Ecumenismo, o caminho rumo ao encontro. Artigo de Andrea Riccardi

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03 Dezembro 2014

Para o ecumenismo do Papa Francisco, não contam o poder eclesiástico ou o papel das pessoas, mas "olhar o rosto um do outro".

A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado no jornal Avvenire, 02-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco trouxe ao clima dos encontros ecumênicos o seu carisma pessoal. Não se trata apenas do seu caráter e da sua história, mas também de algo mais.

Viu-se isso na visita a Istambul e na relação com o Patriarca Bartolomeu. Ele disse francamente na igreja do Fanar: "Encontrarmo-nos, olhar o rosto um do outro, trocar o abraço da paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais daquele caminho rumo ao restabelecimento da plena comunhão...". Aquilo que precede e acompanha o diálogo teológico. Mas que, acima de tudo, salva o diálogo teológico dos desvios ideológicos, da frieza diplomática e das lógicas políticas. Introduz um senso de pressa.

O Papa Francisco não busca uma diplomacia ecumênica, mas relações verdadeiras de comunhão. Nos dias de Istambul, ele inseriu algo a mais nas relações ecumênicas: uma reviravolta humana de profundo reflexo eclesial. Francisco fez com que entrassem no encontro ecumênico também as vozes do mundo e do "povo". Afirmou que as Igrejas devem ouvir os pobres, as vítimas da guerra, os jovens que pedem – com modos e linguagens diferentes – para ser verdadeiros discípulos do Evangelho e, portanto, para estar unidos.

O discurso de Francisco no Fanar tinha tons semelhantes às palavras do Patriarca Ecumênico Atenágoras, proferidas há muitos anos. Atenágoras afirmava que a unidade e a autenticidade cristã das Igrejas não são exigências de laboratórios teológicas ou de ambientes eclesiásticos, mas uma demanda dos povos e das gerações mais jovens. O papa acrescentou que os jovens "nos solicitam a dar passos rumo à plena comunhão"...

E isso, acrescentou Francisco, "não porque eles ignorem o significado das diferenças que ainda nos separam, mas porque sabem além, são capazes de captar o essencial que já nos une". Foi impressionante a sintonia do papa com o patriarca ecumênico. Quando os primazes das Igrejas, apesar da história e das tradições diferentes, caminham juntos como irmãos, amadurece neles algo de profundo.

É o que tinha proposto Atenágoras a Paulo VI: caminhar como irmãos depois do abraço de Jerusalém em 1964. Bartolomeu, a propósito, tinha palavras verdadeiras e exigentes: "Não podemos nos dar ao luxo de agir sozinhos. Os atuais perseguidores dos cristãos não perguntam a que Igreja as suas vítimas pertencem. A unidade, pela qual temos muito a fazer, já se realiza em algumas regiões, infelizmente, através do martírio. Portanto, estendamos a mão ao homem contemporâneo...".

A Igreja não vive para si mesma, mas para o serviço ao Evangelho e ao homem e à mulher contemporâneos. Por isso, Bartolomeu, sucessor de fiéis depositários da tradição cristã e oriental e ele mesmo homem da tradição, disse: "De que serve a nossa fidelidade ao passado, se isso não significa nada para o futuro?".

Sim, o encontro de Constantinopla – como os gregos chamam a cidade no Bósforo – não foi uma troca de cortesias eclesiásticas, mas um passo em profundidade na amizade entre Igrejas, em "saída" pelas ruas da contemporaneidade. Na igreja de São Jorge no Fanar, estava presente o mundo com as vozes dos jovens, dos atingidos pela guerra, dos pobres do mundo. Parece-me que se encaixa no ecumenismo a densidade humana da história e do encontro entre homens.

Uma expressão desse fato é a amizade pessoal entre o patriarca e o papa, que parece aquecer reciprocamente os seus corações e as suas palavras. Bartolomeu teve, em relação ao papa, não apenas palavras de estima verdadeira, mas também afetuosas. Depois, há um evento, pequeno, que ocorreu às margens da viagem papal e fora dos holofotes, a ponto de quase ninguém tê-lo notado. Apenas algumas agências turcas deram a notícia. Pequeno, mas não secundário, à luz da lição de humanidade do ecumenismo, que nos foi dada pelos dias de Istambul. Merece atenção.

Antes de ir ao aeroporto para partir para Roma, o Papa Francisco inseriu uma visita a um hospital, o armênio de Istambul. Ele foi para encontrar o patriarca armênio de Istambul, Mesrob II, que ainda não tem 70 anos, gravemente doente, incapaz de se comunicar, internado no hospital da sua Igreja e assistido amorosamente pela sua mãe, além dos seus colaboradores.

Certamente, não foi possível alguma troca de palavras com o patriarca, mas apenas uma oração com um abraço. No entanto, é um evento significativo: uma homenagem simples e profunda à Igreja Armênia, que tem uma história nada fácil e que, em 2015, lembrará o centenário dos massacres dos armênios e dos cristãos no Império Otomano, durante a Primeira Guerra Mundial. Encontrar um patriarca sofredor expressa um abraço a uma comunidade inteira.

Para o ecumenismo do Papa Francisco, não contam o poder eclesiástico ou o papel das pessoas, mas "olhar o rosto um do outro". Esse episódio "menor" também se torna esclarecedor em relação ao caminho que o Papa Francisco tomou, para que o amor entre novamente nas relações entre os cristãos, depois de ter se perdido nos séculos passados e ter se esfriado em um costume, embora importante, mas não pressionado pela urgência da unidade. As altas palavras do papa no Fanar encontraram uma imediata realização.

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