'Temos que capitalizar os setores populares', afirma Francisco de Roux, superior dos jesuítas da Colômbia

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Por: André | 09 Fevereiro 2015

“A leitura de Piketty me levou à conclusão de que se queremos diminuir a desigualdade na construção da paz, temos que tornar os setores populares e pobres partícipes do capital. O caminho não é um presente mensal de recursos por domicílio dado pelo programa Famílias em Ação, que mantém as pessoas excluídas dos bens de produção e as crava na pobreza”, escreve Francisco de Roux, superior provincial dos jesuítas da Colômbia, em artigo publicado no jornal colombiano El Tiempo, 03-02-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O livro de Thomas Piketty, O capital no século XXI, é iluminador para a construção da paz nas cidades e nos territórios, uma vez terminada a guerra [na Colômbia]. Por isso, vale a pena dedicar a ele algumas colunas. Esta é a primeira.

Faço-o a partir da visão do Papa Francisco, que, na Evangelii Gaudium, escreve: “Assim como o mandamento ‘não matar’ impõe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Essa economia mata” (53). “Embora a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da política, a Igreja não pode ficar à margem na luta pela justiça” (183).

Para Piketty, o capital é o estoque de riquezas, ou ativos não humanos, possuídos em um dado momento, como casas ou capital financeiro, ativos profissionais e meios de produção das companhias e do governo. A renda é o fluxo de dinheiro correspondente ao que é produzido e distribuído durante um ano em forma de salários e remunerações, mas também honorários, prêmios, juros, rendas, dividendos, pensões, etc., que vem do rendimento do capital.

Além do salário decente, a proporção das rendas que provêm do capital chega a ser importante nos domicílios dos países mais equitativos, o que significa que as pessoas podem participar dos lucros das empresas, ou podem economizar, abrir negócios, comprar terras, ou receberam heranças.

No entanto, a dinâmica forte da riqueza é concentrar-se e produzir desigualdades, porque a velocidade com que o capital cresce é três a cinco vezes maior que a velocidade com que cresce a totalidade das rendas. Como mostrou a Oxfam nestes dias, em 2016, o 1% mais rico terá a metade do capital do mundo. Isso justifica as propostas de Piketty para controlar esta dinâmica natural do capitalismo que gera a economia da exclusão e da desigualdade a que se refere o papa.

De todos os casos que Piketty estuda, a Colômbia é o país de maior concentração dos ingressos salariais de 1990 a 2010. Infelizmente, não tem dados sobre a concentração da riqueza em nosso país.

A leitura de Piketty me levou à conclusão de que se queremos diminuir a desigualdade na construção da paz, temos que tornar os setores populares e pobres partícipes do capital. O caminho não é um presente mensal de recursos por domicílio dado pelo programa Famílias em Ação, que mantém as pessoas excluídas dos bens de produção e as crava na pobreza.

Vejamos, desta vez, a situação nos grandes bairros populares das nossas cidades. Meus vizinhos, de estrato um, sabem da necessidade de se capitalizar. Todos os fins de semana trabalham na construção de suas casas. As casas de um andar, inclusive as do programa de habitação gratuita, transformam-se em casas de dois ou três andares, e são alugadas; assim, as famílias aumentam a renda com entradas de aluguel. Pode até parecer que lemos Piketty. Mas é uma capitalização precária. Muitos não têm título de propriedade, estão endividados com juros de 5% ou 8% ao mês, e os riscos sísmicos são altíssimos. Compartilhar a vida de seus bairros é compartilhar a incerteza de um terremoto que derrubaria como um castelo de areia as casas amontoadas de três andares. Por isso, a riqueza líquida que têm, uma vez descontados as dívidas e os riscos, é zero ou é negativa.

Se nos levamos a sério como seres humanos na Colômbia, o Estado e as empresas têm que pensar em um povo que tenha acesso ao capital produtivo. É necessário para a paz e a segurança, e seria melhor para a economia.

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