Vida e destino de Jesus de Nazaré

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05 Outubro 2021

 

"A pretensão do autor dentro de suas competências não é mostrar o “verdadeiro Jesus”, mas o “Jesus possível”, ou seja, “a pretensão de mostrar o verdadeiro Jesus deve ser deixada aos historiadores amadores e à literatura de fundo de quintal. Mostrar um Jesus possível, provável, verossímil mesmo, posso fazê-lo. Mostrar um Jesus cujo retrato foi minuciosamente controlada pela análise rigorosa das fontes é a minha intenção”. Conduzir uma pesquisa que não recua diante das respostas não vislumbradas ou não desejadas, eis o que pretendo fazer” (p. 11). Eis, porque o livro merece atenção e um cuidadoso estudo", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Vida e destino de Jesus de Nazaré, de Daniel Marguerat, (Vozes, 2021, 384 p.).

 

Eis o artigo.

 

Por que a figura de Jesus de Nazaré continua fascinando a humanidade, crentes ou não? Tudo, nestes dois milênios, já não foi dito, escrito, discutido, pregado a seu respeito? Por que este interesse vivo e jamais saciado por um homem que veio de Nazaré? Enquanto o cristianismo do século XXI se descobre cansado, sua figura fundadora atrai sempre mais a atenção dos historiadores, dos escritores, dos cineastas. O enigma Jesus ainda persiste...

 

Compreender melhor a razão pela qual a figura de Jesus continua fascinando a humanidade é o intento do livro: Vida e destino de Jesus de Nazaré (Vozes, 2021, 384 p.), de autoria de Daniel Marguerat. O referido autor é historiador e biblista, considerado um dos melhores especialistas atuais na pesquisa sobre o Jesus de Nazaré. Seus trabalhos sobre a origem do cristianismo lhe renderam notoriedade internacional. 

 

Imagem: Livro Vida e Destino de Jesus de Nazaré | Foto: Reprodução

 

Nesta obra dividida em três partes, Marguerat propõe ao leitor um retrato do Jesus da história, “minuciosamente controlado pela análise rigorosa das fontes” (p. 11), esclarecendo que “a pesquisa sobre o Jesus histórico é perigosa para a fé cristã, que o trabalho dos historiadores solapa inutilmente as bases de uma crença bimilenar. Seria isto verdadeiro? É incontestável que certos resultados da pesquisa histórica podem redirecionar o destino. Quando se constata que o homem de Nazaré nunca reivindicou os títulos (Messias, Filho de Deus) que os evangelhos lhe atribuem, uma luz de alerta já se acende. Quando ouvimos dizer que Jesus teve um mentor espiritual, uma linguagem tradicional se fende. Obviamente, o retrato que minhas pesquisas produzem não corresponde à imagética popular. Mas a busca do Jesus da história não é nefasta por definição. Ela confere mais profundidade à humanidade do Nazareno. Ela faz abandonar um Jesus ruminado para descobrir uma figura pouco conhecida, mais intrigante. Os resultados da pesquisa do historiador obrigam a revisar a memória das origens, mas não destroem esta memória” (p. 12).

 

A primeira parte do livro “Os primórdios” (p. 15-100), descreve as fontes documentárias à disposição: “além do Testamento de Flávio Josefo, existem setes fontes cristãs independentes: Paulo, Marcos, a Fonte das palavras (Q), a tradição M (Mateus), a tradição L (Lucas), João e Tomé” (p. 47), e explica como explorá-las (p. 17-47). Em seguida, o enigma do nascimento de Jesus é abordado, que, por sua vez, é acompanhado pela descrição da influência de seu mestre espiritual, João Batista (p. 48-100). Marguerat salienta que o exame das fontes documentárias permitiu alcançar com as mãos a antiguidade excepcional e a abundância de informações que nós dispomos sobre ele.

A teoria mítica do Jesus imaginário é uma fraude intelectual (p. 17-18). Em contrapartida, o imaginário cristão se entusiasmou quando consistiu em descrever seu nascimento e sua infância (p. 19-47). O mistério de sua origem expôs Jesus à condição frágil do filho mamzer, ou seja, um bastardo (p. 54), vindo ao mundo fora de uma união legalizada pela Torá (p. 48-58). Essa condição lançou uma luz singular sobre seu celibato e sobre a atenção por Ele devotada às categorias marginalizadas (como Ele mesmo a experimentou). Que o Filho sem pai só tenha chamado a Deus pelo nome de Pai não impressiona mais.

A fé de Jesus transfigurou a precariedade de sua condição (p. 58-76). Com a idade de trinta nos, um encontro provocou uma reviravolta em sua vida: o encontro com João Batista (p. 87-95). É por ocasião do batismo que Jesus, por uma visão mística, obtém a revelação de sua vocação. A pregação de conversão de João o converteu a afiliar-se a Ele, tornando-se seu discípulo e batizando em seu círculo. A prisão de seu mentor espiritual levou-o compreender sua própria obra de pregação, retomando inúmeros temas de João Batista, mas invertendo sua imagem de Deus: não mais o Deus da ira, mas o Deus que acolhe incondicionalmente (p. 95-100). Marguerat destaca que “Jesus não teria sido o que foi sem o encontro com João” (p. 98).

 

A segunda parte do livro A vida do Nazareno(p. 101-268),  declina a vida de Jesus de Nazaré até a sua morte. Considera-se o Jesus curandeiro (p. 103-124), poeta do Reino (p. 125-149) e mestre da sabedoria (p. 150-176). Mostra-se que a prática de cura lhe valeu um inegável sucesso popular, mas, sobretudo, Jesus considerava seus milagres uma ativação do Reino de Deus na terra (p. 115-124). Assim, o Jesus que cura inscreve a vitória de Deus sobre o mal no próprio corpo humano. Desta maneira, e de uma forma única em seu tempo, o Nazareno vê concretizar-se ao seu redor a presença do Reino de Deus (p. 125-134). Esta presença do Reino não encontra sua fonte numa opinião teológica de Jesus, mas em sua experiência de vida. É a razão pela qual as parábolas, das quais faz abundante uso, não devem ser confundidas com historietas morais; elas têm por função visualizar o Reino e fazer decifrar seus traços no mundo, permitindo assim que seus ouvintes façam a mesma experiência de Jesus (p. 134-147). As parábolas são uma espécie de manual de instrução sobre  o Reino (p. 147-149). Jesus também é descrito por Marguerat como poeta do Reino, Jesus foi um mestre de sabedoria; seu ensinamento fez implodir as normas razoáveis admitidas pelos rabinos e instalou um estado de emergência ao redor das necessidades de outrem (p. 160-173). É impressionante e imprescindível constatar que para Jesus o meio-termo não era uma opção. Sua redefinição de impureza, propriamente revolucionária, aponta para mesma direção: Ele se aproxima daqueles que a moral reprova, já que para Ele não representam uma ameaça de contaminação. Suas refeições, que, escandalizaram, são lugares de uma santidade compartilhada. Jesus faz-se circundar de um grupo de íntimos – os Doze prefigurando o Israel futuro, mas o grupo mais ampliado de seus adeptos engloba discípulas mulheres, das quais a tradição esqueceu parcialmente a memória (p. 173-176).

 

Aborda-se quem são seus amigos e seus concorrentes (p. 177-206), que consciência tinha de sua vocação (p. 207-232), e a razão pela qual Ele morreu em Jerusalém (p. 233-268). Segundo Marguerat, a questão, entre estas diferentes facetas do personagem Jesus, é discernir onde se encontra o centro da sua convicção e o que dá coerência ao seu agir tendo-se em conta que Jesus é um homem de seu tempo, surgido do meio do judaísmo palestino dos anos 20-30, e em que sentido Ele se revela singular e inimitável. Em relação, ao que pensava Jesus de sua vocação, quem era Ele aos seus próprios olhos, Marguerat destaca que perscrutando os textos com atenção permite dizê-lo: é praticamente certo que Jesus usou apenas o título “Filho do Homem”(p. 224-230) não para identificar-se com este enviado divino, mas porque esperava que ele validasse sua ação no julgamento último. As pessoas o saudavam como profeta, mas Ele se considerava “mais do que um profeta”, justamente por ter consciência de seu papel único de revelador de Deus (p. 212-224). A multidão o saudava como Messias, mas Ele não concordava com este titulo, já que impregnado de sabor nacionalista e violento. Após sua morte, os discípulos o compreenderam como Messias, mas diferentemente, ou seja, exatamente por uma fidelidade que comportava inclusive a morte, e de cruz. Desta forma surgiu a noção, desconhecida até, então, de um Messias sofredor. Jesus, por sua vez, nunca disse quem Ele era, apenas fez o que era (p. 230-232).

 

Em relação a sua morte, Margerat destaca que Ele morreu em Jerusalém, no final de um processo religioso seguido por um processo político (p 253-266). As razões de sua condenação não são evidentes. Teria sido condenado por blasfêmia, por ter-se declarado Messias? Pouco provável, já que o delito de messianidade não era capital à época.  Se este delito foi invocado, foi para apresentá-lo ao governador Pôncio Pilatos, pronto em reprimir qualquer desordem pública. Este, portanto, seria um motivo politicamente válido. O verdadeiro delito, no entanto, parece ter sido a injúria feita ao Templo, pelo gesto violento da expulsão dos mercadores, bloqueando assim as operações ligadas aos sacrifícios. Este gesto se inscrevia na lógica da redefinição da pureza: a presença de Deus junto a seu povo não se mistura às barreiras protecionistas que filtram umas e preservam outras. Deus faz-se presente a todos e a todas, sem discriminação (p. 243-246).

 

A terceira parte do livro “Jesus após Jesus” (p. 269-357) interessa-se pelo destino de Jesus de Nazaré, ou seja, como Jesus foi compreendido, recebido e interpretado. Marguerat examina como a crença na ressurreição levou a reler a vida de Jesus após sua morte; interrogando sobre a historicidade dos acontecimentos da Páscoa reserva algumas surpresas (p. 271-288). Por fim, na parte final do livro, o autor examina o destino de Jesus nos três grandes monoteísmos: cristianismo (p. 289-313), judaísmo (p. 314-337), islamismo (p. 338-357).

 

Nestas páginas Marguerat mostra que a primeira interpretação da vida e da morte de Jesus foi a fé em sua ressurreição. Foi através de experiências visionárias, um fenômeno paranormal, que seus amigos, mulheres e homens, receberam a convicção inesperada de que Jesus se solidarizou com o homem suspenso no madeiro. No entanto, a Páscoa não faz de Jesus um deus. É falso pensar que este “após” Jesus não tenha nada a ver com o seu “antes”, ou seja, a Páscoa não traz uma revelação estranha ao que Jesus era, mas sela a aprovação divina daquilo que Jesus foi e fez em vida.

 

Frente a isso, Marguerat salienta que a recepção de Jesus foi em seguida redesenhada pelos três grandes monoteísmos:

 

1) no cristianismo, os evangelhos extracanônicos constituem uma literatura abundante (p. 290-292). Eles emanam de correntes cristãs dissidentes, às vezes herdeiras de tradições não consideradas pelos evangelhos canônicos, mas frequentemente tornado crível sua doutrina através de ficções teológicas. As visões panorâmicas são diversas: sacralizar a mãe (p. 293-295), relatar a infância de Jesus (p. 295-298), fixar sua judeidade (p. 298-300), poupar-lhe a morte ou desenvolver uma sabedoria para iniciados (p. 300-308). Estes escritos testemunham a enorme diversidade do cristianismo e sua capacidade de produzir, a partir de uma matriz comum, sínteses culturais variadas (p. 308-313).

 

2) a recepção judaica de Jesus revela a história patética do ódio entre o cristianismo e o judaísmo ao longo dos séculos. Este destino tenebroso imprimiu sua marca sobre a maneira com que os judeus, expostos ao antissemitismo cristão, defenderam sua identidade religiosa (p. 314-317). Do século II ao século VIII, os rabinos falam pouco de Yeshu ou o taxam de rabino rebelde, desvirtuado (p. 317-328). Do século IX a meados do século XX, podemos falar sem medo de um período de chumbo: o Talmud é censurado pelos cristãos; a paródia do evangelho que são os Toledot Yeshu circula, às vezes por debaixo do pano (p. 329-334). O descongelamento intervém por volta de 1970, após o que os eruditos judeus se interessavam pelo Nazareno e investiram seu conhecimento do Talmud na leitura dos evangelhos (p. 334-337).

 

3) a recepção de Jesus no islã foi problemática: como imaginar, ao lado de Alá, outro ser divino? (p. 338-339). O islã nasce na Arábia do século VII, onde a figura de Jesus era largamente conhecida. Mas Maomé julga o cristianismo que tem debaixo de seus olhos, onde a adoração da Trindade passa por um triteísmo. O monoteísmo radical que o islã defende admite como profeta – aliás, um grande profeta, mas nega que Ele possa ser filho de Deus (p. 339-343). A herança das cristandades dissidentes orientais pode ser percebida nos relatos islâmicos do nascimento de Jesus, onde abundam os empréstimos dos evangelhos apócrifos (p. 343-347). Sua morte no madeiro é interpretada como um simulacro, à maneira (mas por razões diferentes), do cristianismo gnóstico (p. 347-350). Em última análise, Jesus é reformatado em profeta do islã, precursor de Maomé (p. 350-357).

 

Uma seleção bibliográfica conclui a obra (p. 365-379).

 

Estas informações em grande parte colhidas do Prefácio (p. 9-13) e do Epílogo (p. 359-363) permitem-nos situar diante do conteúdo desta valiosa obra.  A figura de Jesus ultrapassa todas as fronteiras e culturas. Ninguém consegue esgotar a riqueza que Ele irradia. “Inclassificável Jesus” (p. 363). O livro Vida e destino de Jesus de Nazaré de Daniel Marguerat traz grandes contribuições para o estudo do Jesus histórico. A questão hoje, segundo Marguerat “não é saber se Ele existiu, mas qual Jesus existiu” (p. 47). Bem documentado. O nível de informações é gigantesco.

 

A pretensão do autor dentro de suas competências não é mostrar o “verdadeiro Jesus”, mas o “Jesus possível”, ou seja, “a pretensão de mostrar o verdadeiro Jesus deve ser deixada aos historiadores amadores e à literatura de fundo de quintal. Mostrar um Jesus possível, provável, verossímil mesmo, posso fazê-lo. Mostrar um Jesus cujo retrato foi minuciosamente controlada pela análise rigorosa das fontes é a minha intenção”. Conduzir uma pesquisa que não recua diante das respostas não vislumbradas ou não desejadas, eis o que pretendo fazer” (p. 11). Eis, porque o livro merece atenção e um cuidadoso estudo.

 

Concordamos com o autor quando diz que “os resultados da pesquisa do historiador obrigam a revisar a memória das origens, mas não destroem esta memória” (p. 12), isso porque “o trabalho do historiador não asfixia a crença; ele participa de sua inteligência e de sua estruturação, e este trabalho que lhe presta é importante. O saber histórico sempre foi um antídoto intelectual contra os fundamentalismos” (p. 12). Diante disso, “voltar ao Jesus da história é uma tarefa permanente” (p. 363).

 

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