Fé, pandemia e biopolítica: um debate entre Andrea Ponso e Andrea Grillo

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30 Agosto 2021

 

Em seu blog Come Se Non, 26-08-2021, o teólogo italiano Andrea Grillo escreve: “A reação à crise pandêmica, desde o início, levantou questões que podem ser consideradas muito interessantes do ponto de vista filosófico. Em particular, alguns aspectos do pensamento ‘biopolítico’ se sentiram diretamente envolvidos na ‘luta contra a pandemia’, em relação às liberdades individuais, ao possível despotismo público, à consideração da ‘vida’ que o distanciamento, a vacinação e também a adoção do ‘green pass’ [passaporte vacinal] puderam determinar. Parece-me justo distinguir entre as diversas posições e não misturar as coisas”.

Ele continua: “Neste caso, Andrea Ponso, no texto que me enviou, levanta algumas perguntas que retomam algumas analogias entre o debate sobre a pandemia e o debate sobre a liturgia. Publico o seu texto, que nasce de uma postagem deste blog no dia 11 de agosto, e acrescento algumas breves considerações minhas em resposta”.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

 

Uma reproposição e uma provocação biopolítica
(com referência à intervenção de Andrea Grillo, em seu blog, em 11 de agosto de 2021)

por Andrea Ponso

As contradições do nosso tempopandêmico”, como defende Grillo com razão, não são facilmente cômodas e acomodáveis. Mas, do meu ponto de vista, o cristianismo deve fazer as contas hoje com o tema da biopolítica, tanto em sentido positivo (como proteção e desenvolvimento harmonioso das várias formas de vida) quanto em sentido negativo (como perigo já em curso de uma redução do ser humano e da criação a mera vida nua sob a pressão informante do poder).

Mas não me parece que isso tenha sido feito: Grillo, nessa intervenção, intitula um parágrafo como “O limite de uma leitura ‘biopolítica’ da tradição”, mas me parece que esse limite não é mostrado. Ou o limite estaria somente em uma leitura imobilizada e museificada da tradição? Sobre isso, estamos perfeitamente de acordo, mas me parece que você não se centra muito na reflexão biopolítica.

A referência correta ao erro verdadeiramente pós-moderno do motu proprio sobre a liturgia de Bento XVI certamente não esgota o tema. Pelo contrário, parece-me que, paradoxalmente, ele está alinhado com uma visão “liberal” (e, de fato, também pós-moderna) em que as “formas” podem ser escolhidas livremente, uma vez que o núcleo duro do coração cristão permanece inalterado, como se se tratasse de uma série de conceitos e de posições doutrinais embalsamadas e não, justamente, de uma carne viva para se encontrar como novitas e evangelho em um sentido que, se não quisermos chamar de “biopolítico”, poderíamos chamá-lo de bioeclesial.

Desse modo, a aparente liberdade do corpo e dos gestos, do rito e do missal antigo, é sequestrada pelo conceito e pela doutrina: o corpo e a forma ritual, de fato, são tornados indiferentes, precisamente no momento em que se pensa que podem ser livres (e liberais?) ao escolher uma forma litúrgica ou outra.

E não se trata, talvez, da mesma “liberdade liberal” que subjaz à narrativa oficial sobre a Covid e sobre a obrigação (mascarada) da escolha vacinal? Um pensamento único, que está em evidente contradição com a verdadeira pesquisa científica no seu devir, oculto sob o verniz falsamente comunitário e fideísta do amor ao próximo e a si mesmo, disfarçado de “responsabilidade” desprovida de qualquer possibilidade de resposta e, portanto, dialógica e crítica?

Não permitimos, talvez, que aquilo que é justamente criticado no âmbito litúrgico e eclesial permanecesse aceito acriticamente na esfera do político e do social?

O cristianismo, poderíamos dizer, é desde sempre biopolítico, pois o seu eixo é a carne e a unidade psicossomática e espiritual do ser humano, entendida em sentido não dualista, histórico e escatológico ao mesmo tempo. O próprio Apocalipse, poderíamos dizer, apenas para dar um exemplo tão citado hoje despropositadamente, é um texto no fundo biopolítico, porque se relaciona criticamente com o poder, bem identificado com o do Império Romano.

Mas eu me pergunto: quantos dos teólogos e dos pensadores cristãos realmente enfrentaram as problemáticas inerentes ao paradigma biopolítico?

E naturalmente não me refiro apenas à obra de Foucault – a sua parte mais interessante hoje seria aquela desenvolvido no último período dos seus cursos, isto é, aquela relativa à relação entre verdade e instituição; há toda a questão da aceleração, das modalidades igualadoras e desumanizantes do algoritmo e da virtualidade generalizada, capazes de entrar no nosso sistema nervoso e inconsciente com uma potência tão silenciosa quanto devastadora, até mesmo do ponto de vista cognitivo das nossas escolhas e dos nossos modos de “pensar” e de agir – e penso, nesse sentido, no grande trabalho que vem sendo feito, por exemplo, por Bernard Stiegler; ou, ainda, a reflexão central sobre a relação entre comunidade e imunidade, entre humano e pós-humano... e muito, muito mais.

Falar de liberdade sem levar em conta essas variantes é viver em uma “espiritualização” tecnológica, em uma virtualização que, de fato, reduz o corpo e a sua unidade com o pensamento e o representar a objeto à mercê de forças tão discretas e profundas a ponto de se tornarem quase imperceptíveis.

Queremos realmente começar a pensar, analisar e ser solicitados criticamente por tudo isso, ou permaneceremos na questão simplista e reducionista da liberdade e do egoísmo entendida em sentido dualista? São perguntas que me parecem legítimas.

Fingir que a nossa sociedade é a de apenas 20 anos atrás é um erro de perspectiva que remove qualquer força profética como tentativa de intus-legere a complexidade do presente; significa negar a encarnação e, com ela, a história, a singularidade encarnada do ser humano, a possibilidade de uma fé como complexidade viva.

Significa, de fato, fingir ser uma “Igreja em saída”: pois só saímos fazendo as contas com aquilo que acontece, e não se protegendo com as teorias já deficientes ligadas a um tipo de democracia de rosto já quase totalmente mudado.

* * *

A teoria e a sua aplicação

por Andrea Grillo

Há tempos estou convencido da tese fundamental que Andrea Ponso coloca no centro da sua intervenção: o cristianismo deve fazer as contas abertamente com a “biopolítica”. Não posso ignorá-la. Porque uma definição de vida está no centro da fé e não suporta reduções, formalizações, essencializações, encobrimentos, atenção desproporcionais ou amputações indiretas.

Por isso, e isto também me parece plenamente justificado, o cristianismo tem um duplo interesse pela “biopolítica”: um positivo e outro negativo. Mas precisamente aqui, parece-me, no entrelaçamento entre esses dois lados da questão biopolítica, as reações de alguns filósofos italianos (mais recentemente, Agamben e Cacciari) parecem valorizar apenas uma “biopolítica negativa” e não também uma “biopolítica positiva”.

A luta contra a pandemia, se não for entendida apenas como uma espécie de desígnio para impor uma forma despótica de poder, exige também uma compreensão positiva. Certamente, as formas da comunicação dos dados e das prioridades conheceram formas seletivas e também forçações evidentes. Mas as boas razões para um “estado de emergência” dificilmente poderiam ser questionadas.

Poderíamos, por isso, nos perguntar: de que modo a vida se faz instituição e se protege das ameaças que a cercam? Essa pergunta não é simplesmente ideológica. E há uma contribuição positiva da “defesa da vida do contágio” que não necessariamente deve ser suspeita de “redução da vida”.

Evidentemente, isso não significa que os desafios aos quais estamos expostos sejam muito mais complexos e mais profundos do que uma simples “luta contra a pandemia”. Um ser humano “imune” ao vírus não está, por isso, já salvo. E todas as ameaças que Andrea Ponso bem sublinha no fim do seu texto são, efetivamente, questões decisivas, que não podem ser esquecidas sob a pressão da prioridade sanitária.

Este me parece ser o ponto saliente: uma urgência sanitária, sem sequestrar todas as nossas energias, merece uma consideração séria e não redutora. Por isso, parece-me justificada a analogia entre “estado de exceção sanitária” e “estado de exceção litúrgica”: em ambos os casos, deve-se voltar a uma normalidade.

Mas isso só será possível se, neste caso, não foi aplicada apenas uma biopolítica negativa, de modo apressado demais, perdendo muitos detalhes decisivos, que, como sempre, fazem a diferença entre leituras convincentes e leituras forçadas.

 

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