19º domingo do tempo comum – Ano B – O pão da vida, alimento para o caminho

Foto: Wikimedia Commons

Por: MpvM | 06 Agosto 2021

 

"Acolher Jesus como pão da vida é possibilitar a ação de Deus. É preciso nos inspirar na vida de Jesusaprender a amar os outros com gratuidade. A fé não é intimista e subterfúgio para as dificuldades e problemas da vida. Ela é, antes de tudo, ocasião de sustentação nos momentos difíceis e direção para o nosso fazer. A segunda leitura nos inspira no comprometimento com o Reino, que sejamos bons uns com os outros, que trabalhemos o perdão. Paulo nos diz: Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama."

 

 

A reflexão é de Soraia Dojas Melo Silva Carellos. Ela possui graduação em psicologia pela PUC Minas (1983) e mestrado em psicologia pela Universidade do Rio de Janeiro - UFRJ (2001). Atualmente é professora no curso de Psicologia da PUC Minas. É membro da Rede Celebra, coordenadora da Equipe de Liturgia na Paróquia Igreja de Santana Serra em Belo Horizonte, onde também participa de grupos de leitura orante da Palavra.

 

Leituras do Dia
1ª Leitura - 1Rs 19,4-8
Salmo - Sl 33,2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 9a)
2ª Leitura - Ef 4,30-5,2
Evangelho - Jo 6,41-51

 

A liturgia deste domingo tem uma estreita relação com a do domingo passado, pois a leitura semicontínua do evangelho de João, no capítulo 6, figura nas liturgias dominicais neste período do tempo Comum. Jesus tinha tomado pães e peixes, abençoando e oferecendo-os à multidão que se alimentou deles. Estes gestos de Jesus evocam a eucaristia e desencadeiam os diálogos que constituirão o discurso sobre o pão da vida. A partir deste sinal Jesus revela que ele é pão da vida descido do céu. A proposta de Jesus surpreende e vai encontrando reações de todo tipo: entusiasmo e desejo de proclamar Jesus como rei, interesses imediatistas gerados pela saciedade, questionamentos e rejeições.

 

No evangelho deste domingo os judeus não conseguiam compreender a conexão do sinal com o que Jesus falava. Isto provocava um desencontro como se falassem línguas diferentes. Os judeus murmuram entre si a respeito de Jesus; incrédulos, não conseguiam reconhecer Jesus como aquele que viera do céu. Eles não conseguiam ultrapassar a compreensão material do sinal, fazendo uma divisão entre espiritual e material. Para ser pão vindo do céu não deveria ter origem humana. Os judeus recusam este mistério.

 

Jesus propõe um olhar mais profundo, onde o sinal do pão evocava um outro alimento espiritual: sua própria existência dada para nutrir a vida eterna. Como ele dissera anteriormente, para que não ficassem somente com o pão que pereceria. O risco dessa divisão que capturava os judeus é ainda muito grande: a vivência de um espiritualismo desencarnado, intolerante, elitista.

Neste trecho ressoa o fio condutor do evangelho: “O verbo se fez carne”. Acolher o projeto de Deus é acolher a origem humana e divina de Jesus e admitir que o Eterno, Adonai, “Eu sou” se manifestou em nossa carne, na carne de um nazareno, ou num pão que alimenta a multidão. Falando dos gnósticos, o papa Francisco nos alerta em sua exortação apostólica Gaudete et Exsultate: “Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo.”

 

Desde o diálogo com a multidão, Jesus já denuncia este equívoco, marcando e convidando a um salto de qualidade. Pelo sinal do pão partilhado, aponta para a fé-adesão na sua humanidade, como sinal verdadeiro do Pai que o enviou. Ficar somente na materialidade do pão que perece, ou nas murmurações que hoje acompanhamos em tantas situações de dificuldade e de desafios, nos remete aos antepassados que também murmuraram contra Moisés no deserto, quando viviam escassez de pão, ou mesmo para Elias que pedira a morte. Os dois eventos apontam na direção da fragilidade da nossa própria fé, de reconhecer na nossa história, os desígnios de Deus e a sua presença que nos nutre e fortalece. O Sagrado veio ao nosso encontro, com feições de um homem pobre de Nazaré, um profeta desconhecido, disposto a mostrar o valor divino dos pequenos gestos. Como nos dispor a participar deste mistério?

 

Jesus veio de junto do Pai. E o Pai, é quem atrai para o seu Filho. Jesus é aquele que une, que faz a mediação entre a humanidade e o divino. Tudo passa por Ele, mas vem do Pai. Neste evangelho somos convidados, mulheres e homens, a crer em Jesus como o enviado de Deus. Por meio de Jesus é restabelecida uma relação dialogal entre Deus e a humanidade, não unilateral, como um rei dominador e solucionador de problemas. Nessa relação de aliança Deus nos atrai para o Filho e nós somos chamados a responder, nos dispondo ou não a escutá-lo.

 

O maná que foi alimento no deserto aponta para o outro que o supera e dá a vida eterna. Jesus designa a si mesmo como este alimento: “Eu sou o pão descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”. Jesus é o verdadeiro maná. No pão partilhado para a multidão faminta é a humanidade de Jesus que salva! Além disto, o trecho que estamos lendo insiste por duas vezes no nome de Deus no Antigo Testamento “Eu sou”. É como Deus se denominava e como Jesus se denomina, sinalizando que o projeto de Deus para humanidade passa por Jesus. Vida eterna que já se configura desde aqui, no momento que aderimos a Jesus.

 

E Jesus acrescenta “o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. A palavra usada para carne é sárx, que indica a vida humana mortal, assumida por Deus na encarnação. É a morte como fonte de vida, para vencer a nossa morte. Pão descido do céu e partilhado dando vida a todos e todas. Da condição humana assumida pelo filho de Deus, nasce a vida em plenitude para todos que desejarem ser discípulos e discípulas.

 

O profeta Elias, no deserto, perseguido, desolado e desejando a morte é alimentado por Deus e isto sustenta sua caminhada até o Monte Horeb. Este caminhar de Elias remete ao povo de Deus no êxodo, atravessando da escravidão à liberdade. Deus dá o pão a Elias, nutrindo-o e sustentando-o no grande desafio de se proteger da morte e continuar a sua peregrinação. Ir para o deserto para Elias, em um primeiro momento, parece ser fuga, mas nada mais é que se proteger dos que o podiam matar, confiar e se deixar conduzir por Deus. E, isto possibilita que ele sobreviva, cumpra sua missão e cuide do seu povo.

 

A primeira leitura (1Rs 19,4-8) e o Evangelho (Jo 6,41-51) se ligam com o nosso cotidiano. Deus dá o alimento aos que dele necessitam: Jesus é o pão descido do céu que nos fortalece no enfrentamento das dificuldades da vida. Ele é o pão para os que são fracos, aceitam sua fragilidade e têm fome do pão que os nutre. A Eucaristia como acesso à humanidade de Jesus não é para os fortes e perfeitos, mas para os que estão a caminho, atravessando os desertos.

 

Nossas celebrações são oportunidades de experienciar e nos nutrir com o pão da Palavra e o pão da Eucaristia, participando do mistério que foi possível em Jesus. Ser cristão é avançar na experiência da doação de Jesus, na Eucaristia como partilha, como partilha do pão, símbolo de sua humanidade. Assim, restauramos as forças para o caminho, alimentamos nossas palavras e ações contra toda murmuração e desânimo.

 

Acolher Jesus como pão da vida é possibilitar a ação de Deus. É preciso nos inspirar na vida de Jesus, aprender a amar os outros com gratuidade. A fé não é intimista e subterfúgio para as dificuldades e problemas da vida. Ela é, antes de tudo, ocasião de sustentação nos momentos difíceis e direção para o nosso fazer. A segunda leitura nos inspira no comprometimento com o Reino, que sejamos bons uns com os outros, que trabalhemos o perdão. Paulo nos diz: “Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama”.

 

Penso aqui em Papa Francisco quando disse que ao dar alimento ou dinheiro a um pobre que perguntássemos pelo nome dele. Ele nos convida a perceber quem somos nós. Ao conversar com a pessoa que nos pede ajuda nós mudamos de patamar e quem está diante de nós também. Saímos do lugar de objetos e nos tornamos dois sujeitos que se encontram, que são iguais e que querem vida.

 

Quando dividimos humano e divino, quando não vivemos Jesus como pão da vida, reduzimos as pessoas às suas necessidades, elas são muito mais que do que precisam, têm sonhos, alegrias, amores.

 

Hoje vivemos fome de amor, de igualdade, de justiça no mundo. O cristão é aquele que busca o dia de hoje, mas tem uma utopia, o Reino de Deus, amor e justiça para todos.

 

Que não percamos de vista que Eucaristia é partilha e partilha de vida.

 

Paz e bem!

 

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