Vaticano: Dom Oscar Romero é um “mártir da Igreja do Concílio Vaticano II”

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05 Fevereiro 2015

Ao anunciar a beatificação do arcebispo salvadorenho assassinado Oscar Romero, o Vaticano fez o que parece ser uma mudança em direção à aceitação de opiniões mais progressistas das mudanças advindas do Concílio Vaticano II e sua ênfase numa Igreja que se coloca aos pobres.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 04-02-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Dom Vincenzo Paglia, autoridade vaticana que está encabeçando a causa de canonização de Dom Romero, assim falou: Romero foi “um mártir da Igreja do Concílio Vaticano II”.

A morte do salvadorenho, disse Paglia, foi parte de um “clima de perseguição contra um pastor que seguia a experiência evangélica, os documentos do Concílio Vaticano II, de Medellín e que tinha escolhido viver com os pobres para defendê-los da opressão”.

Romero foi morto porque escolheu esta perspectiva”, disse Paglia, acrescentando que o religioso quis combater um governo e um tipo de opressão “que deixa sem vida os mais pobres”.

Na quarta-feira Paglia, que também preside o Pontifício Conselho para a Família, falou concedeu uma coletiva de imprensa no Vaticano depois da notícia, divulgada terça-feira, de que o Papa Francisco oficialmente declarou Dom Oscar Romero um mártir. Agora, espera-se que, dentro de alguns meses, o salvadorenho seja beatificado – último passo antes de se tornar santo.

Dom Oscar Romero foi arcebispo de San Salvador durante um período sangrento e repleto de tensão política que levou o país a uma guerra civil de 1979 a 1992. Um esquadrão da morte, associado à direita do país, o matou enquanto celebrava uma missa em 24 de março de 1980, um dia depois de dar um sermão convidando os soldados a pararem de cumprir as políticas do governo de opressão e violação dos direitos humanos.

A ênfase de Paglia sobre o lugar de Romero na história do Vaticano II, evento mundial dos bispos ocorrido entre 1962 e 1965 e famoso por introduzir reformas na Igreja Católica, parece um tanto extraordinária após décadas durante as quais o salvadorenho morto fora tratado como uma espécie de pária pelo Vaticano.

Ainda que esta causa de canonização fora aberta a alguns anos atrás, ela tardou a andar sob os pontificados dos papas João Paulo II e Bento XVI por causa de preocupações com a acolhida de Romero à Teologia da Libertação, tipo de teologia cristã que postula que Cristo não só buscou a libertação dos pecados mas de todo o tipo de opressão. João Paulo II, que cresceu na era comunista da Polônia, preocupava-se que uma tal teologia aproximasse demais das análises marxistas.

A menção feita por Paglia a Medellín é uma referência a um evento realizado, em 1968, pelos bispos latino-americanos na cidade colombiana de mesmo nome, ocasião em que falaram de uma “opção preferencial pelos pobres” e se comprometeram em ajudar a libertar os povos do continente das instituições que os sujeitavam à fome e à pobreza.

Perguntado na quarta-feira sobre a hesitação de se levar adiante a causa de canonização de Dom Oscar Romero ao longo dos anos e se João Paulo II havia se oposto a este processo, Paglia disse: “É um pouco mais complicado do que isso”.

Os relatórios iniciais sobre a morte de Romero que chegaram ao Vaticano – em particular, sobre as preocupações de que o arcebispo teria cometido erros doutrinais não especificados em suas homilias e discursos – “foram em apenas uma direção”, disse Paglia.

Disse que levou tempo para que os relatórios sobre a santidade de Romero se igualassem em número nas análises que estavam sendo feitas sobre o arcebispo pela Congregação para a Doutrina da Fé – CDF.

Mas Paglia atribuiu um momento-chave na proclamação eventual do martírio de Romero ao Papa Bento XVI, e não a Francisco.

Em dezembro de 2012 – dois meses antes de sua renúncia ao papado –, Paglia disse que Bento XVI ordenou que a causa de Romero fosse adiante e que a investigação se transferisse da CDF para a Congregação para a Causa dos Santos.

Embora a autoridade vaticana tenha confirmado na quarta-feira que Romero será beatificado numa cerimônia em San Salvador, disse que não sabia exatamente quando o evento será realizado, já que as autoridades vaticanas ainda não confirmaram os detalhes junto aos organizadores locais.

Porém, Paglia disse, a cerimônia de beatificação vai acontecer “assim que for possível”.

Paglia também anunciou na quarta-feira que o Vaticano abriu, havia três meses, o processo de canonização para um colaborador importante de Dom Oscar Romero: o padre jesuíta salvadorenho Rutilio Grande, morto em 1977 por ajudar salvadorenhos empobrecidos a se organizarem e conhecido por ter provocado uma espécie de conversão na vida de Romero.

“É impossível conhecer Romero sem conhecer Rutilio Grande”, disse Paglia.

Incisivamente, ele também defendeu o decreto de Francisco de que Romero fora um mártir – declaração oficial de que o arcebispo foi morto in odium fidei, expressão latina para “por ódio à fé” –, dizendo que a forma que o arcebispo foi morto enquanto rezava a missa mostra um tal ódio.

“Quiseram matá-lo no altar”, acrescentou Paglia, fazendo referência à morte semelhante de Thomas Becket, arcebispo inglês do século XII. Paglia também chamou Romero um “proto-mártir”, em referência aos primeiros mártires da igreja cristã dos primeiros séculos.

Jesus Delgado, padre salvadorenho que trabalhou como secretário de Romero enquanto este era arcebispo, também falou na coletiva de imprensa. Ele lembrou especificamente como a escolha de Romero como arcebispo pelo Papa Paulo VI em 1977 fora recebida pelo clero salvadorenho. Estes, disse Delgado, no início não conheciam Romero muito bem.

Jesus Delgado, me ajuda”, o lembrou monsenhor ao falar do momento em que o arcebispo lhe pediu que trabalhasse como seu secretário. “O clero não gosta de mim”.

A coletiva de imprensa no Vaticano também foi marcada por declamações comoventes de muitos discursos e homilias importantes de Dom Oscar Romero, incluindo o seu último sermão em que dizia: “Nenhum soldado é obrigado a seguir uma ordem contrária à lei de Deus”, e em seguida convidando a todos os soldados do país para “em nome de Deus (...) pararem com a opressão”.

Romero falou abertamente contra o governo da época. Ele também escreveu uma carta ao presidente americano Jimmy Carter um mês antes de ser morto, criticando a decisão deste último em reconhecer o governo salvadorenho e em mandar ajuda militar.

Com a expectativa de a beatificação do arcebispo salvadorenho acontecer em breve, e com a abertura do processo para Rutilio Grande, parece que também Francisco abriu um caminho para a canonização de muitos outros assim-chamados mártires do Concílio Vaticano II.

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