Em busca de uma coerência ética nos investimentos: Interrogações e iniciativas dos Missionários Combonianos no Brasil

Foto: Missionários Combonianos Brasil

04 Novembro 2021

 

Viver o Evangelho com radicalidade é um horizonte distante que, porém, continuamente atrai e direciona os passos, frágeis e cheios de contradições, da vida religiosa.

Apontar por escrito nossos compromissos e desafios nos ajuda e provoca a sermos fiéis a esta missão.

 

O texto é Dário Bossi, missionário comboniano, membro da rede Iglesias y Minería e assessor da Comissão especial para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

 

Uma conversão profunda e urgente

 

“Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Evangelii Gaudium, n. 176).

Uma das realidades onde essa missão se faz mais árdua e urgente é o âmbito da economia.

No mundo de hoje, a concentração de renda alcançou níveis obscenos; é expressão escandalosa de uma injustiça crescente, estrutural, pecado social e mortal.

Oito indivíduos detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo!

O problema não é a falta de recursos financeiros, mas sua apropriação por corporações que os usam para especular, em vez de investir: hoje mais do que nunca, a aplicação financeira rende mais do que o investimento produtivo.

O Concílio Vaticano II (GS 63) convocou as comunidades cristãs a atuar na vida econômica e social dando prioridade à dignidade e vocação integral da pessoa humana e ao bem de toda a sociedade.

Papa Francisco, em sua mais recente mensagem aos movimentos sociais, disse explicitamente que “é tempo de parar a locomotiva que está nos levando ao abismo”.

A iniciativa “A economia de Francisco e Clara”, particularmente voltada para as juventudes, com foco em novos modelos de vida e sociedade, assume junto ao Papa um desafio enorme: “realmar a economia”.

Isso comporta, pelo menos, dois grandes eixos de ação: direcionar a economia a serviço da vida, e não do lucro; distanciá-la de todos os processos de morte que estão destruindo a Criação.

Papa Francisco pediu isso com humildade e firmeza no mesmo discurso aos movimentos sociais: “Quero pedir em nome de Deus às grandes empresas extrativas - mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agronegócios - que deixem de destruir os bosques, as áreas úmidas e as montanhas, deixem de contaminar os rios e os mares, deixem de intoxicar os povos e os alimentos”.

 

Tocando as feridas dos pobres e da Terra

 

Em nossa pequena experiência missionária no Brasil, escutamos cada vez mais forte o clamor dos pobres e da Terra, especialmente no compromisso pastoral socioambiental.

Contribuímos, junto à REPAM, na definição do “pecado ecológico”, cuja melhor formulação foi alcançada durante o Sínodo da Amazônia: “um pecado contra as gerações futuras”, uma “transgressão contra os princípios da interdependência”, uma “ruptura das redes de solidariedade entre as criaturas”.

Alguns de nós atuam contra as violações provocadas pelo extrativismo predatório das grandes corporações mineiras (cf. a rede Justiça nos Trilhos), ou sofrem junto às comunidades os impactos da mineração ilegal e do garimpo. Alguns outros atuam com compromisso em defesa dos povos e de seus territórios, junto ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) ou à Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Acreditamos, em profunda sintonia com Papa Francisco, que a vida plena evocada pelo Evangelho de São João (10,10) comece com o direito à Terra, Teto e Trabalho para todas as pessoas.

 

Uma proposta e nossa adesão

 

Na profunda crise sanitária e econômica que atravessamos, a insegurança alimentar voltou a assombrar o Brasil. Cerca de 20 milhões de pessoas estão em situações de miséria e a risco de desnutrição: é o anti-Reino, uma blasfêmia que fere o coração de Deus! É a comprovação mais dura daquilo que o Papa já disse repetidas vezes: “esta economia mata!”.

Existem, porém, experiências de partilha e esperança que abrem brechas de luz, como a solidariedade das comunidades nas periferias urbanas, ou a resistência dos povos indígenas.

O Movimento dos Trabalhadores-as Rurais Sem Terra (MST), maior movimento social do mundo, só nos primeiros 6 meses de pandemia realizou ações de solidariedade em diversos estados do País, doando 3.400 toneladas de alimentos. Quinze hortas comunitárias foram iniciadas em acampamentos para fortalecer as doações.

Há mais de trinta anos, o Movimento atua com cooperativas de produção rural e comercialização de produtos do campo. Hoje, existem 160 cooperativas e mais de 1.000 associações, das quais fazem parte 450.000 famílias em 24 Estados.

Recentemente, o MST planejou captar 17,5 milhões de reais com a emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), uma modalidade de título de renda fixa utilizada para financiar o produtor ou a cooperativa agrícola, que tem como lastro a economia real, ou seja, a própria produção. O objetivo deste financiamento é custear a produção, majoritariamente orgânica, de arroz, milho, leite, soja, suco de uva e açúcar mascavo de sete cooperativas.

A prática agroecológica do Movimento e o apoio à agricultura familiar são perspectivas de economias circulares, colaborativas e sustentáveis em que, ao nosso ver, faz sentido apostar.

Por estes motivos, a partir de nossa prática pastoral, do Evangelho em que acreditamos e do clamor que continuamente escutamos, também nós, Missionários Combonianos no Brasil, decidimos entrar neste financiamento e destinar uma parte de nossos fundos para este investimento.

 

Significado e perspectivas

 

Esta adesão é um primeiro passo que nos ajuda a reconhecer quanto ainda precisamos avançar para “realmar a economia” a partir de nossas próprias práticas.

Somos parte de uma articulação ecumênica continental, a rede “Igrejas e Mineração”, que está promovendo estudos, discernimento e compromissos sobre a economia refém do extrativismo predatório e devastador. Também os investimentos das igrejas podem contribuir a alimentar ou enfraquecer economias de morte; a Campanha de Desinvestimento da Mineração é uma ferramenta para conscientizar a vida religiosa e a opinião pública sobre as violações do business da mineração e o potencial simbólico e profético de um distanciamento ético destas corporações.

O próximo passo de nosso compromisso será aprofundarmos o controle de nossos investimentos e, possivelmente, direcioná-los mais ainda para atividades produtivas e coerentes com nossos valores. Unimo-nos, nisso, às recentes iniciativas assumidas, neste mesmo sentido, pelos Missionários Claretianos e Verbitas, bem como à proposta da “Revolução Laudato Si'” lançada por Franciscanos e Jesuítas, e também ao “Plano de Ação Laudato Si’” coordenado pelo Dicastério Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral.

O caminho ainda é longo, mas manifesta um progressivo despertar da Vida Religiosa para o paradigma da Ecologia Integral e da Economia de Francisco e Clara!

 

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