Depois do Covid, é hora de reconstruir. Artigo de Massimo Recalcati

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14 Outubro 2021

 

"Devemos ser capazes de transmitir-lhes o renovado sentido de uma aliança entre as gerações que lhes permita ler até as experiências mais difíceis e dolorosas, como aquela do Covid, como essenciais num processo de formação. Os nossos canteiros de obras irão valorizar o trauma. Essa é a tarefa individual e coletiva que nos espera. Não a resposta desmoralizada ou raivosa, mas a atuação de um trabalho coletivo que neste tempo, ainda abalado pela incerteza, saiba oferecer ideias, pensamentos longos, possibilidades inéditas", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das Universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 13-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Precisamos de canteiros de obras hoje em nosso país tremendamente provado pela epidemia. Precisamos recomeçar, voltar a respirar. Este é um dos significados que levanta a antiga palavra bíblica Kum! que nos últimos anos tem inspirado o nosso trabalho sobre as práticas do cuidado.

Kum! é a palavra imperativa que convida a nos levantar, a retomar o caminho, a voltar à vida: Kum!

Levante-se! Assim, Jesus se dirige a Lázaro sepultado no túmulo. Deveríamos tentar fazer laicamente deste apelo não apenas o convite imperioso a um despertar individual, mas um verdadeiro choque capaz de envolver toda uma comunidade. Este é, de fato, o tempo de se levantar, de recomeçar, este é o tempo de um novo começo. E começar já é sempre construir, já possibilitar de novo o horizonte do futuro que parecia dramaticamente comprometido pelo violento trauma do vírus. O desânimo e a desmoralização depressiva foram profundos.

Ainda poderíamos ter encontrado o mundo como o amávamos? Ainda haveria um futuro para nós? Levante-se! Kum! É a palavra anti-melancólica da cura. Convida à vida porque ainda há vida, porque nem tudo é morte, porque ainda há tempo para recomeçar. No entanto, o início não pode ser pensado apenas como o tempo de um instante. Todo verdadeiro começo é uma tarefa que o torna semelhante a um canteiro de obras, ou seja, um lugar onde se trabalha juntos para dar fundamento e forma a uma nova construção, a uma nova possibilidade.

Não se trata simplesmente de recuperar o que havia antes, de voltar a ser como era antes, porque como era antes não é de forma alguma alheio ao que nos aconteceu. Por isso, nossos canteiros de obras não devem ser locais de restauração ou de conservação, mas de projetos. O magistério do Covid nos ensinou que nossa forma de conceber a vida individual e coletiva deve ser profundamente retificada. Muitos erros. Não poderia continuar assim. O Covid nos obrigou a parar e a pensar. Não devemos esquecer a sua lição tão rapidamente. Cultivamos uma ideia puramente libertina de liberdade concebida como o direito da própria vontade de impor a sua força, esquecendo que a liberdade é solidariedade ou pura abstração, porque não pode haver salvação individual, mas apenas coletiva.

Confundimos antropocentrismo e humanismo invertendo brutalmente a relação entre habitar e construir, interpretando a nossa condição humana como legitimação para o exercício de um poder sem limites, esquecendo, justamente, que primeiro é habitar a terra e sua custódia e só graças a isso surge a possibilidade, apenas secundária, de construir. Contrapomos populisticamente a vida com as instituições pensando que estas últimas fossem apenas o lugar de uma alienação perversa, corrupta e podre, esquecendo que a vida humana sem instituições está destinada a perecer, que a vida e as instituições, como fortemente recorda em suas últimas obras Roberto Esposito, são duas faces de uma mesma moeda.

Esquecemos a importância da pesquisa, da cultura, do conhecimento diante da reivindicação incestuosa de uma falsa democracia onde um vale um e diante do triunfo de uma intoxicação de informações sem pensamento. Perdemos a importância de uma saúde pública na medida do homem, onde a cura é antes de tudo atenção à singularidade e não uma hiperespecialização que reduz a medicina à aplicação de padrões de protocolo que anulam essa singularidade. Eliminamos a importância da Escola na construção de uma cidadania crítica e democrática, reduzindo-a a uma empresa (falida) com objetivos de eficientismo produtivo.

Promovemos o culto ao lucro e ao dinheiro em detrimento da ética do trabalho, favorecendo a afirmação de uma economia de papel que não tem mais relações com a vida das pessoas, esquecendo que a qualidade da vida coletiva é o que torna toda organização produtiva. Não consideramos que erguer muros, militarizar as fronteiras, defender os próprios espaços nacionais sem pensar na Europa e numa ideia mais porosa das fronteiras, nos conduzem fatalmente ao isolamento e à ruína. Esquecemos que o cuidado dos nossos filhos não se alcança com sua eterna defesa que minimiza as responsabilidades que, em vez disso, devem necessariamente aprender a assumir. O teste que tiveram que suportar foi severo, mas nada nos deve autorizar a identificá-los na tenebrosa posição da vítima, em uma geração Covid que não existe.

Pelo contrário, devemos ser capazes de transmitir-lhes o renovado sentido de uma aliança entre as gerações que lhes permita ler até as experiências mais difíceis e dolorosas, como aquela do Covid, como essenciais num processo de formação. Os nossos canteiros de obras irão valorizar o trauma. Essa é a tarefa individual e coletiva que nos espera. Não a resposta desmoralizada ou raivosa, mas a atuação de um trabalho coletivo que neste tempo, ainda abalado pela incerteza, saiba oferecer ideias, pensamentos longos, possibilidades inéditas.

 

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