembrava de quando brincavam juntos, pedia para que se comportasse bem, que não contrariasse sua mãe. “Pelas suas palavras se entende que não tinha muito mais tempo para viver”, disse Venturelli ao jornal Página/12.

Omar Roberto Venturelli foi convocado pelas autoridades militares e preso. Foi visto na prisão de Temuco até o dia 4 de outubro de 1973. Depois disso, não se soube mais nada dele e até os dias de hoje seus restos não foram encontrados, ainda que tenha se tornado conhecido que foi retirado da prisão pelo pessoal da força aérea e levado para o aeroporto militar. Ela e sua mãe, poucos dias depois, refugiaram-se na embaixada italiana, em Santiago. María Paz disse o quanto se emocionou durante a audiência. “Foi muito emocionante, muito cansativo, muito triste, como sempre”, disse, recordando que ela e sua mãe – falecida em 2012 – tentaram abrir um processo na Itália desde os primeiros anos da década de 1990.

“O que me pareceu importante desta audiência é que finalmente se tentará reconstruir a história, colocar em ordem o que passou. Caso se consiga as condenações, será uma reivindicação histórica. É necessário que a Justiça reconheça nos fatos que as violações dos direitos humanos não podem ocorrer”, acrescentou. E recordou que o julgamento que ela e sua mãe participaram em Roma contra o ex-juiz militar e encarregado da prisão de Temuco, Oscar Alfonso Podlech, em 2011, “terminou mal porque, após 40 anos, foi difícil reconstruir os fatos”. Podlech foi deixado em liberdade efetiva por causa da falta de provas. Desse julgamento, no entanto, será tomado como depoimento oficial para este processo a declaração que sua mãe fez para os juízes.

As próximas audiências ocorrerão nos dias 7 e 8 de maio.

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