Síria. Uma intervenção com múltiplos efeitos

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Por: Jonas | 30 Agosto 2013

Em março de 2003, o Parlamento britânico votou a favor do ataque militar ao Iraque para colocar fim a um programa de armas de destruição em massa, programa que, segundo os serviços de Inteligência, “poderia impactar o Reino Unido em 45 minutos”. Hoje, o Parlamento inicia um debate que deverá definir a próxima semana, caso ataque militarmente a Síria por seu suposto uso de armas químicas, presunção baseada nos relatórios de Inteligência. Ainda assim, a famosa frase de Marx – a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa – mereceria ser reformulada. No caso sírio, o ataque será uma tragédia sem nenhum floreio daqueles que costumam acompanhar uma farsa. Na conversa com o jornal Página/12, Pat Thaker, diretora da África e Oriente Médio, da Unidade de Inteligência do semanário britânico “The Economist”, analisou as alternativas que se abrem para a Síria e a região.

A entrevista é de Marcelo Justo, publicada no jornal Página/12, 29-08-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

A ofensiva militar parece inevitável. Qual é o cenário mais possível de ataque militar?

Uma ação breve e contundente. O momento e a duração são chaves. Não veremos a intervenção militar que assistimos no Iraque. Os objetivos serão instalações militares ou vinculadas com os militares. Não acredito que haja ataques diretos sobre instalações de armas químicas, pelo risco de liberar agentes tóxicos. Será preciso ver qual é a reação da Síria e de seus aliados. E ver qual impacto terá sobre a região em seu conjunto. Uma das opções que a Síria tem é a de envolver Israel no conflito, lançando um míssil ou ativando a frente sul do Líbano através de seu aliado, Hezbollah.

Também poderá lançar um ataque contra o sul da Turquia e da Jordânia. Também será preciso ver a reação do Irã e Rússia diante de um conflito. Ambos possuem conselheiros militares na Síria e advertiram que pode haver consequências. No caso do Irã, há um novo governo que está enfrentando seu primeiro grande desafio diplomático.

Quais são os desafios de uma intervenção “breve e contundente”?

Nestas intervenções sempre morrem civis inocentes. Isto pode ter um forte impacto sobre a região. Também não se pode desconsiderar que as defesas sírias possam alcançar a força aérea dos aliados. É um conflito que vem ocorrendo faz tempo, de tal maneira que se pensa que é uma alternativa que já está contemplada, o que não quer dizer, por suposto, que não tenha riscos. Porém, além disso, a intervenção irá abrir uma nova fase na guerra civil. Os Estados Unidos têm muito claro que não é para remover Assad, mas é evidente que será percebido como uma tentativa de removê-lo ou de forçá-lo a negociar sua própria substituição. A guerra civil síria já teve impacto no Líbano, Iraque, Jordânia e até na Turquia. Com este ataque é de supor que o tema dos refugiados se agravará.

No Reino Unido, ex-chefes militares, como o do exército britânico, o general Lord Robert Dannat, destacaram que não há uma estratégia muito clara. Um temor é que esta intervenção vá reforçar a posição dos grupos vinculados com Al-Qaeda que lutam contra o governo de Assad, o que seria além de uma ironia, uma intervenção militar estadunidense que resulta virtualmente aliada a Al-Qaeda.

É uma das perguntas centrais. Ninguém sabe bem como está formada a oposição armada a Assad. Uma parte é a Al-Qaeda. De modo tal forma que quando se arma o movimento rebelde está se armando a Al-Qaeda. Este fato tem o outro lado, o de que é necessário enviar uma mensagem clara sobre os ataques químicos. Porém, é evidente que um enfraquecimento do regime de Assad, que leve à sua queda, irá aprofundar o conflito, com uma enorme incerteza em médio prazo e um forte perigo de regionalização.

A mera possibilidade de um ataque militar teve um claro impacto econômico com a alta do preço do petróleo e a instabilidade dos mercados de ações. Pode este conflito atrapalhar a tímida recuperação que está sendo notada nos Estados Unidos, Japão e na zona do Euro?

O mercado está reagindo a esta possibilidade iminente de ataque e se ajustará sempre e quando o fornecimento petroleiro não for atingido. Se o ataque não produz uma instabilidade regional, o impacto econômico não será sério em nível global. Contudo, isto é uma grande interrogação. Não sabemos o que irá acontecer. De modo que, em curto prazo, haverá instabilidade. Depois, depende de como será a intervenção militar e quanto irá durar. Há dois fatores que moderam o impacto econômico. A guerra civil síria não é um fenômeno novo e a Síria não é um importante produtor de petróleo. Além disso, todas as mudanças produzidas no mercado petroleiro pelo petróleo de xisto e o fato de que os Estados Unidos irão passar de importador para exportador do produto são fatores que estabilizam o mercado. O fornecimento já não depende tanto do Oriente Médio, o que ajuda a neutralizar o impacto desta instabilidade regional.

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