A caminho da maturidade na experiência de Deus

Foto: Pexels

24 Setembro 2021

 

"Fundamentado em escritos de psicanáliseGarcia Rubio acena para o grave problema que significa o desejo não superado de fusão, que o bebê experimenta em relação à mãe e como, posteriormente, esta realidade pode incidir gravemente na relação com Deus", escreve Eliseu Wisniewski presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro "A caminho da maturidade na experiência de Deus" (Vozes, 2021, 208 p.).

 

Eis o artigo.

 

Estamos sempre a caminho para um pouco mais de maturidade. Reconhecendo que há diversos graus no processo humano de maturidade que, de fato, nunca é completo e acabado, é preciso ter consciência de que para viver a experiência do Deus cristão – algo de maturidade humana será indispensável. Isso, porque, a experiência de Deus está no centro da vida da pessoa religiosa. No caso cristão, trata-se do Deus da revelação bíblico-cristã, do Deus salvador-criador, do Deus revelado mediante Jesus Cristo. Entretanto, o que se observa, na vida das Igrejas, é a presença de grande número de pessoas que parecem estar enredadas nos estágios infantis da vida humana que o encontro pessoal com o Deus de Jesus Cristo acaba sendo, lamentavelmente obstaculizado ou até impedido.

 

Assim, um dos grandes desafios da pastoral eclesial está centrada na qualidade do serviço que somos chamados a concretizar, com coragem e criatividade, para ajudar a tantos cristãos na superação de uma situação infantil na fé, tornando possível a vivência mais adulta da fé cristã.

 

 

Este é o objetivo da obra: A caminho da maturidade na experiência de Deus (Vozes, 2021, 208 p.), de autoria de Alfonso Garcia Rubio. O referido autor é presbítero diocesano, nascido na Espanha em 1934 e radicado no Brasil desde 1959. Doutor em Teologia Sistemática pela Universidade Gregoriana, foi cofundador da Faculdade de Teologia da PUC-Rio em 1968. Seu labor teológico e sua pesquisa têm estado sempre vinculado ao trabalho pastoral, sobretudo em ambientes populares.

 

Capa do livro "A caminho da maturidade na experiência de Deus", de Alfonso Garcia Rubio (Foto: Editora Vozes)

 

O livro consta de cinco capítulos. Seu conteúdo está tomado, de cinco artigos que o autor publicou na Revista do Departamento de Teologia da PUC/Rio, Atualidade Teológica. Para a publicação desta obra foram feitas várias adaptações e complementações. Este livro apresenta alguns passos básicos do processo de maturidade na experiência do Deus cristão, em diálogo com a psicanálise e a psicologia profunda, assim:

 

 

a) No primeiro capítulo: Da “sombra” à verdade que liberta (p. 13-60), o autor salienta que o primeiro passo em vista da maturidade consiste em aceitarmos a realidade da sombra existente em cada um de nós e nas nossas comunidades. A ambiguidade do ser humano constitui o ponto de partida da reflexão apresentada neste capítulo. A ambiguidade afeta todos os seres humanos, também os cristãos, evidentemente.

 

A realidade da ambiguidade está presente também na história humana. E afeta as comunidades e as Igrejas. E, conforme a fé cristã, a ambiguidade só será superada totalmente na plenitude escatológica. Para ressaltar isso, o autor aborda sumariamente, no primeiro item do capítulo a seguinte questão: o século XX significou um passo avante ou uma regressão no processo de humanização? (p. 15-20).

 

No segundo item, busca se explicitar a necessidade de aplicar uma adequada hermenêutica na reflexão teológica, espiritual e pastoral (p. 20-28). Orientando-se pelas afirmações de autores da escola junguiana de psicologia profunda, o autor busca mostrar num terceiro momento aquilo que os defensores desta escola entendem com o termo sombra (p. 28-41).

 

No quarto item, situado no horizonte da reflexão bíblico-teológica, o autor mostra como é fácil perceber, na mensagem neotestamentária, a extrema gravidade com que é apresentada a mentira do ser humano. Junto com a mentira aparece a tendência da pessoa e do povo para se iludirem a respeito da própria realidade (p. 41-48). Por fim, no item quinto, sintetizando os itens anteriores, indicam-se alguns desafios, para a revisão pessoal e comunitária, suscitados pela ambiguidade da história pessoal e coletiva, e pela tendência própria do ser humano a iludir-se tanto a respeito da própria realidade pessoal quanto em relação à realidade das comunidades e da Igreja (p. 48-60).

 

O objetivo deste capítulo, portanto, é chamar a atenção sobre a poderosa tendência humana, existente também em nós cristãos, para a ilusão e a mentira a respeito de nós mesmos, das nossas comunidades e da Igreja. Olhar para essa realidade negativa não significa algum tipo de masoquismo, pois está, a serviço da conversão renovada, da novidade de vida em conformidade com Jesus Cristo e a serviço de um empenho evangelizador mais autêntico e coerente, fundamentado que está numa maior abertura à verdade. A realidade na sombra, presente em cada ser humano que, não sendo aceita e assumida, pode perturbar seriamente todo o processo de maturidade na fé.

 

 

b) no segundo capítulo: Superação do infantilismo religioso (p. 61-94), o autor busca mostrar que um segundo passo, indispensável, no processo de maturidade na experiência do Deus cristão consiste em superar a realidade do nosso narcisismo radical. Fundamentando-se nas reflexões do psicanalista e teólogo Carlos D. Morano, o qual articula os dados psicanalíticos com a reflexão teológico-pastoral, respeitando a especificidade dos dois campos de conhecimento, Garcia Rubio, lembra em primeiro lugar o quanto tem resultado difícil o diálogo entre psicanálise e teologia (p. 63-66).

 

Em seguida, procura focalizar como se apresenta o desejo de fusão e de onipotência que se manifesta nas duas primeiras fases da evolução psicoafetiva da criança, desejo que deverá ser superado para que o ser humano possa tornar-se realmente adulto (p. 66-72). Diante disso, levanta a questão da possível relação entre o infantilismo religioso (p. 72-77). O autor indica como se dá o enraizamento da experiência de Deus no desejo de fusão e de onipotência, ressaltando algumas características do encontro com o Deus da revelação bíblica que nos mostram até que ponto esse encontro supõe a superação do infantilismo psicoafetivo e religioso (p. 77-87). As conclusões deste capítulo assinalam algumas implicações teológico-pastorais decorrentes do tema (p. 88-94).

 

Em suma, neste capítulo, o autor, especifica a possível relação entre o infantilismo psicoafetivo e o infantilismo religioso, ressaltando que o grande desafio pastoral que se apresenta a situação existencial de muitos cristãos que parecem viver prisioneiros de uma religiosidade infantil. Fundamentado em escritos de psicanálise, Garcia Rubio acena para o grave problema que significa o desejo não superado de fusão, que o bebê experimenta em relação à mãe e como, posteriormente, esta realidade pode incidir gravemente na relação com Deus. Focaliza igualmente o desafio para a fé cristã que significa a falta de superação da relação ambivalente da criança com o pai, o que pode facilmente resultar numa relação deturpada com Deus.

 

c) no terceiro capítulo A fé cristã em Deus Pai e a crítica freudiana da religião (p. 95-136), o autor assinala que igualmente indispensável um terceiro passo em vista do processo de maturidade na experiência com o Deus cristão é a superação das relações infantis, a partir da experiência vivida por Jesus de Nazaré com o Deus Abbá. A reflexão proposta pelo autor chama atenção especial para a problemática que a relação com o pai suscita no trabalho pastoral. E, isto, porque, na experiência cristã a relação com Deus Pai é de fundamental importância. Centrado na qualidade humana (infantil ou adulta) da relação do cristão com Deus Pai, o autor lembra primeiramente a necessidade que a criança tem de superar o desejo de fusão com a totalidade representada pela mãe, bem como de superar a conflituosa e ambivalente relação com o pai, para poder ter acesso à vida adulta e a uma relação com Deus também adulta.

 

 

Para isso, Garcia Rubio analisa a repercussão desta problemática na relação com Deus inovado como Pai (p. 96-100). Num segundo momento, voltando a atenção para o Novo Testamento, especialmente para os evangelhos, o autor analisa a qualidade da relação vivida por Jesus com Deus, invocado como Abbá. Essa análise é feita levando em consideração a crítica freudiana da religião (p. 100-107). Em seguida, Garcia Rubio aborda o tema da nossa relação atual com Deus Pai, consciente das armadilhas que uma tal relação pode apresentar para a fé cristã (p. 107-120). Para ajudar no encontro adulto com Deus Pai, apresenta breves reflexões sobre a realidade tão original e desconcertante desse Deus que nos ama com total gratuidade e que por amor se fez pequeno (p. 120-128). Conclui apresentando alguns pontos básicos da reflexão que se relacionam mais diretamente com o labor do teólogo e com trabalho pastoral atual (p. 128-136).

 

Este capítulo, portanto, chama atenção para o fato de que junto com a superação da realidade do nosso narcisismo radical, é indispensável a superação das relações infantis com o pai. Com efeito, não basta superar esse primeiro narcisismo representado com a identificação com a mãe. Em um segundo estágio, mostra a psicanálise, o desejo de onipotência tende a ser projetado na figura do pai. Quando prisioneira deste estágio, a pessoa tende a ver Deus Pai de maneira acentuadamente conflitiva: de um lado, como legislador e juiz implacável, de outro, como protetor defensor, a serviço mais ou menos egoístas do cristão. A partir da experiência vivida por Jesus de Nazaré com o Deus-Abbá, é necessário descobrir a qualidade das relações com Deus, relações vividas na abertura ao futuro, de maneira responsável, na história concreta; no oposto da regressão infantil.

 

 

d) no quarto capítulo O desafio do mal: violência e a experiência cristã comunitária (p. 137-169), Garcia Rubio chama atenção para a dimensão comunitária como um aspecto fundamental para a maturidade da experiência do Deus cristão. Essa dimensão deve oferecer o clima adequado para a vivência da relação com esse Deus que em si mesmo é Relação. Para o processo de amadurecimento nessa experiência, o desenvolvimento de autênticas comunidades eclesiais, antropologicamente sadias.

 

Frente a isso, o autor recorda o fato de que a violência está presente em cada um de nós, examinando em seguida, os caminhos apresentados por três autores que, a partir de enfoques distintos, procuram uma resposta ao desafio da violência (p. 138-140). Os caminhos por eles apontados: Edgar Morin: a vivência da fraternidade (p. 140-143), Rene Girard: a reconciliação sem a vítima expiatória (p. 143-148); Adolphe Gesché: a defesa das vítimas (p. 148-151), encontram um lugar privilegiado de concretização na experiência comunitária sadia. Mas, por sua vez, esta experiência supõe, segundo Garcia Rubio que as pessoas que integram o viver comunitário vão desenvolvendo o processo que conduz à maturidade afetiva, vivida na subjetividade aberta (p. 151-157).

 

Como consequência, torna-se necessário explicitar em que consiste a especificidade da afetividade e da subjetividade humanas. Finalmente, depois dessa fundamentação é possível, dispor segundo o autor, dos elementos antropológicos para caracterizar a comunidade eclesial sadia: a comunicação pela sensibilidade, a comunicação de sentimentos sinceros de aprovação e desaprovação, a aceitação sincera da aprovação dos outros, a abertura e a aceitação do outro, enfrentamento dos conflitos, a abertura para a dimensão eucarística e pneumatológica (p. 157-169).

 

Neste capítulo, Garcia Rubio esclarece que o desafio atual da violência é ocasião oportuna para assimilar outro aspecto fundamental do processo de maturidade na experiência do Deus cristão: a dimensão comunitária. Uma experiência comunitária sadia oferece o clima adequado para a vivência da relação com esse Deus que em si mesmo é Relação, Trindade. E, por sua vez, a experiência comunitária cristã exige o desenvolvimento de uma subjetividade aberta, bem como, inseparavelmente, de certa maturidade afetiva. A vivência comunitária eclesial, quando é de fato, sinal e instrumento de Deus amor e da fraternidade humana, concreta, constitui uma resposta profunda ao desafio da violência e, ao mesmo tempo, oferece o ambiente necessário para o amadurecimento da experiência do Deus que é Comunidade.

 

 

e) no quinto capítulo Prioridade do perdão sobre a culpa (p. 170-200), o autor chama a atenção para a realidade da culpabilidade exacerbada, em certos ambientes cristãos, como um aspecto básico a ser encarado. Esse enfrentamento é indispensável, tendo-se em conta que é somente à luz e ao calor do amor de Deus que a pessoa, vai amadurecendo na experiência do Deus cristão, pois vive o reconhecimento do pecado e o caminho da conversão.

 

A partir dos estudos do historiador Jean Delumeau que mostra em sua pesquisa feita em seiscentos nos de história da Europa – desde o século XIII até o século XVIII, como foi se desenvolvendo uma culpabilização maciça em conexão com medo, Garcia Rubio salienta que a própria Igreja orientou a pastoral do medo, que obscureceu a imagem do Deus da salvação e do amor gratuito. Buscando esclarecer o fundamento e a difusão de um discurso culpabilizador e buscando redescobrir a mais autêntica mensagem cristã, Garcia Rubio procura entender neste capítulo, o porquê da pesada culpabilização experimentada por muitos cristãos (p. 172-178). Num segundo momento, o autor busca compreender o fenômeno da culpabilização utilizando alguns elementos tomados da psicanálise (p. 178-182). Finaliza, apontando para o significado cristão de um autêntico sentimento de culpa (p. 182-200).

 

Neste capítulo, Garcia Rubio esclarece que o sentimento de culpa pode ser doentio, quando, prisioneira do passado e de um narcisismo ferido, a pessoa fica fechada na própria culpa, de maneira estéril e autodestrutiva ou destrutiva dos outros. O sentimento de culpa na pessoa que vive o processo de amadurecimento na fé está aberto ao futuro a ser melhorado, pelo pedido de perdão, para a reparação do mal cometido, para a conversão. Na experiência do Deus cristão, o central é sempre a salvação oferecida com total gratuidade, é o amor e graça de Deus. O pecado e a culpa são vistos a partir da centralidade da salvação. Na experiência cristã, o fundamental, no ser humano, é a abertura para acolher o dom do amor incondicional do Deus-Ágape.

 

Este substancioso livro de Dr. Alfonso Garcia Rubio coloca-nos diante de um enorme desafio: rever a qualidade da própria fé e da qualidade de fé vivida em nossas comunidades eclesiais. Um caminho a ser percorrido. Os passos aí apontados constituem uma limpeza de terreno e estão a serviço do amadurecimento da experiência cristã de Deus. A obra ajudará o leitor nesse importantíssimo empreendimento.

 

 

No entanto, sejamos realistas: a temática aí abordada vai na contramão das tendências predominantes nas Igrejas, hoje. São poucos os que se interessam pelo aprofundamento da qualidade da própria fé, bem como pela qualidade de fé vivida pelas comunidades eclesiais. Uma onda de superficialidade parece varrer os recintos eclesiais. Parecem, de fato, predominar tendências espiritualistas desencarnadas, um emocionalismo que se esgota com rapidez e uma instrumentalização da fé. Poucos têm a coragem ou condições de pensar a própria fé e para rever a qualidade dessa fé. Uma reflexão teológica um pouco aprofundada assusta, ou, então é deixada de lado, como algo inútil.

 

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