28º Domingo do tempo comum – Ano B – Viver o Evangelho segundo a lógica do dom

Por: MpvM | 08 Outubro 2021

 

A reflexão é de Maria José Lopes, religiosa da Congregação das Irmãs da Divina Providência - IDP. Ela é bacharel em teologia pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF, possui formação em Saúde e Espiritualidade pelo Instituto de Cardiologia de Porto Alegre e pela ESTEF e Formação em Psicologia Pastoral pelo Centro Evangélico de Missão - CEM, Viçosa/MG. Atualmente atua em pastoral e formação bíblica em Jacundá, Pará.

 

 

 

“Bom Mestre que devo fazer para herdar a vida eterna”?

 

Leituras do Dia


1ª Leitura - Sb 7,7-11
Salmo - Sl 89,12-13.14-15.16-17 (R.Cf. 14)
2ª Leitura - Hb 4,12-13
Evangelho - Mc 10,17-30
Evangelho - Mc 10,17-27

 

A liturgia da Palavra deste domingo, dia 10 de outubro, mês missionário aqui no Brasil, nos apresenta um conjunto de leituras muito valiosas para entrar no mistério, um caminho pedagógico que nos ajuda a fazermos opções.

 

A primeira  leitura (Sb 7,7-11), podemos chama-lo de hino à sabedoria. É importante saber que O "Livro da Sabedoria" é o “filho caçula” mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante o séc. I a.C.).
O texto nos presenteia uma pessoa sábia que faz um hino à sabedoria. Este poema pode nos ajudar a adquirir a verdadeira sabedoria. E a verdadeira sabedoria é um dom de Deus. Portanto, é um convite a buscarmos com intensidade este dom, assim a pessoa que a busca, terá clareza de fazer opções coerentes que a leve a abrir mão dos valores que não traz realização.

 

Este texto é elaborado em um período de diáspora em Alexandria, num mundo helenizado, em que os judeus estão sendo duramente forçados em aderir a modernização do mundo helénico e abandonar a fé em Javé, deixada pelos patriarcas e matriarcas. É neste ambiente que esta pessoa sábia em Israel com muita coragem, provavelmente autora do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu povo. Convida o povo “judaizantes” a redescobrir a fé dos antepassados reafirmando que somente Javé garante a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade.

 

O Evangelho

 

Marcos apresenta Jesus caminhando com seus discípulos em direção a Jericó. O caminho é pedagógico, catequético. No caminhar, Jesus vai catequisando seus discípulos sobre as exigências para quem quer segui-lo. De repente “chega um homem e pergunta a Jesus o que ele deve fazer para possuir a vida eterna”. Este homem não vem para questioná-lo, nem para pôr à prova, mas chega para buscar ajuda sobre algo muito importante: “A vida eterna”.

A primeira resposta de Jesus não traz nada de novo ao homem, remete-o aos mandamentos da Torah: "não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe" (vers. 19).

 

De acordo com a catequese feita pelos mestres de Israel, quem vivesse de acordo com os mandamentos da Lei, receberia de Deus a vida eterna. O viver de acordo com as propostas de Deus é, também na perspectiva de Jesus, um primeiro passo para chegar à vida eterna.

 

Esse novo passo tem um outro grau de exigência. Jesus aponta três requisitos fundamentais que devem ser assumidos por quem quiser integrar a comunidade do Reino:

1º) Não centrar a própria vida nos bens passageiros deste mundo.
2º) Assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos mais pobres,
3º) Seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega (vers. 21).

 

Apesar da boa vontade, o homem não está preparado para estas exigências. Vai embora muito triste. Certamente esta pessoa estava presa às suas riquezas e não estava disposta a vender e dar aos pobres (vers. 22).

 

O homem de que se fala nesta cena certamente é um piedoso observante da Lei; mas não tem coragem para renunciar às suas seguranças humanas, aos seus esquemas feitos, aos bens terrenos que lhe escravizam o coração. A sua incapacidade para assumir a lógica do dom, da partilha, do amor, da entrega, tornam-no inapto para o Reino. O Reino é incompatível com o egoísmo, com o fechamento em si próprio, com a lógica do "ter", com a obsessão pelos bens deste mundo, o capitalismo que escraviza a pessoa humana.

 

A história do homem rico que não está disposto a integrar a comunidade do Reino, pois não está preparado para viver no amor, na partilha, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para oferecer aos discípulos mais uma catequese sobre o Reino e as suas exigências. O “caminho do Reino” é um caminho de despojamento de si próprio, que tem de ser percorrido no dom da vida, na partilha com os irmãos, na entrega por amor.

 

Ora, quem não é capaz de renunciar aos bens passageiros deste mundo (ao dinheiro, ao sucesso, ao prestígio, às honras, aos privilégios, a tudo isso que prende o homem e o impede de dar-se aos irmãos) não pode integrar a comunidade do Reino. Não se trata apenas de uma dificuldade, mas de uma verdadeira impossibilidade (“é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, vers. 25): os bens do mundo impõem à pessoa uma lógica de egoísmo, de fechamento, de escravidão que são incompatíveis com a adesão plena ao Reino e aos seus valores. O discípulo e a discípula que quer integrar a comunidade do Reino deve estar sempre numa atitude radical de partilha, de solidariedade, de doação.

 

Querido irmão, querida irmã, a reação dos discípulos diante a exigência de Jesus é grande e assustadora. Então quem pode ser salvo? ( Vers.26)

 

Em resposta, Jesus pronuncia palavras de conforto, apresentando o poder de Deus incomparavelmente maior do que a debilidade humana (“aos homens é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível” – vers. 27). A ação de Deus (gratuita e misericordiosa) pode mudar o coração da pessoa e fazê-la acolher as exigências do Reino. É preciso, no entanto, que o homem e a mulher esteja disponível para escutar Deus e para se deixar desafiar por Ele.

 

Na segunda parte do nosso texto (vers. 28-30) os discípulos, pela voz de Pedro, recordam a Jesus que deixaram tudo para o seguir. A renúncia dos discípulos não é, contudo, uma renúncia que se justifica por si mesma e que tem valor em si mesma… Os discípulos de Jesus não escolhem a pobreza porque a pobreza, em si, é uma coisa boa; nem deixam as pessoas que amam pelo gosto de deixá-la. Quando os discípulos de Jesus renunciam a determinados valores (muitas vezes valores legítimos e importantes), é em vista de um bem maior – o seguimento de Jesus e o anúncio do Evangelho. Jesus confirma a validade desta opção e assegura aos discípulos que o caminho escolhido por eles não é um caminho de perda, de solidão, de morte, mas é um caminho de ganho, de comunhão, de vida.

 

A segunda leitura

 

A Carta aos Hebreus (4,12-13) é um sermão destinado as comunidades cristãs instaladas na monotonia e na mediocridade, que se deixaram contaminar pelo desânimo e começaram a ceder à sedução de certas doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos. O objetivo do autor deste "discurso" é estimular a vivência do compromisso cristão e levar as pessoas cristãs a viver uma fé mais coerente conforme o Evangelho.

 

O texto que nos é proposto é uma espécie de hino à Palavra de Deus. Jesus Cristo é Palavra viva e eficaz, Ele veio para todas as pessoas. O objetivo do autor, com esta reflexão, é levar as pessoas das comunidades cristãs a escutar atentamente a Palavra proposta por Jesus.
Esta Palavra é transformadora, penetra até a medula, e gera vida em quem a escuta e a vive.

 

Perguntas para refletir: Qual o lugar que a Palavra de Deus ocupa em minha vida? Sou capaz de encontrar tempo para escutar a Palavra de Deus? Estou disposta para estuda-la e partilhar, vontade de confrontar a minha vida com as suas exigências?

 

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