Eucaristia, o duplo escândalo no coração do cristianismo. Artigo de Piero Citati

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23 Julho 2013

Este é o duplo escândalo, o duplo, grandioso paradoxo da Eucaristia: a conversão do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo; o canibalismo místico, pelo qual os fiéis degustam o corpo do seu Senhor.

A opinião é de Piero Citati, um dos mais famosos escritores e críticos literários italianos, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 21-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um livro fascinante, Entrare nei misteri del Cristo (Qiqajon, 652 páginas), Luigi d'Ayala Valva recolhe os textos da liturgia eucarística, tal como ela se desenvolveu na literatura bizantina dos séculos II ao XIV, de Inácio de Antioquia a Nicola Cabasilas. Seguirá um segundo volume, com os paralelos textos latinos.

Na literatura bizantina, a eucaristia é o coração da religião cristã: "milagre dos mistérios", "o remédio da imortalidade", a "missa sacra e tremenda". "Ó, tremendo mistério! Ó, inefável economia de salvação!", "Ó, incompreensível condescendência", "Ó, insondável compaixão!", assim exclama Teófilo de Alexandria, perto do fim do século IV.

Durante a missa eucarística e a liturgia que a recorda, as palavras dos fiéis celebram os querubins, os serafins e todas as potências angélicas. Nesse mesmo momento, os inúmeros exércitos, que estão ao redor do trono de Deus, cantam o hino de glória, interrompendo e alterando a voz do sacerdote. A plena voz, do alto, ecoam as palavras: "Santo, Santo, Santo, ó Senhor Sabaoth". Esse duplo hino humano e angélico tem uma função apocalíptica, porque revela que a liturgia da Igreja transcende não só toda realidade mundana, mas também a si mesma como liturgia, encontrando cumprimento na realidade celeste e antecipando o hino glorioso do fim dos tempos. Se os cristãos têm a audácia de se servir das mesmas palavras dos querubins e dos serafins, o fazem porque estão conscientes de que Cristo nos permitiu que nos tornássemos imortais como os anjos.

Nesses cantos, que, de baixo, sobem ao alto e, do alto, descem para baixo, reina o temor, a reverência, a cautela: as palavras que audaciosamente voam para o alto, na alta câmara ocupada por Jesus, não interrompendo nunca a mais profunda moderação. Mas esse temor é repleto de um imenso fogo. "Ah, talvez – escrevia Orígenes – se também se inflamasse o nosso coração dentro de nós enquanto explicamos as Escrituras, e irrompesse um fogo na nossa meditação. Assim Jeremias acendia os ouvintes: nada de tépido e de frio permanecia dentro deles; mas, assim como o fogo destrói toda matéria e não acolhe em si mesmo nada de contaminado, assim também aqueles cujo coração foi tocado pela chama da palavra divina não suportam mais serem contidos nas aparências materiais e mundanas, mas as suas lâmpadas permanecerão sempre acesas e as suas lamparinas ardentes, como as dos servos que esperam o seu senhor voltar das núpcias".

Esse fogo não deve arder fechado debaixo do alqueire: mas sim iluminar livremente as distâncias, permanecendo aceso em cima do candelabro. Toda a meditação sobre a eucaristia é marcada pela dupla força do temor e do fogo.

A antiga e original aliança entre Deus e Israel havia ocorrido no Êxodo. Moisés construiu um altar aos pés da montanha, com 12 estrelas para as 12 tribos de Israel; os jovens judeus sacrificaram os touros ao Senhor; Moisés leu a Israel o livro da aliança, aspergiu o povo com o sangue dos touros e disse: "Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor estabeleceu para vocês, com base em todas estas palavras".

Não era a única ligação entre Deus e Israel. Antes da fuga do Egito, cada família tomou um cordeiro, macho, puro e sem defeitos, e o degolou ao anoitecer, manchando de sangue os dois pilares e o lintel de cada porta. Depois, todos os judeus, naquela noite, assaram a carne dos cordeiros no fogo e a comeram com pão sem fermento e ervas amargas: nada de cru ou de cozido na água, mas tudo assado no fogo, com a cabeça, as patas e as miudezas. O que restou de manhã foi queimado.

O Novo Testamento também conhece uma aliança entre Deus e o seu povo: a nova aliança, que ao mesmo tempo confirmaria e cancelaria a antiga. Durante a última ceia, como relatam os três evangelhos sinóticos, Jesus disse aos discípulos: "Desejei ardentemente comer esta páscoa com vocês antes da minha paixão. Eu lhes digo, de fato, que não a comerei até que ela se cumpra no reino de Deus".

E tomou um cálice, depois de dar graças, e disse: "Tomem-no e distribuam-no entre vocês. Digo a vocês que, a partir deste momento, eu não beberei do fruto da videira até que venha o reino de Deus".

Depois, tomou um pão e deu graças, o partiu e o deu a eles dizendo: "Este é o meu corpo que é dado por vocês. Façam isso em memória de mim". E, do mesmo modo, com o cálice, depois de ter ceado, dizendo: "Esta é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por nós".

Os sacrifícios dos cordeiros na antiga aliança ocorriam muitas vezes: como eram muitos, dizem os Padres gregos, também eram vãos. O sacrifício da nova aliança ocorre, ao invés, uma única vez, por vontade de Deus e de Cristo, quando Jesus sobe à cruz e morre na cruz, antecipando o seu gesto aos discípulos durante a última ceia: por esse caráter de absoluta unicidade, a cerimônia da nova aliança é fundada e eterna.

É verdade que ela também se repete toda vez que os fiéis aproximam da boca o pão e o vinho: mas o fundamento da aliança está atrás, na origem, quando Jesus se imola na cruz para perdoar os nossos pecados.

O gesto de Cristo durante a última ceia é, em primeiro lugar, uma recordação: aquele pão partido em pedaços mais ou menos miúdos nos relata, em perspectiva, o episódio da crucificação, quando, do mesmo modo, os membros de Jesus eram agredidos, feridos, vilipendiados, despedaçados. Mas, na sua essência, o gesto de Jesus é muito mais do que uma recordação. É uma conversão: uma metamorfose.

Enquanto Jesus oferece o pedaço de pão e o gole de vinho aos discípulos, ele transforma aquelas simples espécies naturais no seu próprio corpo, no seu próprio sangue, e só desse modo o seu gesto se torna o sinal físico da nova aliança. Agora, os membros e o sangue de Cristo estão ali, sobre a mesa, nas mãos de Jesus, ou no cálice que ele segura nas mãos: foram transformados em pão e em vinho, e Jesus recomenda aos discípulos que comam e bebam, como fazem todos os dias quando comem e bebem o pão e o vinho da sua existência.

Esse é o duplo escândalo, o duplo, grandioso paradoxo da Eucaristia: a conversão do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo; o canibalismo místico, pelo qual os fiéis degustam o corpo do seu Senhor. Por mais que possa parecer absurdo e incompreensível, os fiéis devem aceitar esse mistério: sem a Eucaristia, entendida não em sentido simbólico, mas em sentido físico, não existe nenhum cristianismo, que precisa desse duplo escândalo e faz dele a sua essência.

Olhando e ouvindo o que acontece com olhos e ouvidos místicos, os fiéis compreendem que as palavras do sacerdote, que repetem literalmente as do Cristo, operam a grande metamorfose: a mesma que as palavras e os gestos de Jesus haviam operado durante a última ceia. Tudo ocorre por intervenção milagrosa do Espírito Santo, embora essa intervenção seja lembrada nos textos dos Padres gregos e não ainda nos evangelhos sinóticos.

Enquanto Jesus oferece o seu corpo aos discípulos durante a última ceia, ele já está morto: parece vivo, fala com perfeita razoabilidade, como fazem os vivos e não os mortos. Porém, o corpo da vítima, se estivesse ainda viva, não seria adequado à alimentação por parte dos discípulos.

Essa interpretação não é dada pelos evangelhos sinóticos, mas sim pelos Padres gregos, que pensam que o corpo de Cristo já foi secretamente imolado, talvez pelo Espírito Santo. Tudo o que a liturgia bizantina diz da eucaristia é igualmente inefável e inconcebível. Os fiéis sabem que cada um deles absorve apenas um pedaço de pão e um gole de vinho: portanto, uma parte mínima do corpo de Cristo. Porém, os Padres gregos nos asseguram que, na eucaristia, os fiéis possuem e degustam todo o corpo de Cristo. Orígenes assegura que cada um deles o degusta segundo a sua própria necessidade e a sua própria natureza: toque não menos misterioso do que aqueles de que falamos até agora.

* * *

No fim, ocorre a metamorfose definitiva. Mesmo permanecendo aparentemente seres humanos, os fiéis se transformam no corpo vivo de Cristo: tudo é divinizado, segundo o profundo desejo do pensamento bizantino. Não há mais corpos isolados e divididos, não há mais nada de terreno e de mundano; mas há apenas o único, imenso corpo divino da Igreja, que se identifica total e absolutamente com o de Cristo.

Já havia dito Inácio de Antioquia, poucas décadas depois da morte de Jesus: "Buscai, pois, de ter uma única eucaristia. Uma única, de fato, é a carne do Senhor nosso, Jesus Cristo, e um único é o cálice que nos une no seu sangue, um único é o altar, assim como um único é o bispo, juntamente com o presbitério e os diáconos, meus companheiros de serviço. Tudo o que fizerem, façam segundo Deus".

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