O "nada" do Eclesiastes, em que tanto a vida como a morte não têm sentido

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14 Setembro 2021

 

"Como demonstra o belíssimo capítulo final: 'O desespero de Qoheleth é a iminência da morte sobre a consciência. Não é a morte em si'. Ou seja, diz respeito à nossa inelutável condição de 'ter que morrer', 'o tempo da vida à espera da morte'. E se então a incoerência do Qohelet não leva a lugar nenhum, nem à cosmogonia mítica dos antigos nem à teologia, eis que a 'nossa vida continua através dos sinais que deixamos'. Isto é, o 'direito de não passar em vão pela terra' que 'pertence à moral coletiva', não à lei. Para Zagrebelsky, é a única maneira de rejeitar a 'visão lúgubre da vida' do Qohelet", escreve Fabrizio D'Esposito, em comentário sobre o livro "Qohelet", do jurista italiano Gustavo Zagrebelsky (Ed. Il Molino, 2021), publicado por Il Fatto Quotidiano, 13-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O Qohelet sempre foi uma espécie de ímã enigmático que vai além da fé judaica ou cristã.

Qoheleh, ou seja, o Eclesiastes, o "Pregador", é um dos livros sapienciais do Antigo

Testamento e é atribuído a Salomão. No sentido de que o relato atribuído ao rei filho de Davi é uma ficção, um mero artifício.

A síntese extrema aforística do Qohelet é conhecida até bem demais, contida nos nove versículos iniciais da primeira parte. Para a série: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. E depois: (O que foi, isso é o que há de ser e o que se fez, isso se fará;) não há nada de novo debaixo do sol”. É um texto sobre o qual, nos últimos anos, se debruçaram o escritor Erri De Luca e o ex-presidente da Câmara Luciano Violante. E agora chega às livrarias Qohelet de Gustavo Zagrebelsky (Ed. Il Mulino, 161 páginas), ex-presidente do Tribunal Constitucional e professor emérito de Direito Constitucional da Universidade de Torino. Não é a primeira vez que o grande jurista aborda temas de fundo religioso, basta lembrar o Crucifixo ou a figura do traidor Judas.

O subtítulo de Qohelet é La domanda (A pergunta) e Zagrebelsky com a humildade própria dos estudiosos que se embrenham em outros campos especifica que suas "meditações" devem ser colocadas entre aquelas de um "leitor comum". Objetivamente, não é isso, e o ex-presidente da Consulta oferece-nos uma obra rica e original que leva a novas e profundas reflexões (inclusive políticas) sobre o Eclesiastes. A referência é ao texto da Bíblia de Diodati de 1641, a primeira tradução para a língua falada na época. O tema do Qohelet é o nada, seja que o homem usufrua (poder, sexo e comida) ou viva na tristeza e no desespero, está sempre destinado ao pó da morte, sem deixar rastros de si.

Indo além da questão da atribuição a Salomão, Zagrebelsky dá esta definição: “O Qohelet é um dilúvio de gotas de veneno expresso em frases curtas, cada uma completa em si; mas o arranjo de um discurso geral não existe; há a intenção de certificar de muitas maneiras, e muitas vezes inconsistentes, a falta de sentido geral da existência sob o signo da vaidade onipresente”. Com uma escrita muito clara e envolvente, o jurista analisa verso a verso o Qohelet através de três "camadas": a Terra, o homem e a morte. De forma superficial e banal, alguns diriam que a abordagem de Zagrebelsky é laica.

Banal, justamente. A chave do seu Qohelet é centralmente humana, portanto, decisiva para todos, crentes e não crentes. Como demonstra o belíssimo capítulo final: “O desespero de Qoheleth é a iminência da morte sobre a consciência. Não é a morte em si”. Ou seja, diz respeito à nossa inelutável condição de "ter que morrer", "o tempo da vida à espera da morte". E se então a incoerência do Qohelet não leva a lugar nenhum, nem à cosmogonia mítica dos antigos nem à teologia, eis que a “nossa vida continua através dos sinais que deixamos”. Isto é, o “direito de não passar em vão pela terra” que “pertence à moral coletiva”, não à lei. Para Zagrebelsky, é a única maneira de rejeitar a "visão lúgubre da vida" do Qohelet.

 

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