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06 Novembro 2013

"Antes do Vaticano II, a situação da teologia é muito simples. Os teólogos explicam o pensamento católico, que funciona como um sistema. Diversas teorias podem, certamente, existir, em um certo número de pontos que todos reconhecem como não definidos, mas, uma vez que todos são baseados em uma filosofia decorrente de Aristóteles e de Tomás, não há verdadeiramente nenhuma diferença. A teologia é uma, como a fé e a igreja", escreve Patrick Royannais, em artigo publicado por Témoignage Chrétien, 31-10-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

A partir do final do século XIX, toma-se consciência de que há uma história de dogma. Contrariamente ao que se pensava, a fé não foi sempre formulada da mesma maneira; isso que todos acreditam, sempre e em toda a parte, não é imutável! A crise modernista por volta do ano de 1905 é traumatizante com as suas condenações. A crise faz sentir-se novamente nos anos cinquenta com as condenações de Lubac, Chenu e tantos outros historiadores da teologia. As tensões e as dilacerações provenientes de um cristianismo intransigente (fundamentalista ou tradicionalista) são um novo episódio do encontro conflituoso entre história e dogma. A tradição, para Monsenhor Lefebvre, é o que ele aprendeu com sua mãe; ela, por sua vez, recebeu diretamente de Cristo. A piada sublinha a dimensão anti-histórica e afetiva da fé, portanto, a incapacidade de escutar qualquer crítica que seja (1). O Concílio Vaticano II convalida os resultados de uma teologia histórica no que se chama retorno às fontes, em liturgia, a patrística, a dogmática e a exegese. Ela proíbe, em princípio, a fixidez que se encontra nos fundamentalistas de todos os tipos.

Assim, manifesta-se um pluralismo teológico, não por  meio de teorias contraditórias, mas por intermédio de várias maneiras de apresentar a fé, que não se pode reconduzir até uma unidade sintética, tanto mais que a diversidade das disciplinas teológicas e a extensão dos conhecimentos não são mais padronizáveis por uma única pessoa. A pacificação ecumênica operada pelo Concílio modifica o olhar sobre a teologia dos irão separados.

Eles não são mais os hereges que necessitam ser combatidos, mas oferecem uma outra apresentação do único mistério da fé, que se deve escutar. Pluralismo, na teologia católica, pluralismo das teologias cristãs, pluralismo cultural também, agora mais radical, dos quais os sacerdotes do Concílio tinham no momento pouca consciência, embora possam vivê-lo.

Se a fé católica está presente em todas as partes do mundo, e não é mais expressa segundo os modelos ocidentais, algo que o Concílio percebeu, sobretudo, por intermédio dos ritos orientais, agora o eurocentrismo, que dava impressão da unidade da teologia, estilhaça-se. Em fim, ainda menos explícito no Concílio, mas, todavia um dos seus frutos, o pluralismo religioso. A teologia das religiões que acredita que cada religião pode constituir um caminho de salvação, ultimamente, não faz mais que regionalizar a fé católica. Há verdades em outras religiões, e não se trata mais de batizar a todos, mas de aprender com o outro aquilo que diz da verdade para melhor compreender, no encontro, a autenticidade da nossa própria fé.

Rahner parece ser um dos primeiros a tomar consciência daquilo em que se torna a teologia que se confronta com o pluralismo. Longe de temer o relativismo, como Ratzinger, ou o choque de cultura, convida a igreja a não se retirar para dentro de si mesma, para descobrir, em contato uns com os outros, quem é ela, qual é a sua missão, o que significa o evangelho. Não se trata de adaptar o Evangelho e, menos ainda, de abandoná-lo; a compreensão do Evangelho é modificada pelo encontro das diferenças irredutíveis, inadmissíveis. Assim, se se pode viver muito bem com um outro deus, ou sem Deus, e não ser menos homens ou pelo menos não piores, para que serve o Evangelho? Somos conduzidos à redescoberta da gratuidade absoluta de Deus, já expressa no evangelho, mas muito ignorada.

O Evangelho tem ainda para nos ensinar o que nunca entendemos, porque, em outras épocas e contextos, fizeram-se ouvir outras coisas. O que o último Concílio pôs em jogo é nada menos que isto: liberar as possibilidades inéditas que o Evangelho esconde, pelo menos escutar verdadeiramente o Evangelho para os dias de hoje. (2).

Notas:

(1) A oposição visceral da Igreja ao matrimônio para todos ressalta essa intransigência, afetivamente incapaz de pensar de modo diferente de como sempre o fez. O recurso a uma antropologia filosófica, considerada única porque fundada sobre a razão, coloca à mostra uma ideologia datada, a do Iluminismo. Para proclamar a universalidade da razão, ou seja, do funcionamento ocidental da razão, desprezam-se as outras culturas ou, mesmo, continua-se a fazê-las desaparecer.

(2) Essas questões têm sido muitas vezes entrevistas por Rahner, por exemplo, nos artigos traduzidos dos anos oitenta, mas também em “O Pluralismo na Teologia e a Unidade do Credo da Igreja” (Concilium, n. 46, 1969) e nos dois primeiros artigos dos Escritos Teológicos.

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