Ministério diaconal: história e teologia

Foto: Cathopic

10 Agosto 2021

 

"Num tempo de crise de identidade e de espiritualidade, Dr. Luciano Rocha deixa claro que o diácono é chamado a ser sinal do 'Cristo Servo' e da 'Igreja serva'. Assim a missão e a função do diácono não devem ser avaliadas por critérios meramente pragmáticos, especialmente como “solução” para a escassez numérica de sacerdotes", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Ministério diaconal: história e teologia (Paulus, 2020, 378p.) de autoria de Luciano Rocha.

 

Eis o artigo.

 

Luciano Rocha exerce o ministério diaconal na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro – RJ. Doutor e mestre em História (UERJ), com pós-doutorado em História (UFF) e em Teologia (PUC-Rio). É autor do livro: Ministério diaconal: história e teologia (Paulus, 2020, 378 p.). Pretende apontar alguns caminhos de reflexão sobre o diaconado em sua formação histórica e identidade teológica. Como historiador, o autor está convencido de que não é possível conhecer o presente, sem um olhar minucioso sobre o passado, tendo-se em consideração que o presente só é inteligível à luz do passado. Diante disso, o referido autor compara o presente como a “ponta do iceberg”. O iceberg é muito maior do que aquilo que dá a conhecer. O que vemos é apenas uma parte de seu volume. É preciso mergulhar nas águas profundas do tempo para descobrir o que sustenta aquilo que vemos.

 

A primeira parte deste trabalho (p. 15-163) composta de cinco (5) capítulos tem um caráter histórico. Busca compreender o diaconado no tempo para lançar luzes no ministério diaconal de hoje.

 

No primeiro capítulo – Os primeiros diáconos e sua missão (p. 15-41), Rocha propõe-se a refletir sobre o munus docendi confiado ao diácono, tomando como estudo de caso a missão dos Sete, pontuando sua importância no processo de expansão do cristianismo a partir de uma nova mentalidade missionária: coube aos Sete uma missão urbana, que moveu o cristianismo da Palestina para o mundo greco-romano. O autor mostra neste capítulo como o ministério dos Sete, sua diaconia (serviço) e de seus continuadores (p. 18-23), foram fundamentais para a expansão do cristianismo, como iniciadores da missão fora de Jerusalém. Além disso, abriram caminho para uma nova práxis missionária que não levava em consideração elementos judaizantes (p. 23-32). A diaconia aplicada por eles foi progressivamente se estabelecendo e se afirmando como missão eclesial. Alguns dos paradigmas cristãos fundamentais que iram influenciar o cristianismo em sua mensagem universal, são fruto da reflexão teológica que os Sete e seus discípulos desenvolveram e aplicaram. Estes representam uma ponte entre os ensinamentos de Jesus e a teologia, que mais tarde, Paulo sofisticará (p. 32-41).

 

No segundo capítulo – Ordenado para o serviço do bispo (p. 43-74), objetiva-se apresentar e analisar a história de proximidade e de afinidade pastoral, onde o ministério diaconal encontra seu modo de ser no serviço ao epíscopo. Partindo da afirmação de Hipólito de Roma: “o diácono não é ordenado para o sacerdócio, mas para o serviço do epíscopo”, remete-se a duas características importantes sobre o ministério diaconal. A primeira é que ele não é uma etapa ao ministério presbiteral. Constituí uma vocação específica na Igreja, com contornos e atributos próprios. A segunda característica refere-se à sua missão específica: servir ao bispo. Como ministério apostólico, sua função como mediador da Palavra, da liturgia e da caridade é expressão desta relação pastoral que faz a mediação entre o bispo e a comunidade (p. 45). Fazendo conhecer que nos séculos I e II se dão o desenvolvimento e estabilização do diaconado (p. 46 -64), nos séculos III-V o apogeu e ressignificação (p. 64-74), o autor destaca que se, no século I, seu caráter evangelizador é acentuado, logo o veremos como assistente do epíscopo na celebração eucarística e como administrador dos bens destinados aos pobres. Os diáconos nasceram para servir aos apóstolos junto aos helenistas. Com o desenvolvimento da Igreja, serão vistos como servidores dos epíscopos junto às diversas comunidades. Há uma relação entre aquele que é o magister, o mestre, o epíscopo, e o minister, o servidor, o diácono. O magister é o mestre, o maior e, por isso, a palavra magisterium expressa domínio, comando e/ou autoridade. O minister é o menor, o servo, aquele que está a serviço do magister. São termos etimologicamente distintos, porém, relacionando, assim como são o episcopado e o diaconado, ambos serviços eclesiais de origem apostólica (p. 46).

 

 

No terceiro capítulo – O diaconado e seu desaparecimento no Ocidente (p. 75-97), o autor aponta alguns caminhos de reflexão sobre o ministério diaconal em sua formação histórica e construção identitária nos primeiros séculos cristãos, tendo como ponto de ancoragem a reflexão que os primeiros padres fizeram deste ministério (p. 78-95). Mais especificamente Rocha busca identificar as razões para seu desaparecimento na Igreja latina, entendendo como um fenômeno próprio e particular, uma vez que as Igrejas orientais não conheceram tal interrupção (p. 95-97). Por hipótese de seu desaparecimento, o autor, considera o espírito de sacerdotização, que se difundiu após o fim das perseguições no Império Romano, tendo por efeito, a curto e médio prazos, a absorção do diaconado tanto pelo presbiterado, como pelo episcopado (p. 78).

 

No quarto capítulo – O ministério das diaconisas (p. 99-126), o autor propõe uma reflexão sobre o ministério das diaconisas e suas atribuições, a fim de identificar sua emergência e sujeitos históricos, conhecer as diversas razões de seu declínio e desaparecimento. Partindo da Sagrada Escritura, Rocha mostra que o ministério das diaconisas existiu na Igreja (p. 102-107). A diaconia espontânea de diversas mulheres nas Sagradas Escrituras e a documentação eclesial que atribui o ministério ou titulo de diaconisa a esposas, viúvas (p. 107-112), virgens consagradas e, posteriormente, monjas (p. 111-118) apontam sua existência. No entanto, Rocha destaca que o problema em torno das diaconisas não está circunscrito à sua existência, mas ao seu ofício e ao lugar que ocupavam na Igreja. Eis os questionamentos? Constituíam um ministério ordenado? Desempenhavam as mesmas funções dos diáconos? (p. 120-126). O autor diz ser está uma questão complexa e bastante sensível. A priori, o fato das diaconisas estarem sendo estudadas, como todos sabem, não implica mudanças (p. 126).

 

No quinto capítulo – Restauração e formação do Diacônio (p. 127-163), levando em consideração que o ministério diaconal é a vocação que mais cresce, proporcionalmente na Igreja latina hoje, o autor diz ser importante conhecer as razões do restabelecimento do diaconado como ministério permanente (p. 129-137) e, também, uma ponderação sobre como se dá a formação de um diácono. Para isso, Rocha propõe um estudo de caso do processo formativo dos diáconos permanentes, tomando como objeto de análise o diacônio da Arquidiocese de São Sebastião no Rio de Janeiro (p. 137-163). Esta escolha tem por justificativa o fato de que, nessa Igreja Particular, o ministério encontrou próspero crescimento nas duas últimas décadas, tornando-se o maior diacônio do Brasil (p. 137). Importa conhecer esse fenômeno em sua evolução histórica, descrevê-lo em seus avanços, limites, relações e dar visibilidade aos acontecimentos que favoreceram e confeccionaram os capitais simbólicos e social que hoje tangenciam esse ministério ordenado (p. 129).

 

Capa do livro Ministério diaconal: história e teologia (Foto: Divulgação/Paulus)

 

A segunda parte (p. 165-348) composta de (6) capítulos é dedicada às discussões teológicas. Duas preocupações atravessam as temáticas aí abordadas. A primeira diz respeito ao lugar ad intra do ministério: suas funções, ocupações, relação com o presbítero e com os leigos. A segunda ad extra, com relação ao exercício ministerial no mundo.

 

No sexto capítulo – A Diaconia de Cristo e o Ministério Diaconal (p. 167-196), busca-se analisar a cristologia do ministério diaconal (p. 169). Tomando como ponto der partida o hino cristológico de Filipenses (2,6-11), o autor destaca que a quenose do Verbo é sua diaconia, manifestação de amor absoluta que se esvazia para dar-se por inteiro (p. 170). Por isso, Jesus Cristo, diácono do Pai é a fonte e origem da diaconia (p. 171-185). Não há seguimento de Jesus Cristo sem diaconia. A diaconia fundamenta o ser da Igreja - especificamente o diácono é sinal visível da diaconia de Cristo Jesus (p. 185-196).

 

No sétimo capítulo – O ministério diaconal da Palavra de Deus (p. 197-224), busca-se refletir sobre a missão do diácono como servidor da mesa da Palavra de Deus sobre a “teologia da mesa da Palavra”, e sobre o munus docendi confiado ao diácono em virtude de sua ordenação sacramental (p. 200). O autor, antes de analisar seu serviço à Palavra, esclarece que antes precisamos entender o sentido da sua vocação. Propõe, diante disso, uma leitura do diaconato no tempo, mas também dos sentidos e dos significados das palavras “diácono” e “diaconia” (p. 200-203). Busca ainda descrever e analisar uma questão que tem se imposto como fundamental no ministério diaconal: a dimensão caritativa do servir às mesas, entendida como serviço amoroso aos necessitados (p. 203-210). Rocha salienta que um olhar atento ao livro dos Atos dos Apóstolos pode abrir o campo de compreensão sobre o ministério diaconal e sobre a diaconia da Palavra (p. 210-217). Neste sentido, sua diaconia da Palavra é também ato de amor, pois parte de sua missão é fazer com que o Amor seja amado. De modo específico, a exemplo do epíscopo e do presbítero, compartilha da tríplice função do sacramento da ordem, como mestre, santificador e guia. Em função desta constatação, o autor, trata da valorização da celebração da Palavra de Deus por parte do diácono (p. 217-224).

 

No oitavo capítulo – A diaconia caritatis (p. 225-246, descrevendo a diaconia caritatis como expressão do pastorado (p. 235-239), onde a diaconia do pastor (Mc 10,45) é um dom compartilhado com toda a Igreja, que servidora e ministerial, tem no diácono o sinal visível e sacramental do Cristo servo, o autor deixa claro que as noções de cuidado, zelo, doação e amor fraterno devem iluminar seu tríplice ministério da liturgia, da Palavra e da caridade. Rocha diz que o reestabelecimento do diaconado pelo Vaticano II ocorre precisamente pelo revisitar a diaconia e repensar uma Igreja ministerial e servidora. Nesse contexto foi essencial uma eclesiologia focada na comunidade, Igreja do povo de Deus, que valorizasse a diversidade dos carismas e concebesse o poder como serviço. Assim, conclui o autor, repensar essa Igreja ministerial, atravessada pela diaconia de Cristo, faz emergir o novo diaconado e um novo diácono que deve ser o sinal privilegiado do Cristo Servo e Bom Pastor (p. 228).

 

No nono capítulo – Diaconado e sacerdócio (p. 247-278), o autor busca analisar a relação diaconado-sacerdócio, debruçando-se sobre a história da igreja para compreender o fenômeno da sacerdotização do ministério ordenado (p. 254-268). Em um segundo momento, Rocha se detêm na identidade do diácono e na sua relação com o sacerdócio hierárquico e batismal (p. 269-278).

 

No décimo capítulo – O ministério diaconal e a pós-modernidade (p. 279-320), o autor analisa a relação sagrado profano no contexto histórico atual e apresenta os contornos de seu desenvolvimento e desenlace na pós-modernidade (p. 284-296) com a cultura do “self”, caracterizada pelo individualismo e pelo materialismo (p. 293-303). Rocha busca, ainda, identificar e examinar a atuação da Igreja Católica diante do fenômeno do secularismo, tomando por estudo de caso o diaconado permanente e a cultura da caridade, marcada pela compaixão e pela solidariedade (p. 303-320).

 

No décimo primeiro capítulo – O diaconado e as novas fronteiras de missão (p. 321-348), estando à mesa como que serve (p. 324-330) , servindo á mesa no século XXI (p. 330-348), em um mundo marcado pelo indiferentismo e pelo individualismo, o diácono faz emergir outro espaço de atuação eclesial, caracterizado pela mediação (p. 323). Rocha esclarece que o lugar do diácono neste cenário confuso caracteriza-se, justamente, por recompor o horizonte do encontro perdido na pós-modernidade. Sua propriedade de estar em relação a todos os outros posicionamentos, sem neutralizar ou diminuir, mas mediando, é que o torna específico e forja seu significado de Igreja no mundo e com o mundo. O diaconado é, pois, um dispositivo pastoral de mediação. Sua missão é construir pontes e estabelecer a afinidade e o diálogo, propondo a ética cristã por meio de sua vida e de sua ação nos espaços não eclesiais. Nesse sentido, seu serviço à Palavra, à Liturgia e à caridade não devem ser visto de modo restrito e enclausurado nos espaços eclesiásticos. Seu lugar são os areópagos modernos (p. 234).

 

***

 

A história do diaconado fascina e encanta (p. 341). Sinais do Cristo servo e da igreja servidora.

 

O percurso oferecido por Dr. Luciano Rocha nesta obra deixa claro que o diaconado é um ministério presente desde os primórdios da Igreja. Nos primeiros séculos assume particularmente a dimensão da caridade e, em seguida, vem o serviço do culto e da pastoral. Comprovando isso, no Anexo oferecido pelo autor nas páginas 349-360, o leitor, depara-se com a linha do tempo sobre o ministério diaconal tomando conhecimento de personagens, acontecimentos e documentos.

 

Os aspectos históricos, mas sobretudo os fundamentos teológicos e pastorais apresentado pelo autor colocam-nos na perspectiva do Concílio Vaticano II (1962-1965). Este evento eclesial voltando às fontes bíblicas e patrísticas restaurou o diaconado (cf. Lumen Gentium, n. 29), como grau próprio e permanente da hierarquia e estabeleceu condições teológico-pastorais favoráveis para que esse ministério pudesse desenvolver-se plenamente. Entre tais condições podemos destacar: a eclesiologia de comunhão e participação; a teologia da diversidade dos carismas e ministérios; o poder como serviço; além da própria necessidade pastoral.

 

 

Num tempo de crise de identidade e de espiritualidade, Dr. Luciano Rocha deixa claro que o diácono é chamado a ser sinal do “Cristo Servo” e da “Igreja serva”. Assim a missão e a função do diácono não devem ser avaliadas por critérios meramente pragmáticos, especialmente como “solução” para a escassez numérica de sacerdotes. Tais considerações são muito importantes para que se reconheça a plena da cidadania dos diáconos na Igreja, para que eles possam de fato realizar essa missão específica de modo pleno. Isso porque, do ponto de vista vocacional, os diáconos não podem ser reduzidos a simples “agentes de pastoral” ou “suplentes de padres”.

 

Na esteira do pontificado de Francisco e do Documento Conclusivo da III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano – Puebla (1979), somos desafiados a compreender cada vez melhor que na dinâmica do sinal sacramental a vocação e a missão do diácono tem grande eficácia para a realização de uma Igreja pobre e servidora, que exerce sua função missionária com vistas à libertação integral de cada ser humano (cf. n. 697).

 

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