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10 Agosto 2021

 

"Há 40 anos os cientistas vêm pedindo, com crescente tom de alarme, que se implementem os recursos tecnológicos, sociais e organizacionais de que dispomos e que poderiam evitar o desastre que está se manifestando. E há 40 anos, um muro de resistências e desinformação retarda a mudança. A tendência já era clara em 1988, na época do primeiro relatório do IPCC. Desde então, apenas nos Estados Unidos, a lista de presidentes que negaram os riscos climáticos é constrangedoramente longa", escreve Antonio Cianciullo, em artigo publicado por Huffington Post, 09-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

As primeiras denúncias datam do início dos anos 1980. O sexto relatório do IPCC mostra que o risco já é inaceitável.

Atenas, um vasto incêndio queima a área de Drossopigi, Varybobi, um subúrbio do nordeste de Atenas, alimentado por altas temperaturas e ventos quentes.

"Os líderes raramente são recompensados pelo que fazem para evitar os desastres - porque o não acontecimento de um desastre raramente é um motivo de celebrações e gratidão - e mais frequentemente são criticados pelos incômodos que as medidas preventivas impõem”. Mais do que na climatologia, é nesta passagem de Doom: The Politics of Catastrophe (Ruína, as políticas da catástrofe, em tradução livre), o livro de Niall Ferguson sobre os reflexos retardados na reação às crises do covid-19 e ambientais, que deve ser buscada uma explicação para o quadro apresentado pelo sexto relatório do IPCC.

De fato, a análise científica serve para mostrar os fatos, mas não basta para explicá-los porque a verdadeira anomalia que emerge do impasse climático diz respeito aos ecossistemas políticos, que se mostraram incapazes de reagir, não aqueles físicos, que reagiram em maneira tão previsível que chega muito perto da hipótese formulada pela primeira vez em 1896 pelo cientista sueco Svante Arrhenius: um aumento de 5 graus na temperatura com a duplicação da concentração de CO2 na atmosfera.

Errar é humano, e a humanidade tinha ótimas razões no início do século XIX para abraçar com entusiasmo a revolução industrial alimentada pelos combustíveis fósseis. Durante milênios o cansaço físico foi um pesadelo que castigou o corpo e desanimou o espírito, hoje basta apertar um botão para obter um dócil concentrado de energia. Por milênios, chegar aos 40 anos era uma sorte reservada a poucos; hoje, na Itália, a idade média ultrapassa os 80 anos.

Portanto, os combustíveis fósseis foram proveitosos para nós. E o desequilíbrio que produzimos usando-os pode ser enfrentado como quando descobrimos que os CFCs, os gases também usados em latas de spray, estavam acabando com o ozônio estratosférico que protege a vida na Terra: encontramos substitutos e os CFCs foram banidos em pouco mais de uma década desde o momento do primeiro alarme.

Hoje existem motivos igualmente válidos para passar do sistema de energia fóssil - muito concentrado, vertical, hierárquico e letal para a estabilidade climática - para um sistema mais fluido, horizontal, difundido, baseado no aumento da eficiência, nas fontes renováveis, na economia circular. É o salto tecnológico que a Europa lançou com o green deal e com a zeragem líquida de emissões de gases de efeito estufa prevista até 2050. Uma perspectiva que permite não só manter os benefícios obtidos até agora, mas ampliá-los e distribuí-los melhor, evitando que a crise climática faça com que nosso nível atual de bem-estar entre em colapso.

Portanto, o tema central hoje não é tanto o detalhamento da análise climatológica, que é útil e necessária, mas que já atingiu um bom nível, quanto a compreensão dos mecanismos que levaram à sabotagem do tratamento da atmosfera. Por que não interviemos quando havia tempo para minimizar os danos? Por que não agimos agora que ainda há tempo para reduzi-los?

40 anos os cientistas vêm pedindo, com crescente tom de alarme, que se implementem os recursos tecnológicos, sociais e organizacionais de que dispomos e que poderiam evitar o desastre que está se manifestando. E há 40 anos, um muro de resistências e desinformação retarda a mudança. A tendência já era clara em 1988, na época do primeiro relatório do IPCC. Desde então, apenas nos Estados Unidos, a lista de presidentes que negaram os riscos climáticos é constrangedoramente longa.

Hoje chegamos ao sexto relatório do IPCC. Enquanto isso, cada década quebrou os recordes de calor da década anterior. Os incêndios não só devastam florestas e campos, mas também assaltam as áreas urbanas. Os granizos do tamanho de balas, que na época do filme O dia depois de amanhã faziam parte do imaginário hollywoodiano da catástrofe climática, entraram no noticiário como fato concreto. Os oceanos se aquecem e aumentam o poder dos furacões com sua energia.

Tudo isso, explica o sexto relatório do IPCC, é a nova normalidade. Um problema sério que exige a revisão dos critérios de segurança em muitos aspectos de nossa vida cotidiana: desde atravessar uma passagem subterrânea, que pode se tornar uma armadilha mortal durante uma enchente relâmpago, até construir infraestrutura em terrenos que antes poderiam ser considerados confiáveis e agora não são mais.

Este aumento da insegurança climática será irreversível por muitas gerações. Mas, se interviermos imediatamente, podemos evitar que a situação piore. Se, por outro lado, não interviermos, explicam os cientistas da ONU, iremos diretamente para um aumento de temperatura que tornará inabitáveis áreas inteiras do planeta, desestabilizando outras. O quadro científico é claro. Aquele político não.

 

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