A dor invisível dos presbíteros

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21 Agosto 2021

 

"O livro chega como uma oportunidade de olharmos com mais atenção àquelas pessoas, que são como qualquer outra, mas que foram colocadas para servir os demais como irmãos e guias na caminhada para a vida", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro A dor invisível dos presbíteros, de Luciana Campos (Ed. Vozes, 2018, 88p.).

 

Eis o artigo.

 

Um fato cada vez mais preocupante. Nos últimos tempos, têm crescido notícias a respeito do sofrimento psíquico dos presbíteros. A título de exemplo: foi noticiado pela mídia que em novembro de 2016 três sacerdotes cometeram suicídio no Brasil. Um ano depois, em dezembro de 2017, foram três pastores evangélicos que tiraram a própria vida. Esses acontecimentos nos levam a refletir sobre o adoecimento emocional de líderes religiosos cristãos e abrem caminho para um campo de estudos junto a esse público.

Eis o propósito do livro: A dor invisível dos presbíteros (Vozes, 2018, 88 p.) de autoria de Dra. Luciana Campos. Diz a autora: “o desejo de fazê-lo tornou-se ação em novembro de 2016, quando num intervalo de um mês três jovens sacerdotes católicos se suicidaram em diferentes regiões do país, trazendo perplexidade aos fiéis. Diante das grandes tragédias, buscamos explicações. Passei a me perguntar por que estes três homens não procuraram ajuda. Qual seria a razão de não pedirem socorro?

Entrei no perfil de um deles na rede social. Eu estava enganada. Estava ali um pedido claro, contundente, sofrido. O padre em questão colocou uma fotografia sua quando criança e falava de sua agonia, que atravessava ‘noites traiçoeiras’ e que pensava em se render. Abaixo do post, dezenas de comentários. Alguns de solidariedade, mas a maior parte ignorando o pedido de ajuda e falando sobre a foto, o tempo de criança etc. Seriam as pessoas insensíveis, apáticas, desprovidas de empatia? Não mesmo. Embora pudesse parecer cruel o modo como ignoraram o explícito pedido de socorro, tenho a certeza de que a situação é bem mais complexa” (p. 69).

A referida autora é psicóloga e pedagoga. Possui mestrado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem especialização em Psicopedagogia, formação em Neuropsicologia, Terapia Cognitivo-comportamental e Hipnoterapia. Atua como psicóloga clínica em consultório, como psicóloga no Seminário São José de Niterói e professora de Ensino Superior no ISERJ/FAETEC. Portanto, a obra é fruto de longos anos de experiência em psicologia clínica e no acompanhamento de seminaristas, padres, irmãs religiosas e pastores evangélicos.

Campos ressalta que por vários anos trabalhando como psicóloga tanto no trabalho de atendimento individualizado como em grupo com padres católicos, religiosas e pastores evangélicos, guardadas as devidas proporções e particularidades de cada um, percebeu um traço comum entre eles. Algumas características são percebidas em seminaristas. Por isso, tem “dividido tais percepções de modo informal, em palestras e formações” (p. 16), e, disponibilizando assim para um público mais as suas percepções, resolveu “sistematizá-las neste livro, para favorecer a reflexão nesta área” (p. 16).

A autora propõe uma exposição dos desafios diários aos quais os líderes religiosos estão submetidos e que por vezes minam sua saúde física e mental. Diante disso, apresenta relatos realizados a partir de entrevistas e propõe caminhos para a prevenção do adoecimento laboral.

No primeiro capítulo intitulado: Variáveis psicológicas dos vocacionados para o serviço religioso (p. 17-26), a autora chama a atenção para o novo paradigma de escolha profissional esclarecendo que na atualidade esse processo caminha por três momentos: o autoconhecimento, o confronto com profissionais da área para a familiaridade com a profissão e a escolha propriamente dita (p. 17-18), permitindo que a pessoa desenvolva novas e diferentes habilidades ao longo da vida, podendo estar atrelado a mais de um fazer profissional ou mesmo migrando para outra área ao longo de sua trajetória/reorientação de carreira (p. 18).

Quanto aos chamados/inclinados à vida religiosa, Campos destaca que alguns testes na área psicológica reservam espaço para a inclinação na área religiosa e outros não. Diante disso, no trabalho com jovens que desejam integrar a vida religiosa é comum perceber características como: entrega, idealismo, fé, pureza, santidade, empatia (p. 19). A autora apresenta, por isso, algumas palavras sobre a personalidade dos religiosos/as (p. 21-26), destacando que ao longo de sua experiência percebeu que aqueles que se sentem inclinados ao serviço religioso costumam apresentar alguns esquemas em comum. Os esquemas podem ser divididos em cinco (5) domínios específicos:

1) domínio I- desconexão e rejeição: ligado às falhas de vinculação segura com o outro, de carinho, de estabilidade, da maternagem em geral, apresentando dificuldades no estabelecimento de vínculos e relações afetivas saudáveis;

2) domínio II – limites prejudicados: os pacientes que apresentam este esquema podem ser oriundos de famílias extremamente permissivo sendo o egoísmo a principal característica desses indivíduos;

3) domínio III – direcionamento para o outro: receberam afeto de modo condicional, ou seja, só recebia aprovação se apresentasse determinado comportamento, suprimindo sua livre expressão e comportando-se da maneira de receber aprovação de terceiros;

4) domínio IV – autonomia e desempenhos prejudicados: o indivíduo não consegue desenvolver um senso de confiança pela superproteção recebida;

5) domínio V - supervigilância e inibição: a educação repressora e rígida impede a pessoa de expressar suas emoções de maneira livre predominando atitudes de rigidez, autocontrole e pessimismo (p. 25-26).

A partir disso, a autora reflete sobre as variáveis de temperamento dos religiosos, que tendem a ser empatas, receptivos e direcionados ao outro e aos aspectos de seu caráter.

No segundo capítulo – O exercício pastoral e a solidão do presbítero (p. 27-50), a autora traz algumas palavras sobre a Síndrome de Burnout e a depressão: definições (p. 27), sintomas (p. 28), evolução/estágios da doença (p. 29-30). Campos demonstra que, para além da sintomatologia da síndrome em si, há variáveis individuais que são favoráveis ao aparecimento e incremento do quadro (p. 30). Os relatos de vida de religiosos católicos e evangélicos apresentados pela autora comprovam o que se disse anteriormente (p. 30-50). A autora, citando o psiquiatra Willian César Castilho Pereira, destaca que o sofrimento psíquico do religioso pode começar quando há a percepção da discrepância entre a realidade idealizada e a realidade de fato (p. 32).

No terceiro capítulo – Possíveis caminhos (p. 51- 66), a autora destaca que nas conferências sobre o adoecimento emocional dos religiosos, a demanda principal costuma ser pela busca de aconselhamento sobre como prevenir este quadro, caso este já tenha se instaurado. Busca, por isso, oferecer alguns caminhos preventivos para que os religiosos/as não entrem em sofrimento extremo (p. 53), no que diz respeito à alimentos e bebidas (p. 53-57), exercícios físicos e meditação (p. 58), psicoterapia (p. 58-61), ajuda médica (p. 61-62), desenvolvimento da assertividade e delegação de tarefas (p. 62-64), amizades (p. 64-66). Nos Anexos (p. 75-86), são oferecidos diversos testes como parâmetros para identificação do momento atual, não necessariamente como instrumento de diagnóstico decisivo (p. 53).

Concluindo (p. 67-70), a autora destaca que não é difícil encontrar nas Sagradas Escrituras homens e mulheres de fé que passaram por momentos de desânimo. É o caso de Jeremias, Habacuc, Elias (p. 67-68). Assim como os religiosos do passado acontece com os religiosos do presente. Defrontar-se de modo claro com a humanidade do padre ou do pastor, que muitas vezes é uma âncora para o fiel (p. 69), o conduz a um desamparo que torna mais fácil negar sua possível fragilidade. Por isso esta dor é tão pungente, por isso é tão grave, por isso é uma dor invisível (p. 70).

Dra. Luciana Campos lança luzes e confere visibilidade à humanidade dos religiosos e das religiosas. Concordamos com Pe. Douglas Alves Fontes (p. 9-11), quando diz que este livro apresentado num tripé muito pedagógico e funcional, é fruto do profissionalismo, da perspicácia e sensibilidade da autora. O livro chega como uma oportunidade de olharmos com mais atenção àquelas pessoas, que são como qualquer outra, mas que foram colocadas para servir os demais como irmãos e guias na caminhada para a vida.

 

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