Martini: reencontrar a si mesmo

Carlos Martini | Foto: La Stampa

09 Outubro 2021

 

A 25 anos da sua primeira edição (1996), este precioso livro do cardeal Carlo Maria Martini – Ritrovare se stessi [Reencontrar a si mesmo], Ed. Terra Santa, 2021 – conserva intactos o seu frescor e a sua atualidade.

 

O comentário é de Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 02-10-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O saudoso biblista e sábio pastor da Diocese de Milão propõe ao leitor um caminho bíblico, espiritual e sapiencial que o toma pela mão com doçura e o acompanha a dar cada vez mais passos na conformação a Cristo Jesus, salvação e alegria do ser humano.

Os seis capítulos do livro são retirados das obras e cartas pastorais de Martini escritas até 1996 (a lista cronológica se encontra nas pp. 281-289). Alguns termos da linguagem civil e eclesial comum que apareceram nos últimos anos evidentemente não estão presentes (por exemplo, globalização, smartphone, Igreja em saída etc.), mas, nas palavras do autor, estão postas todas as premissas dos problemas de hoje e são delineados os cenários mais adequados para a sua dissolução. Deve-se levar em conta também que os textos bíblicos são apresentados, em geral, na tradução da CEI [Conferência Episcopal Italiana] de 1974 e não na atual de 2008 (em Lc 1,34, ainda se faz Maria dizer: “Como isso é possível?”, e não “Como isso acontecerá?”).

A proposta do autor é fascinante pela profundidade da análise psicológica, social, espiritual e eclesial. O que guia o pensamento é sempre a íntima união entre a presença de Cristo crucificado e ressuscitado na palavra de Deus e na eucaristia e a vida concreta do ser humano de hoje. Martini está convencido de que só a palavra de Deus, que culmina em Jesus crucificado e ressuscitado, pode iluminar o caminho do ser humano e desviar os seus passos de caminhos de divisão e de opressão para sendeiros de reconciliação, diálogo e fraternidade.

 

O amor de Deus pelo ser humano

 

O caminho proposto pelo autor parte da ênfase no amor de Deus pelo ser humano, ilustrado por várias perícopes – especialmente parábolas – presentes nos Evangelhos (pp. 7-44).

Em Marcos, encontra-se a iniciativa amorosa de Deus que perdoa, um Deus bom e fiel ao qual tudo é possível.

Em João, parte-se do Logos que é Jesus Cristo como luz, vida e revelador do Pai com vários símbolos, para chegar à segunda parte do Evangelho (capítulos 13-17), nos quais se encontra o sentido dos sinais precedentes. O ponto de chegada da disciplina espiritual proposta por João é chegar a ser amigo de Jesus. O Evangelho apresenta pelo menos seis retratos de amigos de Jesus, e cada um ilustra um aspecto da intimidade com o Verbo entre os seres humanos. Deus é Pai e, em Jesus, serve ao ser humano (cf. cap. 13). O serviço é divino, e não o comando, o poder, conclui Martini.

Lucas nos apresenta a misericórdia de Deus, especialmente com as parábolas dos perdidos e achados (cap. 15). É o Evangelho da graça, da dignidade humana.

Por fim, Martini destaca o primado de Deus na Igreja. A Igreja, portanto, deve partir sempre e novamente de Deus, fazendo-se corajosamente as perguntas últimas, reencontrando “a paixão pelas coisas que se veem, lendo-as na perspectiva do Mistério das coisas que não se veem” (p. 41).

Martini está convencido de que o Deus conosco pode nos ajudar a encontrar as verdadeiras razões para vivermos juntos. Recomeçar a partir de Deus significa para a Igreja encontrar sentido, impulso e motivações para correr riscos, para amar, para estar no coração de Deus para uma experiência de fé e de amor vividos. Significa “fazer-se peregrinos na direção d’Ele, abrindo-se ao dom da Palavra, deixando-se reconciliar e transformar pela graça” (p. 43).

 

MARTINI, Carlo Maria. Ritrovare se stessi. Milão: Terra Santa, 2021.

 

Escuta e oração

 

A escuta e a oração, temas do segundo capítulo do livro (pp. 45-84), são a resposta mais adequada ao Deus que fala. Hoje, precisamos de silêncio, de momentos de concentração, de escuta e de apelo a Deus com os vários aspectos da oração (cf. Maria de Betânia que se coloca aos pés de Jesus). Ela nasce em um nível natural como resposta que sobe imediatamente do coração do ser humano quando ele se defronta com a verdade do ser. Os momentos privilegiados de encontro com Deus são o recolhimento, mas também a dor e a provação.

A especificidade da oração cristã reside no fato de que ela parte de Jesus Cristo, da oração que ele ensinou, que tem por objetivo chegar a cumprir a vontade de Deus, para nos entregar nas suas mãos com confiança e amor.

O Pai-Nosso nos ensina como deve ser cada oração nossa: louvor, ação de graças, súplica e intercessão. Para que o Reino se realize, é preciso perseverar no hoje por meio do pão de cada dia, ter muita misericórdia e perdão recíproco, poder contar com o sustento de Deus para não ceder à tentação.

Martini explica os vários aspectos da lectio divina como a principal modalidade de relacionar a Escritura com a oração. Ele ressalta o momento da contemplação, em que se adora a pessoa de Jesus, que resume todos os valores, sintetiza-os, expressa-os em si e os revela. “Adoramos Jesus e amamos Jesus, oferecemo-nos a ele, pedimos perdão, louvamos a grandeza de Deus, intercedemos pela nossa pobreza ou pelo mundo, pelas pessoas, pela Igreja” (p. 66). A contemplação é o momento em que se dá espaço corporal ao Espírito Santo. Também pode ser chamada de “conversão”.

A consolação é a alegria profunda, íntima, que vem da união com Deus, a reverberação luminosa, alegre da comunhão com Ele.

O discernimento ou discretio é a capacidade de escolher, por conaturalidade interior, segundo e como Cristo.

Deliberatio é o ato interior com que o ser humano se decide pelas escolhas segundo Cristo e necessariamente desemboca na actio.

Esse é, enfim, o modo de viver e de agir segundo o Espírito de Cristo, de acolher totalmente dentro de si a consciência apostólica como realidade interiorizada não só com um ato de vontade, mas mediante o dinamismo da oração. A contemplação é importante. Sem ela, tudo se torna insípido, execução cansativa, voluntarismo, moralismo.

É preciso ler tendencialmente toda a Escritura, não por escolhas ou temas. Martini propõe uma lectio do Salmo 23. O Senhor é o pastor que leva a pastar em lugares seguros, mas também aquele que oferece convivialidade.

 

O pecado

 

O pano de fundo realista do caminho espiritual inclui a recordação do drama do pecado (cap. 3, pp. 85-124). A partir da leitura de Gn 3,9-15, o pecado emerge como rejeição do desígnio de Deus, distorcido pelo tentador. Há uma principalidade do pecado, difusa e onipresente, mas que não chega realmente às profundezas do ser humano. A principalidade da graça faz com que Deus se incline sobre o ser humano e o cure até o fim, reconstituindo o ser humano e o humano no seu íntimo.

Outras tipologias de pecado na Bíblia são o relato de Caim e Abel (tristeza da inveja, incapacidade de viver a fraternidade na diversidade reconciliada), o relato dos filhos de Deus e das filhas dos homens (esquecimento, perda e confusão das relações fundamentais homem-terra, homem-corpo, desatenção aos ritmos da existência), o relato da torre de Babel (ruptura da coordenada do temor de Deus, da sujeição do ser humano ao Senhor do céu e da terra, pretensão do ser humano de estar no centro de tudo, de não precisar de Deus, agindo por conta própria; para Martini, isso corresponde hoje à confusão cultural).

A Bíblia sublinha a vastidão do reino do mal (cf. Rm 7,14-19). Ele se expressa por meio dos pecados pessoais (cf. Rm 1,28-31), pecados estruturais e sociais (o “mundo” joanino, a situação conflituosa do mundo e da sua mentalidade), os pecados coletivos racionalizados, que se erguem como doutrina. São as ideologias, filosofias e desvios das religiões, filões culturais que chamam o mal de bem e o racionalizam.

Um grande pecado de ontem e de hoje é a idolatria. Na Bíblia, ela podia ocultar uma veneração religiosa, mas posta em deuses da natureza e da fecundidade, ou dirigida a um símbolo de Deus que se torna manipulável, dominável. Idolatria é adorar um Deus não vivo e imprevisível, restringi-lo em um conceito. O Deus da Bíblia está presente onde e como quer, age onde e como quer, ama o ser humano porque quer amá-lo e o salva do modo que ele sabe. Ídolos atuais que impedem o conhecimento do Deus vivo existem em nível pessoal (orgulho, ambição, pretensões humanas) e social (a raça, a cultura, o pensamento comum, as expectativas alheias, que escravizam). A idolatria no Novo Testamento se apresenta como adoração do sucesso, do gozo, do dinheiro e do poder a todo o custo. Da idolatria, nasce a desumanidade.

Um fato novo hoje é o crescimento desmedido do senso de liberdade, desancorada de toda forma de referência. A liberdade hoje é altamente manipulável. A idolatria hoje é a separação arbitrária entre liberdade e verdade para construir ideais absolutos, em uma linha ou outra, aos quais se sacrifica o equilíbrio delicado da existência criada.

Diante do mal, os Evangelhos nos apresentam Jesus que chora, principalmente por Jerusalém que não reconheceu o tempo da sua visita. Jesus não abandona o sonho de reunir os seres humanos e doa a si mesmo para vencer o mal, entrando dentro dele para fazer surgir o bem.

Jesus não muda o mundo e não o rejeita. Vence o mal com o bem, com a sua morte e ressurreição (cf. Fl 2,5-11). Em Jesus e com ele, é possível vencer o mal “para dele tirar o bem, vivendo o espírito das bem-aventuranças evangélicas e o mistério da cruz” (p. 123).

 

Reconciliação e conversão

 

A reconciliação e a conversão oferecem o caminho do pecado à vida divina oferecida por Jesus (cap. 4, pp. 125-172). O reconhecimento do próprio pecado marca o início da conversão interior. A interioridade é o lugar decisivo para o ser humano a caminho rumo à verdade, “é a capacidade de voltar a si mesmo, de compreender o sentido das ações realizadas e que se realizam, porque é só no íntimo que podem ser avaliadas e julgadas” (p. 125). Segundo Martini, a experiência atesta que existe um nexo indissociável entre a conversão do coração e a reconciliação social e política. Esta não pode existir se não se vive a primeira.

O autor faz uma bela análise do Miserere, um salmo de conforto e de clareza. Do reconhecimento de uma situação de pecado, passa-se à súplica e ao projeto para o futuro. Com uma iniciativa de amor e de misericórdia, Deus projeta a luz do seu projeto na escuridão do ser humano e, desse modo, o leva a descobrir a verdade de si mesmo em relação àquilo que ele é chamado a ser, àquilo que deveria ser, àquilo que pode se tornar com a sua graça.

 

 

O pecado é sempre contra Deus, mesmo que a ação má tenha envolvido outras pessoas e a sociedade.

Ao reconhecimento dos atos equivocados realizados, segue-se a dor pelos pecados. O arrependimento pode evitar os bloqueios e se dissolver ao ver em Deus não o juiz, mas a parte lesada. “A dor cristã nasce do encontro com Aquele que, ofendido em si mesmo e no seu amor pelo ser humano, oferece em troca um olhar de amizade” (p. 140).

O sacramento da reconciliação insere o pecador “em uma relação pessoal com Deus Pai, que nos enche de alegria e abre em nós a força do perdão” (p. 141).

Martini ilustra os três momentos da celebração do sacramento: confissão de louvor, de vida e de fé. A penitência, como sinal e expressão de conversão, pode ser indicada pelo próprio penitente, mas sempre na linha concreta dos aspectos vitais que precisam ser tratados e curados. Olhando para Zaqueu, percebe-se que o primeiro fruto do encontro penitencial é a alegria transbordante e a “penitência” que ele mesmo ilustra a Jesus e que ele aprova. É a sua penitência pessoal, histórica e precisa.

O episódio do homem rico mas dominado pelos seus muitos bens (Mc 10,17-22) e as invectivas de Jesus contra a hipocrisia em vista de uma religiosidade verdadeira (Mt 23,13-22) ilustram a necessidade da purificação do coração. “A verdadeira religiosidade sabe captar, acima de tudo, para além de tudo, no fundo de tudo, o mistério inefável do amor de Deus, a docíssima presença de um Deus que nos ama e que em tudo nos compreende, vem ao nosso encontro, nos estimula, nos sustenta, nos consola” (p. 158).

A poderosa força do perdão é ilustrada pelos episódios da cura do paralítico (Lc 5,17-26) e da mulher que entra na casa de Simão (Lc 7,36-50). Jesus leva a mulher à conversão não com repreensões, mas despertando nela a coragem, a energia, a liberdade de coração. A mulher é “uma imagem perfeita do homem e da mulher que percorrem o caminho da purificação e obtêm o perdão de Deus em um ato de amor e de transformação da sua existência” (p. 164).

Em vez disso, Jesus faz Simão reconhecer que a situação, na realidade de Deus e da sinceridade humana, é o oposto do que parecia a todos. Quem se comporta de uma maneira digna da situação verdadeira, real, humana é a mulher: foi ela quem entendeu e viveu essa realidade. A conversão cristã, como virada e mudança de rumo, de mentalidade e de horizontes, é interior, atual e discreta. Tem quatro rostos: é conversão religiosa, moral, intelectual e mística. Martini os ilustra relacionando-os respectivamente com Agostinho, Inácio de Loyola, Henry Newman e Teresa d’Ávila.

 

Cardeal Martini na procissão pelas ruas de Milão durante o encontro do Encontro "Homens e religiões" de 1993 (Foto: Acervo da Diocese de Milão)

 

O combate espiritual

 

O capítulo cinco é dedicado ao combate espiritual (pp. 173-226). Martini ilustra primeiro os caminhos do adversário, que mascara a verdade ao ser humano. Ele é o satan, o “adversário”. É a “inteligência do mal”. A Bíblia o chama de formas diferentes, que ilustram a sua ação multiforme de engano do ser humano, da sua humilhação e do seu afastamento em relação ao projeto de Deus. Ele é a serpente, o tentador, o inimigo, o homicida desde o início, o acusador ou o caluniador, o divisor e o mentiroso. Nem sempre satanás está pessoalmente presente nas várias realidades negativas. É uma complexa esfera do mal, pela qual satanás é responsável.

Os caminhos do mal hoje são as atitudes que desprezam o ser humano, deprimem-no, degradam-no, desencorajam-no com vários ceticismos e a alegria do mal alheio. Eles têm o rosto dos crimes, dos suicídios, dos vícios graves e da mútua supressão e oposição entre as pessoas.

 

 

As intenções do adversário são, acima de tudo, a de se apoderar do coração antes que das ações (cf. o episódio de Ananias e Safira em At 5,3). Isso também é demonstrado com Judas em Jo 13,2. Seguindo alguns códigos muito antigos e de autoridade, Martini prefere entender: “Quando o diabo já havia colocado no seu coração (isto é, no seu próprio coração) que Judas Iscariotes o traísse”. Jesus coloca no seu coração que vai passar ao Pai e quer amar os seus até o fim; satanás colocou no seu coração que Judas o traísse. O lava-pés se torna, desse modo, a luta entre Jesus e satanás para salvar Judas.

A acusação de Paulo (Saulo) contra o mago Elimas mostra o caminho do adversário contra o caminho de Deus: abalar os caminhos retos de Deus, distraindo o procônsul da fé (cf. At 13,9-10). Simão, o mago, em Atos 8,20-23, quer obter o Espírito Santo para ter o domínio sobre as coisas e sobre as pessoas, um poder que supera o das pessoas individualmente. Uma proposta diabólica como aquela oferecida por satanás a Jesus nas tentações (Lc 4,69).

O caminho do Evangelho, portanto, é uma luta de contraposição por sua própria natureza. Para Martini, exemplos da ação do adversário no tempo presente são a desunião no mundo e a incapacidade de comunicar. O maligno tende a dividir.

Toda a vida de Jesus foi tentação e luta contra o adversário, desde as tentações iniciais no deserto até às sobre a cruz (“desce, salva a ti mesmo...”). Jesus venceu com a força do Espírito e a oração. A Igreja propõe uma assimilação a Jesus no tempo da Quaresma, com a oração e o jejum (de comida, da língua, dos olhos ou das imagens).

A parábola do joio (Mt 13,24-30,37-43) ilustra a conflitualidade permanente da vida cristã, a ser vencida pela paciência, pela resistência e pela perseverança. O Novo Testamento é rico de exemplos e de termos que indicam a tentação e as provações que Jesus enfrentou: provações pessoais, familiares, políticas e sociais.

Martini sugere as modalidades para enfrentar o combate espiritual. Acima de tudo, é preciso acolher até o fim o discurso de Jesus sobre o reino de Deus como lógica divina; é a loucura da cruz que, por exemplo, Pedro custa a aceitar (cf. Mc 8,27-33; na p. 209, convém notar que a tradução atual da CEI 2008 já não diz mais “Vai para longe de mim, Satanás”, mas, com maior exatidão e profundidade, “Vai para trás de mim, Satanás”!).

A existência cristã exige uma disponibilidade completa do coração a Deus e ao ser humano, disponibilidade à escuta e ao amor, aceitando todas as consequências, até mesmo as do impasse e do insucesso. É a oferta da própria vida, deixando-se questionar como pessoa, e não só comprometendo-se com as lutas sociais.

 

 

O trecho de Ef 6,10-20 lembra com seis metáforas a armadura de quem luta, com várias alusões ao Antigo Testamento (Is 11,4.5; 52,7; 59,17; Sl 11): o cinturão da verdade; a couraça da justiça; os pés calçados com zelo vivo pelo Evangelho da paz; o escudo da fé, que interpreta toda a realidade à luz do Evangelho; aceitar o elmo da obra salvífica de Deus – o texto grego tem sōtērion e não sōtēria – como a única proteção para a cabeça, o mais essencial; a espada do Espírito que é a palavra de Deus (Is 11,4; Hb 4,12). Aqui, a referência é aos oráculos divinos (rhemata), que foram citados por Jesus em sua própria defesa no deserto. Além disso, é preciso uma oração muito intensa, que parte de Cristo e é movida pelo Espírito.

Martini que como nos encontramos em uma situação de risco, de luta implacável e total; só quem está armado totalmente poderá resistir, com o refinamento da oração que envolve os vários elementos da armadura e os restaura para a luta.

 

Cardeal Martini  (Foto: Jesuítas Itália)

 

A Páscoa de Cristo

 

O último capítulo do livro (cap. 6, pp. 227-280) ilustra a Páscoa de Cristo e o seu significado atual. A morte de Jesus é um fato histórico. O evento da ressurreição faz com que o cristianismo seja um evento, um fato, e não uma doutrina religiosa. A Páscoa, o mistério da morte e ressurreição de Jesus, é o coração da vida da Igreja, porque nos diz quem é Deus – o Deus amante da vida –, quem é Jesus Cristo – o Filho único do Pai e centro da história – e quem é o ser humano – todos os seres humanos chamados a ressurgir com Jesus, vencendo o drama da morte, para estar com ele para sempre. A Páscoa é o nó resolutivo, o eixo em torno do qual gira todo o plano de Deus referente ao ser humano e ao cosmos. É o centro ao qual tudo olha e a partir do qual tudo recomeça.

Martini ilustra as principais leituras que a Igreja propõe na liturgia durante a Semana Santa para viver a Páscoa. Jo 12,12-16 apresenta a entrada de Jesus em Jerusalém. O evento da Paixão, de fato, é uma vitória real, porque Jesus já venceu a morte e superou o seu medo. Existem expectativas culturais e sociais do povo, mas Jesus vive uma realeza humilde, não bélica, mas de serviço. Ele não se rende ao entusiasmo, mas se mostra como um homem livre, com liberdade soberana.

A seguir, o autor faz referência à leitura tirada do livro de Tobias, que ilustra o primado da consciência. O que melhora o ser humano de forma permanente deve passar pela convicção interior, pela consciência. Na Semana Santa, a Igreja educa a consciência do ser humano, convida-o a olhar para a consciência de Cristo, que é a mais alta realização da interioridade, da coerência de uma morte, da clareza dos fins, da amplitude da visão humana e divina dos destinos do ser humano.

A consciência de Jesus é límpida, leal, até ao sacrifício da vida. Nela, o mistério de Deus se traduz em linguagem humana de forma inequívoca.

Caifás, por sua vez, mostra uma consciência obscura (Jo 11,47-54), que coloca o dilema de uma vergonhosa chantagem (a nação ou um único homem, Jesus), com a lógica diabólica do conselho que leva a um beco sem saída, e para sair dele era preciso, no fim, ter a aparência de escolher o mal menor.

O falso dilema leva a uma falsa tese (se vocês matarem este homem, os romanos não virão...). O evangelista dá um salto teológico, definindo o seu conselho como profecia. O plano da providência corre paralelamente ao das contingências humanas, mas não prescindindo dele.

A morte de Jesus tem como objetivo reunir a humanidade em uma só. Em relação ao texto hebraico, Jr 38,8 LXX (TM 31,8) tem um acréscimo que conecta a reunião para a festa da Páscoa: “Eu os reúno desde as extremidades da terra na festa da páscoa”. Na morte de Jesus, expressa-se a dramática luta entre luz e trevas, vida e morte, unidade e divisão, vontade de comunhão e oposição total a essa vontade.

Na Última Ceia, Jesus suscita um gesto, um instrumento que implemente a eficácia universal da Páscoa, a sua força de reconciliação e de comunhão. A eucaristia, na qual Jesus mesmo está presente, torna perene em todos os tempos o sacrifício pascal de Jesus, abrindo à humanidade o acesso à vida sem fim. Mt 26,26-29 e 1Cor 11,23-26 narram o evento da sua instituição. A celebração da eucaristia faz memória do passado, é celebração do presente em que se realiza a nova aliança do ser humano com Deus no sangue de Jesus, é proclamação do futuro do ser humano e da humanidade, do fato de estar à mesa com Deus, de viver com Ele uma familiaridade imediata.

O mistério da eucaristia é o do sangue da aliança. Ela dá ao ser humano a força para se deixar atrair totalmente pelo movimento do amor misericordioso de Deus anunciado no Antigo Testamento, celebrado definitivamente na Páscoa e que culmina na plenitude da vinda definitiva de Jesus. Ele doa a si mesmo com um amor desmedido precisamente enquanto é traído.

A eucaristia não é doada a pessoas escolhidas, que chegaram à perfeição, mas a pecadores. Ela é para todas as pessoas, de todos os tempos. Na vida dos cristãos, a eucaristia faz com que Jesus chegue ao ser humano com a sua Páscoa, para que participe no seu dinamismo de amor pelos seres humano e pelo Pai. O alimento eucarístico configura ao longo do tempo um povo que expressa em nível social um sinal e uma preparação da unidade de todos os seres humanos em Cristo.

Na Sexta-Feira Santa, as leituras ilustram o sentido da morte de Jesus na cruz, à luz da misteriosa figura do servo de YHWH descrita em Is 53. Como ele, Jesus se confia ao Pai, torna-se sinal do amor de Deus por todos os seres humanos e o representante dos seres humanos perante Deus. Ele é solidário com todos os povos. Todo o mal se condensa na paixão de Jesus, mas ele o redime assumindo-o sobre si mesmo, detendo a morte que se torna o triunfo do amor de Deus.

Assim como o centurião romano, somos convidados a contemplar o crucificado, olhando Jesus nos olhos. Fixando o olhar no desamparo e na mansidão com que Jesus morre, o centurião intui o amor, a sublime majestade daquele que morre com amor e por amor, e expressa uma profissão de fé: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”.

A mensagem de Cristo crucificado é clara: Deus entra no mal com a carne do seu Filho Jesus. Jesus proclama o perdão e o retorno, sofrendo sobre si mesmo as consequências do mal, para redimi-lo na sua própria carne crucificada. É a lei da cruz: o mal é transformado em bem pelo exemplo e pela força da morte de Jesus. A cruz se torna a suprema lei do amor. Quem segue Jesus “deve entrar no mal do mundo para dele haurir o bem da fé, da esperança, da caridade, do amor aos inimigos. A lei da cruz é formidável”, afirma o autor (p. 262).

É o mistério do reino, é o mistério do Evangelho, não uma lei aceitável pela simples inteligência humana. “No coração do crucifixo, tudo o que é ‘não’ pode se tornar ‘sim’, e da traição pode nascer a amizade; da negação, o perdão; do ódio, o amor; da mentira, a verdade. Essa é a força de Jesus na cruz e a partir da cruz” (ibid.).

A nova ação de Deus no mundo se expressa na ressurreição de Jesus. A Igreja a proclama com um alegre grito de fé e de esperança: “Cristo ressuscitou!”. A partir daquele momento, a morte não terá mais nenhum poder. Toda realidade negativa foi engolida por um abismo de bem, toda morte tem o seu contrapeso de vida.

A ressurreição de Jesus é um evento histórico de significado cósmico, o início da transformação global do mundo. Um evento único que, ao mesmo tempo, revela uma expectativa constante e universal escrita no coração de cada ser humano, a da secreta premonição e de uma irredutível esperança na própria duração além da morte.

“No Ressuscitado – afirma Martini – é glorificado um fragmento de história, de cosmos, como sinal e início do destino do gênero humano e do cosmos inteiro, do homem e da mulher chamados a formar o grande corpo da humanidade ressuscitada em Cristo. A ressurreição de Jesus, portanto, tem o sentido de um definitivo ato de ‘ser salvo’ da existência humana, por obra de Deus e diante de todos” (pp. 265-266).

 

 

A Páscoa de Jesus não elimina todos os males presentes no mundo. Ele “não nos transfere automaticamente para o reino dos sonhos – escreve o autor –, ela nos alcança no coração para nos fazer percorrer com alegria e esperança aquele caminho de purificação e de autenticidade, de verificação do nosso comportamento, que tem como meta a certeza de uma vida que não morre mais” (p. 266).

 

 

Ninguém viu o evento da ressurreição, mas os Evangelhos relatam as histórias dos encontros pascais – denominados mais comumente como “aparições” – do Ressuscitado com os seus discípulos, começando por Maria de Magdala. Martini os comenta de modo amplo e profundo.

Em At 1, recorda-se o período de 40 dias em que Jesus se manifestou aos seus, e 1Cor 15,3-8 também recorda várias “aparições”. O texto grego lembra com três verbos expressados no aoristo pontual a morte, o sepultamento e a aparição de Jesus aos seus, enquanto expressa a sua ressurreição com o tempo do perfeito: é um evento que ocorreu no passado, mas que continua tendo os seus efeitos no presente (“ressuscitou... e permanece assim até hoje!”).

Jesus ressuscitado reconstitui “uma série de relações: com pessoas individuais, com grupos, com a multidão, doando a todos a capacidade de viver relações autênticas, de perdoar, de superar as conflitualidades presentes nas famílias, na sociedade, nas nações” (p. 269). Maria de Magdala é a imagem de uma sociedade afligida e perdida, mas que recebe a consciência de ser verdadeiramente conhecida por ele, na sua plenitude e dignidade profunda.

Cada pessoa pode fazer experiência do Ressuscitado, descobrir na interioridade o amor de Deus, o chamado a “se sentir chamados e restituídos à nossa identidade profunda, à nossa vocação de filhos de Deus” (p. 271) e a tomar decisões corajosas, honestas, desinteressadas. Desse modo, os homens e mulheres testemunham, ao menos implicitamente, algo além, que “guia toda ação honesta e desinteressada, fazendo-nos intuir que as contas que aqui não fecham no fim fecharão” (p. 272).

Essa força interior e essa esperança são um grito ao Ressuscitado, o antídoto contra a decadência social, moral, civil e política. Jesus ressuscitado “convida-nos a mudar o nosso modo de pensar e de ver, a aceitar que o amor de Deus dissolve o medo, que a graça perdoa o pecado, que a iniciativa de Deus vem antes de todo esforço humano e nos reanima, nos regenera interiormente” (ibid.).

O trecho do encontro de Jesus com os dois discípulos de Emaús (Lc 24,13-32) traz à tona quatro experiências humanas fundamentais: o caminhar, a hospitalidade, a fração do pão e a abertura dos olhos. Jesus explica o significado profundo das Escrituras, o desígnio de amor de Deus. Os olhos dos discípulos cegos pela falta de esperança se abrem e reconhecem em Jesus que Deus é seu amigo, que é seu Pai, que Jesus é seu irmão, que a fé é a chave para uma vida verdadeiramente humana. À luz das Escrituras e na partilha do bem do pão, Jesus explica o mistério do ser humano e da história.

Não se deve esquecer que o Ressuscitado é para sempre o Crucificado e está diante do Pai como aquele que passou por amor pela paixão e pela morte na cruz. Com a Páscoa, a vida de Deus se torna atual no presente. “A fé cristã afirma que a eternidade, a vida nova e definitiva já entrou com a Páscoa de Cristo na minha experiência, é vivida por mim aqui e agora na indestrutibilidade dos gestos que eu faço – de fidelidade, de paz, de amor, de perdão, de amizade, de honestidade, de liberdade responsável”, afirma Martini (pp. 278-279).

A ressurreição “é um fato pascal presente, que se realiza dia após dia naquele que crê e espera, que sofre e ama, que se deixa guiar pela Palavra no cotidiano para seguir Jesus, o qual, mediante a paixão e a morte, cumpre a passagem deste mundo ao Pai” (p. 279).

Um parágrafo do comentário sobre o trecho do Evangelho de Emaús me parece sintetizar bem muitos aspectos da mensagem geral que o autor quer transmitir com o seu livro.

“No geral, a aparição de Jesus aos dois discípulos nos lembra que o ser humano é um ser a caminho e necessitado de significado; que nesse caminho ele é chamado a reconhecer a palavra de Deus que o incita, o interpela continuamente na direção da sua viagem para lhe explicar o seu sentido; que a liberdade e a felicidade do ser humano consistem em acolher essa Palavra, em não rejeitá-la, em abrir os olhos e o coração ao desígnio de Deus que nos foi plenamente revelado no mistério do seu Filho Jesus morto e ressuscitado por nós, vivo e operante no meio de nós” (p. 277).

O livro do cardeal Martini se propõe ao coração do leitor como um itinerário espiritual e sapiencial que, à luz da Escritura, se torna um bálsamo de serenidade e de força para cada pessoa. A mensagem do autor, impregnada de sabedoria humana, bíblica e pastoral, ilumina e conforta a todos, impulsionando a uma vida responsável iluminada pelo amor previdente de Deus Pai, que em Jesus se comunica a quem o aceita, em vista de um caminho pessoal, eclesial e social sob a insígnia da comunhão e da fraternidade.

 

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