Notas sobre a ultradireita neoliberal. Artigo de Jorge Alemán

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14 Setembro 2021

 

“A nova ultradireita neoliberal é uma agenda, e não apenas esse ou aquele partido, é o dispositivo que foi inventado pela própria estrutura neoliberal que supervisiona as antigas direitas liberais e conservadoras”, escreve Jorge Alemán, psicanalista e escritor, em artigo publicado por Página/12, 12-09-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

I. Após a crise de legitimidade do capitalismo tardio, crise onde as tradições liberais e conservadoras se tornaram insuficientes para sustentar o desdobramento corporativo e financeiro da nova ordem do capital, o neoliberalismo emerge com diferentes níveis de intensidade, segundo a divisão geopolítica do mundo.

Suas primeiras máscaras epocais foram a “pós-modernidade” e a “globalização”, até que enfim o dispositivo neoliberal se revelou em sua potência. Não era uma mera estratégia econômica do capitalismo, mas uma mutação antropológica que agora pretendia afetar os seres humanos em sua existência singular.

II. Essa potência neoliberal foi se traduzindo nos seguintes traços: no colapso das instituições liberais, na divisão de poderes e no jogo político conflituoso das democracias para gradualmente ir sendo substituído por um projeto unificador e totalizante, cujo horizonte último era “o governo das almas”. Promover uma produção de subjetividades na medida para cumprir as exigências ilimitadas da reprodução do capital sob o modo neoliberal.

III. Nesse aspecto, o neoliberalismo é, vale o paradoxo, a primeira tentativa totalitária no interior das democracias, a aspiração de suturar a vida própria e intrasferível de cada um com as coerções e exigências, muitas vezes impossíveis de cumprir, da reprodução ilimitada do capital.

O significante “Liberdade” desempenha um papel determinante e está a serviço desse projeto de unificação totalizante. Liberdade é o nome que aparenta abrir para um espaço de possibilidades que, por sua vez, esteja mediado, impactado, formatado pela lógica do mercado.

De tal modo que, por um lado, a aparente abertura é um cancelamento e, por outro, atende à história do capitalismo no aperfeiçoamento dos diferentes modos de apropriação daquelas lutas que, em seu momento, apresentaram-se como alternativas ao sistema.

Por isso, no neoliberalismo a liberdade só é compatível com um aparelho psíquico absolutamente estressado, em tensão consigo mesmo e nunca à altura das obrigações que o poder fez as vidas singulares contraírem.

De tal modo que em concorrência com os outros e consigo mesmo e interpretando a sua própria existência como puro valor de troca, os sujeitos não encontram mais seu lugar em qualquer legado histórico, o termo liberdade serve para interferir e se interpor em relação aos legados e as heranças simbólicas, promovendo um novo modo de extensão do ódio.

Esse ódio irradia de um modo semelhante ao do vício às drogas. De fato, os aparelhos midiáticos o dosam calculadamente para o consumo diário. Ódio aos fracos, aos vulneráveis, às mulheres, ao próprio local de origem, ao estado quando ainda está interessado na coisa pública.

Tal ódio não substitui a lógica das argumentações políticas tradicionais somente quando estão em disputa, mas é um fator de coesão libidinal na vida da Massa. Nesse ponto, deve-se distinguir Massa, como conjunto homogêneo, de povo, que sempre constitui um desafio na articulação de diferenças em uma causa comum.

Os meios de comunicação no neoliberalismo são meios de formação de massas.

IV. O poder neoliberal deve necessariamente estar acompanhado de uma lógica ameaçadora que agora encerra a dialética oposição-situação, que sempre demanda um reconhecimento mútuo das posições em conflito. Esse reconhecimento mútuo precisa ir desaparecendo progressivamente em favor de um novo tipo de racismo e xenofobia que já não se dirige apenas aos estrangeiros ou imigrantes, agora, são os próprios movimentos nacionais e populares ou os da esquerda progressista que se busca apresentar como estranhos, intrusos. Nessa inclinação, encontramos um ponto de contato com os fascismos históricos: a acusação de comunismo ou populismo, conforme as diferentes geografias.

V. Nessa lógica ameaçadora, ocupa lugar e ganha forma a nova ultradireita neoliberal, que nunca se assume como tal, já que nem mesmo seus próprios agentes podem se reconhecer nela. A implantação de um totalitarismo na democracia, no qual um dos traços distintivos é a extensão de um darwinismo social mal sublimado, não precisa mais sequer ser dissimulado em suas propostas.

O nível de distorção ideológica é tão intenso que grandes setores da população em vez de decifrar um discurso, recebem uma ordem compulsiva que funciona como um automatismo próprio dos instrumentos tecnológicos. Essa ordem, em muitíssimos casos, vai contra os próprios interesses objetivos daqueles setores que apoiam o plano da ultradireita, uma vez que mais do que garantir o seu próprio projeto vital, estão buscando uma identificação que lhes permita ao menos se situar em certas coordenadas, em meio ao caos que o próprio neoliberalismo gerou.

VI. Por isso, a nova ultradireita neoliberal é uma agenda, e não apenas esse ou aquele partido, é o dispositivo que foi inventado pela própria estrutura neoliberal que supervisiona as antigas direitas liberais e conservadoras. Essa agenda corrói progressivamente os diferentes fundamentos da democracia republicana e constitui, ao menos tendencialmente, um impulso ao estado de exceção agora diferenciado dos golpes militares clássicos. É nesse ponto que o neoliberalismo contorna seu próprio impasse: construir um estado de exceção que preserve as formas da democracia.

VII. Os representantes da ultradireita neoliberal são circunstanciais e aleatórios, no entanto, ela não deve ser concebida como um fenômeno residual. Constitui a alavanca propulsora das novas direitas mundiais que precisam aumentar a extensão das redes de captura daquelas vidas submetidas em suas biografias a uma desvalorização interminável.

O fenômeno da pandemia demonstrou que alertar sobre uma possível catástrofe não apenas não a detém, mas que o rumo neoliberal é relançado em seu sistema de apropriação da mesma para ampliar suas múltiplas ramificações corporativas.

O pêndulo direita-ultradireita não foi inventado pelos atores políticos que o representam, mas por aqueles algoritmos do sistema que se definem pela exigência de formar, pela primeira vez, um sistema político, econômico e social estreitamente aliado à pulsão de morte. É nesse poder totalizante onde, paradoxalmente, reside sua fragilidade estrutural.

Não é possível ao neoliberalismo manipular a pulsão de morte do modo como sua estrutura o dispõe. Embora colabore com ela, não conta com o fato de haver nos sujeitos desejos que são os únicos capazes de organizar um itinerário simbólico à ineliminável pulsão de morte.

Em definitivo, a invocação sempre inadiável às políticas de emancipação está sempre amparada no desejo de que o Outro do capital não nos exproprie da relação singular de cada um com a morte, a sexualidade e a palavra.

Foi a pergunta de Freud no mal-estar da cultura: Quanta pulsão de morte desatada e desprendida de todas as formas simbólicas uma civilização pode suportar? Para as diferentes ultradireitas essa pergunta é inassimilável. Os diversos projetos populares que souberam defender a ética do cuidado em meio à pandemia são o testemunho de que o único freio a esse caótico governo das almas do neoliberalismo está na oposição feita pelo paciente tecido que une Luto-Memória e Desejo com Comunidade-Sociedade e Estado. Essa vinculação constitui um princípio civilizatório que o neoliberalismo pode tentar destruir, mas nunca dar origem.

 

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