20º Domingo do tempo Comum - Ano B - Solenidade da Assunção de Maria

13 Agosto 2021



"Visitar implica em sair, em dedicar tempo para o outro, em viver a gratuidade. Temos muitas formas de visitar o outro, de investir tempo para escutar, partilhar a vida, ser serviço. Deus nos visita ainda hoje através das pessoas, dos fatos, do cotidiano, e nos convida a ‘ser visita’, a também ser Boa Notícia como foi Maria para Isabel.

"A saída implica movimento, marcha, sair de si, ir ao encontro de quem precisa. É isso que o Papa Francisco nos pede hoje, “Sermos uma Igreja em saída”, sair da auto-referencialidade, sermos uma Igreja a caminho, uma igreja que escuta a necessidade. Assim Como nos convoca a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe. Preparando-nos para o sínodo estamos vivendo esta experiência: 'sermos uma Igreja da escuta'”.

 

A reflexão é de Salete Veronica Dal Mago, religiosa da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida - CIFA. Ela possui graduação em Teologia Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF (2000), mestrado em teologia sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS (2009), com o tema: "Espaços da Revelação Divina, segundo Andrés Torres Queiruga". Ela possui também Mestrado em teologia sistemática pela Pontifica Universitas Antonianum Facultas Theologiae, onde atualmente é doutoranda em teologia.

 

 

 

Leituras do Dia
1ª Leitura - Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab
Salmo - Sl 44(45),10bc.11.12ab.16 (R. 10b)
2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28
Evangelho - Lc 1,39-56


Antífona: Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher que tem o sol por manto, a luz sob os pés, e uma coroa de doze estrelas na cabeça.


PAZ E BEM a todas e todos.

 

Com alegria a Igreja celebra neste final de semana, no 20º Domingo do tempo Comum a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a glorificação de Maria. Elevada ao céu em corpo e alma, Maria prenuncia a plenitude da vida, que é estar inteiramente junto de Deus. Por isso, Maria, a Mãe de Cristo, a discípula fiel no seguimento de Jesus é modelo para todo o Cristão, de modo especial é modelo para a Vocação à Vida Religiosa Consagrada que celebramos neste final de semana, dentro do mês vocacional. A Vocação Religiosa (ser Irmã, ser Irmão) quer revelar pela vida, o quanto é possível viver intensamente aqui e agora a presença do Reino.


Maria, a mãe de Jesus, cuja festa celebramos, foi a aquela mulher que depois de Jesus, foi a primeira a ser glorificada em corpo e alma. Maria foi assumida, transformada, unificada nos céus. A festa da assunção de Maria é um sinal de vida, de alegria, de esperança, para todos nós, de que tudo em Deus será transformado, em Deus viveremos a plenitude do amor, a plenitude do bem.


A primeira leitura da liturgia deste domingo, do Livro do Apocalipse de São João, (Ap 11, 19a; 12, 1.3-6a. 10ab) nos fala da luta da mulher contra o dragão. A mulher, primeiramente associada à figura de Maria e depois o autor quis representar aqui a Igreja, que é por um lado gloriosa e triunfante e por outro, é uma Igreja perseguida. A Igreja que vive a promessa ‘da glória do Senhor nos céus’, também vive a ‘dinâmica da vida aqui na terra’, em meio a alegrias, a dificuldades e provações. A liturgia nos convida a viver a alegre esperança e nos garante a certeza da vitória do bem. O bem vence o mal, a amor vence o ódio, a luz vence as trevas, a esperança vence o medo.


No Evangelho deste final de semana temos o texto de Lucas 1, 39-56, onde contemplamos a Visita de Maria a Prima Isabel e em um segundo momento o grande Cântico de Maria, o MAGNIFICAT.

Como primeiro elemento importante deste Evangelho temos o encontro, a visita, de Maria à sua prima Isabel. “Maria sai apressadamente para a Montanha” (Lc 1, 39). Ela é impulsionada para visitar, porque antes viveu a experiência de ser visitada por Deus. O anjo lhe diz: “Alegra-te cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). E Isabel por sua vez, como nos diz o relato de Lucas, escutou aquela voz e soube reconhecer Maria como a nova Arca da Aliança que carregava a salvação dentro dela. E Lucas realça o detalhe de que “quando Isabel ouviu a saudação de Maria a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo”.


Visitar implica em sair, em dedicar tempo para o outro, em viver a gratuidade. Temos muitas formas de visitar o outro, de investir tempo para escutar, partilhar a vida, ser serviço. Deus nos visita ainda hoje através das pessoas, dos fatos, do cotidiano, e nos convida a ‘ser visita’, a também ser Boa Notícia como foi Maria para Isabel.


A saída, implica movimento, marcha, sair de si, ir ao encontro de quem precisa. É isso que o Papa Francisco nos pede hoje, “Sermos uma Igreja em saída”, sair da auto-referencialidade, sermos uma Igreja a caminho, uma igreja que escuta a necessidade. Assim Como nos convoca a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe. Preparando-nos para o sínodo estamos vivendo esta experiência: “sermos uma Igreja da escuta”.


Após o encontro de Maria com sua prima Isabel, de onde brotam gestos de proximidade, de palavra, de vida, de encontro na intensidade da acolhida e da vida partilhada, temos no relato de Lucas, o grande Cântico de Maria o “MAGNIFICAT”. Maria canta e experimenta a alegria do Deus que realiza nela grandes maravilhas – “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se exulta em Deus, meu salvador” (Lc 1, 46-47). Maria experimenta uma relação fecunda e profunda com Deus. O Magnificat resume a grande oração de Maria que é construída pela sua experiência de vida, uma oração que não é feita de fórmulas, mas da experiência do Deus que constrói a história da salvação na Vida de Maria.


Ao atribuir o poema a Maria, a comunidade de Lucas quer, entre outras coisas, afirmar, que a jovem mãe fazia parte do grupo dos ‘anawîn’, os “pobres de Javé”. Desde a época da destruição do país pela Babilônia, que aconteceu por volta do ano 587 a.C., o povo Israelita começa a esperar o restaurador do reino davídico, o Messias. Com o passar do tempo, vão se constituindo grupos com sua teologia própria, cada um esperando um messias que viesse satisfazer seus interesses. Começam assim a se formular compreensões diferentes da figura de ‘Messias’.


Os fariseus, por exemplo, aguardavam a chegada de um messias que viesse restaurar o reino davídico a partir da exigência do cumprimento total da Lei de Moisés.


Os zelotas, por sua vez, aguardavam um messias guerrilheiro que os expulsasse da dominação romana por meio de uma revolução armada.


Apesar dos poucos registros históricos, sabemos da existência de um outro grupo que se reunia para louvar ao Deus dos pobres, na espera de um messias que viesse do meio dos pobres, tal como havia profetizado Zacarias: “Eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso e humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta” (Zc 9,9). Trata-se dos anawîn, os pobres de Javé. Desse grupo faziam parte, provavelmente, Isabel e Zacarias, os pais de João Batista, pessoas justas diante de Deus (Lc 1,5-6); o justo e piedoso Simeão, que aguardava a consolação de Israel (Lc 2, 25); a profetiza Ana, com seus oitenta e quatro anos de sonho e esperança (Lc 2, 36-38); e Maria, com seu noivo José que também era justo, conforme Mt 1,19.


Mas, a principal fonte inspiradora do Magnificat é o Cântico de Ana, mulher estéril, por isso discriminada e humilhada. Assim diz o texto em I Samuel 1: “Na amargura de sua alma, ela orou a Deus (1 Sm 1,10.15). Mas Ana também sabe expressar a sua gratidão ao se tornar mãe de Samuel, ela assim se expressa: “eu o pedi a Javé” (1 Sm 1, 20). Muito sabiamente, o redator a ela atribui o poema presente em 1 Samuel 2, 1-10: O Cântico de Ana: “O meu coração exulta em Javé, a minha força se exalta em meu Deus... O arco dos poderosos é quebrado, os fracos são cingidos de força” (vv 1.4-5).


Entretanto, o Magnificat percorre vários livros do Primeiro Testamento, lembramos aqui o que Isaías havia dito: Transbordo de alegria em Javé, a minha alma se regozija no meu Deus, porque ele me vestiu com vestes de salvação, cobriu-me com um manto de justiça. (Is 61,10).


Olhando para este texto bíblico de Lucas temos aqui a atuação de Maria e Isabel. Importantes mulheres que, como Maria, têm pressa quando é preciso expressar a solidariedade e por isso enfrenta as dificuldades, enfrenta a montanha. Que sabe cantar com a alma, “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus meu Salvador ”(Lc 1,46). Mulher que sabe sentir que está grávida do novo, da liberdade, que são geradoras de Vida, esta vida que lhes salta no ventre como exclama Isabel: “ Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,44). 

 

Este é o Cântico de Maria, é o canto de todos nós, é o canto das comunidades que não se entregam diante das dificuldades, que cantam as maravilhas de Deus que age na história, comunidades que sabem caminhar com esperança porque Deus caminha conosco, Ele é o DEUS da VIDA.


Em Maria, vemos o modelo do nosso ‘fim último’, o modelo também para aquelas e aqueles que seguem o Mestre mais de perto como hoje recordamos a Vida Consagrada. Testemunho de pessoas que como Maria, assumem o projeto de Deus e buscam contribuir para um ‘projeto de vida e de vida em abundância para todos’ como fez Jesus (Jo 10,10).


Aqui deixo alguns questionamentos para todos nós que vivemos a fé em comunidade a fim de nos ajudar a aprofundar ainda mais nossa reflexão:


Cada dia que passa estamos todos nós, mais perto da eternidade. Que esta Solenidade da Assunção de Maria nos anime na fé e nos comprometa a vivermos a fé cristã na defesa e cuidado da vida humana e da vida no planeta.


Irmãs e irmãos unamo-nos com todo o coração a este cântico de Maria, cântico de vitória, de luta e de alegria, que une a terra com o Céu, que une a nossa história com a eternidade para a qual caminhamos. Que a Trindade Santa nos abençoe e nos proteja.

 

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