Benevolência, você disse “benevolência”? Entrevista com Thierry-Marie Courau

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02 Outubro 2021

 

Usado com frequência, esse termo acaba sendo banalizado, até mesmo corrompido. O que significa na tradição budista que o popularizou? Como a tradição cristã o expressa?

A entrevista é de Stéphanie Combe, publicada por La Vie, 23-09-2021. A tradução é de André Langer.

A benevolência invadiu nossos discursos: seus méritos são promovidos em campos tão diversos como a educação, a saúde, a gestão, a política, a justiça... Mas não se trata de uma indulgência vaga que visa melhorar nosso bem-estar e nossas relações. Então, a que exatamente estamos nos referindo e como desenvolvemos essa atitude que de fato tem o poder de mudar a vida? Entrevista com Thierry-Marie Courau, dominicano, teólogo-pesquisador do budismo na Igreja Católica.

 

Eis a entrevista.

 

Conhecedor do budismo, amigo de Matthieu Ricard, cujo eremitério o senhor visitou no Himalaia, como definiria a benevolência de acordo com essa tradição oriental?

A benevolência é um dos “Quatro Imensuráveis”, junto com a compaixão, a alegria e a equanimidade. É uma prática muito antiga de purificar a mente, o pensamento, para exercitá-lo. A benevolência (maitri, em sânscrito) tem a visão oposta da hostilidade e tem por objeto a felicidade do ser humano, o que permite reduzir e depois eliminar a animosidade em favor da aceitação do outro e de seu estado mental. A força do budismo é compreender que nosso cérebro e inteligência emocional são passíveis de serem modificados. Assim, é possível desenvolver a ternura para com os outros. Eu pratico começando por mim mesmo. A partir da minha própria aspiração à felicidade, desperto-a para os outros, de forma progressiva.

O que na Bíblia mais se aproxima e se refere ao termo “benevolência”?

As traduções do grego ou do hebraico fazem pouco uso desse termo. No entanto, essa ideia fundamental permeia toda a Bíblia: Deus só quer o bem para a sua criação. Ele “viu que era bom” (Gênesis). O Filho não vem para julgar, mas para salvar. Na fé cristã, Deus cria o homem para viver uma relação, em vista de escrever uma história com ele. Embora o homem se extravie, o Senhor permanece com ele, disponível e fiel para que, na sua liberdade, possa viver a vida que É e que lhe propõe para a sua felicidade. Talvez a noção que mais se aproxime seja a de “misericórdia”.

O que a abordagem budista dessa noção pode aportar aos cristãos?

O Dalai Lama aponta que os budistas podem aprender com os cristãos a caridade em ação e que os cristãos podem aprender com os budistas a contemplação benevolente. Há verdade nessas luzes que trazemos uns aos outros, em uma prática cada vez mais justa de nossa tradição religiosa. A compaixão budista, karuna em sânscrito, não é apenas um desejo de que o outro esteja livre de infortúnios: a raiz da palavra remete à ação. Mas a ênfase no exercício para liberar a mente pode ofuscar a importância do serviço imediato aos outros. Matthieu Ricard, um ocidental que se tornou budista na tradição tibetana, demonstra bem por meio de sua associação Karuna-Shechen, cujas realizações humanitárias no Himalaia beneficiam centenas de milhares de pessoas, a importância da coerência na prática espiritual.

O termo pode ter uma conotação um tanto melosa... Podemos articular benevolência e verdade, como Jesus quando expulsou os vendilhões do Templo, por exemplo?

É preciso articulá-las! A benevolência não é melosa; sendo assim, ela é só confusão. Ela oferece, não um pântano, mas pelo contrário um fundo sólido, um solo onde se apoiar, no qual o outro pode se apoiar para tomar apoio e se levantar.

Ao renunciar ao julgamento e à acusação, ela permite que o erro seja exposto. Todo homem tem uma consciência que pode ser esclarecida, mobilizada, mesmo que tenha sido enganada ou manipulada durante muito tempo. Ao expulsar os vendilhões, Jesus mostra que eles estão no caminho errado: o Templo é um lugar de oração, de cultivo da relação com Deus, com os outros, e não um lugar de abuso. A benevolência ilumina sendo taxativa, pois só o verdadeiro convive com o amor. Sua luz não destrutiva oferece ao outro a possibilidade de mudar, de se transformar. E isso tanto mais facilmente quanto ele não é obrigado a começar a pagar por sua culpa.

É a incrível força regeneradora da benevolência de ousar manter o paradoxo de que acolher o outro incondicionalmente o faz ver seu erro de ter tomado um caminho mortal, e assim reiniciá-lo em um caminho de vida. É este olhar que Jesus coloca em Pedro que acaba de negá-lo, no jovem rico, em cada um de nós...

O termo foi eleito a “palavra do ano” em 2018, acomodado em todos os molhos (comunicação, educação, administração), a ponto de esvaziá-lo de sua substância, a tal ponto que alguns o substituem pelo termo “gentileza”, por exemplo. O que o senhor acha?

Quando uma palavra é usada em demasia, usar outra pode, às vezes, fazer com que se retorne ao significado que está tentando buscar e dizer. O próprio termo “amor” é usado de forma abusiva: não pode ser um transbordamento de afeto confuso. É preciso recriar-lhe um universo semântico que faça sentido. A benevolência não é uma técnica de manipulação para obter a obediência de um filho ou de seu subordinado. É aquela preocupação desinteressada pelo verdadeiro bem dos outros.

O que as pesquisas de Matthieu Ricard sobre o altruísmo podem aportar aos cristãos?

Como pesquisador, Matthieu apoia-se em fontes científicas. Seu trabalho desperta a urgência de cuidar do nosso mundo, de todos os seres vivos. Estamos indo de encontro ao abismo! Em suas encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, o papa não diz outra coisa: já ultrapassamos os limites há muito tempo. Ambos gritam com urgência... com benevolência, sem afundar na acusação ou no julgamento dos culpados. Todos nos enganamos. Não podemos mais esperar para nos recuperar e construir a sociedade de amanhã. O que requer que façamos isso juntos.

 

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