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10 Setembro 2011

Um livro em quadrinhos sobre a epopeia de Julian Assange. Das primeiras ações à prisão inglesa, os episódios de um sítio que mudou a geografia da rede.

A reportagem é de Benedetto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 02-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O último episódio que viu o Wikileaks como protagonista foi a divulgação da senha para acessar a parte reservada do site por parte de um jornalista do The Guardian, que é um dos jornais que divulga o conteúdo dos materiais reservados que chegaram ao grupo fundado por Julian Assange. Como se sabe, o Wikileaks verifica os telegramas "postados" e depois os torna disponíveis aos jornais com os quais estabeleceu um acordo para a sua divulgação em papel impresso. Foi óbvia a reação irada do site. O porta-voz Wikileaks anunciou ações legais contra o jornalista e o jornal britânicos.

A notícia, porém, causou perplexidade sobre as normas de segurança do site, já postas sob duras provas depois que, nos últimos dias, houve "incursões" de hackers, que Assange logo qualificou como mercenários pagos pelas empresas e pelos governos envolvidos na divulgação dos "materiais reservados" que os fez protagonistas de ações e escolhas muito pouco apresentáveis à opinião pública.

A luta contra o segredo empreendida por Julian Assange certamente lhe criou muitos "inimigos", mas não há dúvida de que o Wikileaks foi um verdadeiro tsunami na rede. Em poucos anos, o velho slogan da cultura hacker de que "a informação deve ser livre para circular" redesenhou a geografia política e cultural da Internet. Muitos governantes e governos foram postos a nu. Muitas operações sujas realizadas por empresas foram reveladas.

Em nome da transparência e da liberdade, o Wikileaks divulgou vídeos e informações que muitas chancelarias e grandes empresários gostariam que permanecessem secretos. Mas isso já é história. O fato que desperta o terror dos governos e das empresas é que o Wikileaks ainda tem uma quantidade enorme de materiais em sua posse e que tem todas as intenções, depois de verificá-los, de divulgá-los. O ministro do Interior italiano, Franco Frattini, hiperbolicamente, falou do Wikileaks como um outro 11 de setembro contra o Ocidente. O Pentágono equiparou mais de uma vez a ação do Wikileaks a uma operação terrorista. E opiniões hostis também foram expressas pelo governo francês, inglês, russo, sem falar os africanos ou os do Oriente Médio, cúmplices de operações "secretas" de governos ocidentais ou corrompidos por multinacionais para poluir ou se apropriar de reservas naturais (de petróleo, obviamente).

O Wikileaks e o seu fundador, Julian Assange, têm o mérito indiscutível de ter tentado aplicar aquele princípio da liberdade de informação, considerado um dos pilares da democracia. Muito se poderá aprender sobre o funcionamento e a organização do Wikileaks com a anunciada biografia de Assange (na Itália, deve sair em outubro pela editora Feltrinelli).

De igual interesse, entretanto, é a biografia em quadrinhos de Dario Morgante e de Gianluca Costantini, já nas livrarias pela editora Becco Giallo (Julian Assange. Dall"etica hacker a Wikileaks, 143 páginas). O livro tem a vantagem de oferecer toda a história de Assange desde quando ele decidiu divulgar um vídeo do Exército dos EUA que testemunhava o assassinato por parte dos soldados norte-americanos de alguns jornalistas e civis iraquianos considerados "terroristas". Nada é omitido. Incluindo aquelas zonas de sombra no comportamento de Assange com relação aos meios dominantes ou a sua nem sempre límpida relação com as mulheres.

O fundador do Wikileaks foi acusado de estupro pela magistratura sueca, acusação rejeitada e considerada como parte de um complô norte-americano para suprimir a atividade do Wikileaks.

Tirinhas de estilo essencial, onde a imagem muitas vezes substitui as palavras, contribuindo para alimentar a aura do combatente pela liberdade que é muito amada por Assange, naqueles aspecto egocêntrico e às vezes paranoico que muitas vezes lhe é atribuído como uma das suas maiores limitações.

Mas para além dos limites da sua personalidade, Julian Assange e o Wikileaks realmente mudaram aquele equilíbrio entre liberdade de expressão e negócios que caracterizou a rede. É difícil, de fato, pensar no ativismo de mídia presente e futuro sem ter em mente que o Wikileaks conseguiu construir um "dispositivo" para a difusão de materiais indesejados aos governos e aos negócios tão ampla que qualquer projeto de informações independente só pode enriquecer com a sua experiência.

Além disso, o Wikileaks modificou o próprio conceito de opinião pública, desnudando como as técnicas de manipulação tornam a rede não aquela terra prometida da liberdade, como alguns teóricos da mídia defenderam nos últimos anos. O Wikileaks, de fato, alavancou-se na mídia dominante para ampliar o porte das suas revelações. Em outros termos, a produção da opinião pública vê um cruzamento entre negócios e informações difícil de ser resolvido.

No entanto, não há dúvida de que Julian Assange e o Wikileaks revelaram que a produção e a circulação de informação é sempre o resultado de uma atividade econômica, mas também de um conflito em torno dos modos de produção e da consequente interpretação dos conteúdos. É esse conflito que teve a força de um tsunami dentro e fora da rede. Um tsunami que ainda continua irrompendo no debate público e colocando em crise chancelarias e conselhos de administração.

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