"Cirurgia plástica como a burca." Gafe vaticana com Nancy Brilli

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04 Fevereiro 2015

Quando a hierarquia católica se ocupa com as mulheres, estas se sentem desconfortáveis, porque é o seu corpo que sempre é posto em discussão, como se não fosse coisa delas e, no máximo, algo portador de ambiguidades e incomodações.

A opinião é da jornalista e escritora italiana Natalia Aspesi, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 03-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

"A cirurgia estética é uma burca de carne." A frase é um pouco extravagante, se não até levemente suja, sobretudo quando vem de um cardeal de grande classe e cultura como Gianfranco Ravasi: não dele, exatamente, mas de um documento preparatório de um próximo encontro do Pontifício Conselho para a Cultura, mas, no entanto, aprovado por ele.

No encontro, se falará de "culturas femininas", um tema muito interessante. Mas também perigoso se gerido, sem ofensa, por cardeais também muito "feministas". Burca e carne são duas palavras difíceis de unir, sendo a burca a negação da carne, a menos que se pretenda dizer que a cirurgia estética, anulando o corpo e o rosto da mulher, poderia interessar aos homens da Jihad, que, portanto, estariam livres para vislumbrar a carne sem pecar, e as mulheres, a não se sufocarem naquele escafandro preto.

Logo protestou Nancy Brilli, a bela atriz companheira de um cirurgião plástico, do qual, provavelmente (e com razão), deve ter se aproveitado. Porém, ela é a testemunha do encontro pontifício, além de relatora, com um vídeo em que o propagandeia, em italiano e em inglês, mesmo que esta última versão tenha sido rejeitada, porque, ao que parece, a senhora, embora castamente vestida, seria muito sexy, o que, evidentemente, para alguns católicos (desse ponto de vista, islamizados), não pode fazer parte de uma "cultura feminina".

Gostaríamos de relatar as gentis palavras de reprovação da senhora e a resposta, igualmente polida, do cardeal, mas, sinceramente, não entendemos nada.

O fato é que, quando a hierarquia católica, embora maximamente defensora da igualdade de gênero, mesmo que há pouco tempo, se ocupa com as mulheres, estas se sentem desconfortáveis, porque é o seu corpo que sempre é posto em discussão, como se não fosse coisa delas e, no máximo, algo portador de ambiguidades e incomodações.

Um paraíso, naturalmente em relação a quem realmente deve ocultar esse corpo dentro de uma verdadeira burca: em um dos filmes indicados ao Oscar, Timbuktu, do diretor de origem africana Sissako, os jihadistas chegam em um pacato vilarejo de Mali e impõem às mulheres, já totalmente veladas de preto, que coloquem também as luvas. Uma mulher que limpa e vende peixe faz a eles uma encenação memorável e segue em frente a trabalhar, deixando-os atordoados.

Muito interessadas em um congresso sobre as culturas femininas, as mulheres podem se perguntar por que é que Ravasi e os seus colegas se ocupam (ao que parece, negativamente) da cirurgia plástica, que não é um "pecado" feminino, já que cada vez mais homens, infelizmente monstrificando-se, recorrem a ela.

Certamente, trata-se de uma "cultura" muito difundida, e é um sinal da desorientação cada vez mais vistosa em relação ao próprio corpo. Talvez, as mulheres estariam mais serenas se realmente tivessem que se esconder na burca, não obrigadas sempre prestar contas da sua imagem, como sempre devem fazer ou como acreditam que sempre devem fazer.

E, é claro, o problema é justamente de gênero. Os homens, mesmo aos 70 anos, se sentem jovens sensuais e têm razão (poucos, porém). Uma mulher, aos 50 anos, começa a se impacientar, diante do espelho se puxa daqui e dali, pode se sentir perdida quando ainda é atraente e, se não o é, paciência, já foi. As que têm mais de 60 anos que escrevem ao programa "Questões do coração" estão muitas vezes em boa forma, mas logo são perseguidas por outros coetâneos. São elas mesmas, se mantêm, mas se aceitam, fazendo uso do império da inteligência, ou de outras armadilhas, sobretudo no trabalho: já nos acostumamos às ministras belas e jovens, mas não às mulheres belas e menos belas que não aceitam envelhecer, o que nenhuma cirurgia pode impedir.

Além disso, vê-se também no cinema e na publicidade que se descobriu o valor de marketing, digamos, da idade madura. Talvez sejam reconstruídas e, portanto, estejam agitadas, mas as de sucesso, mesmo aos 80 anos, estão intocadas, as novas divas de direito da terceira idade. Portanto, deixem-nos escolher.

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