Papa Francisco, o sínodo e a herança do Vaticano II. Artigo de Massimo Faggioli

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08 Outubro 2014

Do "papa teólogo" Bento XVI, passamos a Francisco, o papa com o cheiro das ovelhas que não nega as evidências, mas assume o salto entre Evangelho e doutrina. Alguns o chamavam de modernismo, mas não é nada mais do que a Igreja na modernidade.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Il Foglio, 07-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Sínodo que se celebra no Vaticano é um Sínodo que retoma um discurso interrompido na Igreja do pós-Concílio Vaticano II. O "onde havíamos parado?" do Papa Francisco é a citação do Concílio sine glossa no discurso (de clara marca roncalliana) da noite do 4 de outubro na vigília na Praça de São Pedro: a colegialidade, "as alegrias e as esperanças", a história da Igreja como magistra, o vento do Pentecostes.

Marcado seja pela direita quanto pela esquerda como evento geracional, o Vaticano II ainda é "a bússola" (como diz o testamento de João Paulo II) – uma bússola que a hierarquia da Igreja Católica havia perdido depois da morte do Papa Wojytla, o último papa ex-padre conciliar. Sem a referência ao Concílio, é impossível reconhecer nas suas características fundamentais tanto o pastor Jorge Mario Bergoglio quanto a oposição a esse pontificado (seja a oposição constitucional quanto a criptolefebvriana).

O Vaticano II acabou no dia 8 de dezembro de 1965, mas o processo de recepção sofreu um duro golpe no verão de 1968 com a encíclica de Paulo VI Humanae vitae: não tanto pelo conteúdo (é um documento cujo tom pastoral está alinhado com o Concílio), mas pela promessa traída de colegialidade (Paulo VI contradisse a comissão especial que ele mesmo havia nomeado).

Com João Paulo II, a recepção conciliar assumiu traços ambivalentes, se não contraditórios: o "modelo polonês" baseava-se na capacidade de compreender dentro de si modelos culturais e políticos diversos de inculturação, mas a intuição do Papa Wojtyla salvou a Igreja das tentações do "choque de civilizações" (o encontro inter-religioso de Assis de 1986 foi convocado pelo papa três anos antes da queda do Muro de Berlim, 15 anos antes do 11 de setembro de 2001): Wojtyla livrou a Igreja de alinhamentos geopolíticos da Guerra Fria e atravessou a terra incógnita do diálogo inter-religioso com os gestos e pouquíssimas palavras.

A eleição de Bento XVI representou o fim da ambivalência de João Paulo II (que é também uma ambivalência necessária de alguns textos conciliares, especialmente aqueles sobre as relações entre Igreja e esfera política) e abriu as portas ao repensamento crítico do Concílio, especialmente daquilo que o Concílio diz das relações entre Igreja e mundo moderno: repensamentos intelectualmente relevantes como o de Ratzinger e revanchismos em que se misturam anti-Concílio e animus antidemocrático pró-fascista.

Aos ensaios afiados do teólogo Ratzinger sobre a constituição Gaudium et spes (basta reler o ensaio "Rever o período pós-conciliar", publicado em 1975), segue-se ao longo do pontificado uma substancial e inequívoca revisão da política doutrinal vaticana sobre liturgia, cisma lefebvriano, ecumenismo, diálogo inter-religioso, católicos na política.

Tudo isso é evidenciado por um silêncio igualmente inequívoco sobre a Gaudium et spes (basta contar o número das citações nos nove volumes de "Ensinamentos de Bento XVI"): que é exatamente o ponto a partir do qual o Papa Francisco – o primeiro papa que coabita no Vaticano com um papa emérito que ainda se veste de branco – retoma o discurso.

Os discursos dos primeiros dias e semanas, a entrevista (a mais importante de todas) com o Pe. Spadaro, da revista La Civiltà Cattolica, de setembro de 2013, e a exortação Evangelii gaudium de algumas semanas depois. O Sínodo dos bispos reunido em Roma em outubro de 2014 para falar de família é uma retomada das trajetórias conciliares sobre quatro pontos especialmente.

O primeiro é retomar o discurso da Gaudium et spes entre Igreja e mundo moderno, depois de um pontificado como o de Bento XVI de marca neoagostiniana, em que a Igreja "ilha de graça" é cercada por um mundo de males. A versão euroamericana do agostinianismo levou, em tempos recentes, a uma tentativa de "reculturalização" do catolicismo no seu leito europeu: o contrário da inculturação. Será interessante ver como, falando de família, os padres sinodais conseguirão inculturar o magistério sobre a família em uma Igreja verdadeiramente global, hoje mais do que no Vaticano II.

O segundo ponto é a colegialidade e sinodalidade da Igreja: o Concílio fala de colegialidade em sentido estritamente episcopal (só os bispos com o papa), mas, depois do Concílio, emergira claramente a necessidade de uma dimensão sinodal (todo o povo de Deus). O Papa Francisco recebe isso, e o seu próprio falar do Sínodo dos bispos como expressão da colegialidade mostra a não dogmaticidade na sua implementação das trajetórias conciliares.

O terceiro ponto é uma visão renovada da doutrina social da Igreja, a começar pela família. No fim de 1965, a Gaudium et spes representa, ao mesmo tempo, a morte e o renascimento do "Catholic social teaching" dos séculos XIX-XX. Mas, logo depois do Concílio, o processo de recepção por parte do magistério eclesiástico nega em grande parte aquelas demandas de "socialização": nos anos 2000, a Igreja volta a repropor sub-repticiamente uma centralidade europeia e burguesa da formulação do magistério social, ao mesmo tempo em que, porém, nega as bases intelectuais liberais daquele emburguesamento (o discurso de Bento XVI ao Reichstag em Berlim, de setembro de 2011).

O Papa Francisco não é culturalmente liberal nem politicamente liberal, mas sim um católico social completo, isto é, progressista. Nesse sentido, é legítimo ver a promessa do Sínodo do Papa Francisco em um Sínodo sobre a família que não seja moralista, ou seja, que apresente entre as ameaças à família hoje um sistema econômico em que as desigualdades levam o ser pais e mães rumo a vidas heroicas que não têm nada a invejar dos mais exigentes modelos de santidade.

O moralismo silencia certos católicos (norte-americanos, com prosélitos em todo o mundo graças a certas escolas de business ethics estadunidense de exportação) diante de um sistema em que o carpinteiro ganha 93 vezes menos do que o seu executivo-chefe, e um trabalhador do McDonald's ganha 1.200 (mil e duzentas) vezes menos do que o seu chefe supremo. O Sínodo 2014 vem depois de três décadas de americanização da Igreja – uma geração depois da americanização do mundo: o que resta daquela interpretação muscular do catolicismo Deus, pátria e família, valores inegociáveis, comunitarismo dos bons católicos "in good standing" e excomunhão para os católicos irregulares?

O quarto ponto, e o mais importante, é a pastoralidade da doutrina: "O cheiro das ovelhas" de Bergoglio é exatamente o contrário das tentativas de diminutio do Vaticano II como "Concílio pastoral", oposto aos Concílios dogmáticos que agradam aos católicos neoconservadores duros e puros. As palavras do Papa Francisco de abertura do Sínodo na missa de domingo, 5 de outubro, são as palavras de um bispo que não é só "defensor civitatis" (no sentido de civilização humana), mas também "defensor populi christiani", que fala aos bispos em nome da Igreja. Do "papa teólogo" Bento XVI, passamos a Francisco, o papa com o cheiro das ovelhas que não nega as evidências, mas assume o salto entre Evangelho e doutrina. Alguns chamavam isso de modernismo, mas não é nada mais do que a Igreja na modernidade.

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