As finanças de 2020 da Cúria Romana foram melhores que o esperado – mas não boas

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26 Julho 2021

 

A declaração financeira da Cúria Romana de 2020 revelou resultados melhores que o esperado, embora a situação ainda tenha sido difícil, anunciou o prefeito da Secretaria para a Economia, Juan Antonio Guerrero Alves, na publicação do relatório anual, em 24 de julho.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 24-07-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A SPE havia preparado um orçamento de base zero para 2020 que simulava três cenários financeiros diferentes – o pior, o médio e o melhor caso – para aquele que provavelmente foi o ano mais crítico para a Santa Sé e, na verdade, para todo o mundo por causa da crise causada pela pandemia de covid-19. A declaração final provou ser “ligeiramente melhor do que o melhor cenário” e resultou em um déficit de 68 milhões de euros (80 milhões de dólares).

O balanço financeiro mostrou uma receita geral de 248 milhões de euros (303 milhões de dólares), uma despesa total de 315 milhões de euros (386 milhões milhões de dólares) e um patrimônio líquido de 1.379 milhão de euros ($ 1.690 milhão). Revelou redução das receitas, mas paralelamente redução das despesas, e a garantia de liquidez do orçamento operacional para evitar ser forçado a vender ativos com prejuízo neste momento de crise.

 

Fontes de renda

 

O comunicado revelou que a receita para 2020 foi apenas 5% menor que a de 2019, o que pode ser considerado um resultado positivo considerando a pandemia, embora o impacto total da redução na receita não possa ser visto até 2021.

As fontes dessa receita são três:

Em primeiro lugar, os fundos gerados na Santa Sé a partir de rendas, investimentos, visitantes (para museus, catacumbas, etc.) e serviços representaram 58% das receitas em 2020, em comparação com 68% em 2019.

Em segundo lugar, as contribuições externas de dioceses ou outras instituições representaram 23% da receita em 2020, em comparação com 18% em 2019. Significativamente, as doações de dioceses em todo o mundo (23 milhões de euros) permaneceram praticamente as mesmas de 2019 a 2020.

Terceiro, as contribuições de entidades ligadas à Santa Sé (principalmente o Instituto para as Obras da Religião, comumente conhecido como IOR ou Banco do Vaticano, e o Governatorato da Cidade do Vaticano) representaram 19% da receita em 2020 em comparação com 14% em 2019.

65% da receita total é dedicada ao apoio à missão da Santa Sé.

 

Óbolo de São Pedro

 

O balanço financeiro mostra que a contribuição do Óbolo de São Pedro para a missão da Santa Sé foi de 50 milhões de euros em 2020, menos do que em qualquer dos três anos anteriores. Foi responsável por 32% do custo da missão em 2019 e apenas 24% em 2020. Outros 12 milhões de euros do Óbolo de São Pedro foram atribuídos a projetos específicos em países necessitados.

Como a arrecadação do Óbolo de São Pedro em 2020 totalizou 44 milhões de euros, o Vaticano teve que sacar do patrimônio de reserva desse fundo para cobrir a contribuição de 50 milhões de euros.

Vale ressaltar que nenhum centavo do Óbolo foi usado para administração ou gestão de ativos em 2020, uma prática que foi criticada no passado.

Embora a demonstração financeira não mostre isso, a revista America apurou com a SPE que houve uma redução significativa de 40% nas contribuições recebidas das coletas ao Óbolo de São Pedro nas igrejas de todo o mundo entre 2015 e 2020, mas os Estados Unidos e a Alemanha ainda são os maiores contribuintes.

 

Perda de receita

 

O comunicado revela que houve uma perda de receita de 11,6 milhões de euros porque a pandemia de covid-19 forçou o fechamento dos museus do Vaticano, das catacumbas e do escritório de viagens do Vaticano em 202. Este prejuízo foi compensado em parte por uma redução dos gastos de quase cinco milhões de euros com a exploração dessas mesmas atividades, pelo que o prejuízo líquido total acumulou 6,7 milhões de euros.

A declaração de 2020 mostrou que o retorno dos investimentos financeiros do Vaticano foi inferior ao de 2019 em 32,1 milhões de euros, mas isso parece ser devido especialmente à flutuação das taxas de câmbio e à desvalorização do valor de mercado das ações. Grande parte do investimento é em dólares, embora isso possa mudar nos próximos anos.

 

A polêmica propriedade de Londres

 

Um item significativo que não aparecia nas demonstrações financeiras anteriores é o registro de “pagamentos a receber”, de mais de 83,5 milhões de euros que no ano anterior. O comunicado explica que isso “se deve principalmente a um contrato de empréstimo entre a APSA (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica) e a Secretaria de Estado para refinanciar em condições muito melhores o investimento no imóvel da Sloane Avenue, em Londres”.

A revista America apurou com a SPE que o Vaticano estava pagando uma hipoteca de 127 milhões de euros sobre aquela propriedade à taxa de juros exorbitante de 7,7%, mas graças ao refinanciamento agora paga uma taxa de juros de 0,71%.

O padre Guerrero confirmou a notícia de que o Vaticano agora colocou à venda a propriedade de Londres que lhe custou tanto dinheiro, mas muito mais em termos de imagem. Um julgamento aberto no Vaticano, em 27 de julho, julgará os delitos relacionados à compra daquela propriedade e, pela primeira vez na história moderna, um cardeal, Giovanni Angelo Becciu, está entre os réus. Eram os próprios controles internos do Vaticano – no IOR e no escritório do auditor geral – que primeiro descobriu os alegados crimes financeiros, incluindo peculato, e os relatou às autoridades judiciais.

 

Escopo da declaração

 

Em uma ampla entrevista ao Vatican News, o padre Guerrero enfatizou que o balanço financeiro consolidado de 2020 é apenas o da Cúria Romana e não do Vaticano como tal, porque não inclui o Governatorato da Cidade do Vaticano, o Instituto para as Obras da Religião ou os diversos institutos ligados à Santa Sé, incluindo hospitais, fundações, fundo de pensões, fundo de serviços de saúde, etc. A SPE está trabalhando para garantir que tudo isso possa ser incluído nas demonstrações financeiras de 2021. Este é um trabalho em andamento e de grande importância.

 

Por que o déficit é menor do que o esperado?

 

Uma das principais razões para o déficit ter sido melhor do que o previsto em 2020 reside na redução das despesas em 26 milhões de euros. Este foi o resultado das decisões tomadas na preparação do orçamento base zero para 2020, disse o padre Guerrero. Isso envolveu “manter apenas o que era essencial: salários, ajuda às igrejas em dificuldade e assistência aos pobres”, disse ele. Envolveu o corte de viagens e eventos como congressos ou reuniões, a contratação de consultores e o adiamento de muitas obras de manutenção. Por exemplo, as 26 nunciaturas (embaixadas) da Santa Sé em todo o mundo reduziram suas despesas em 19% em comparação com o ano anterior. Os custos das viagens papais também foram bastante reduzidos em 2020 devido à pandemia.

Falando do déficit, o padre Guerrero destacou que “as entidades da Santa Sé não têm como meta o lucro. Muitos tendem a apresentar prejuízo porque os serviços que prestam não são totalmente financiados”. Ao mesmo tempo, disse, um importante esforço está sendo feito “para melhorar a sustentabilidade dessas entidades”.

 

Despesas

 

O balanço financeiro de 2020 revela que 43% das despesas (136 milhões de euros) vão para “custos de pessoal”, 8% (25 milhões de euros) para as 26 nunciaturas e 6,4% (20 milhões de euros) para manutenção. Outros 35% das despesas (109 milhões de euros) vão para “custos administrativos e gerais totais”.

“A única despesa que não diminuiu em 2020 foram os impostos pagos pela Santa Sé ao estado italiano e ao município de Roma, quase os mesmos do ano anterior: 18,8 milhões de euros”, disse o padre Guerrero ao Vatican News.

A declaração mostra que cinco entidades são responsáveis por 70% das despesas: o Dicastério para a Comunicação, as nunciaturas, a Congregação para a Evangelização dos Povos, a Congregação para as Igrejas Orientais e o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral.

 

Socorro em meio à pandemia

 

Ao mesmo tempo, o balanço financeiro mostra que um item do déficit é a prestação de ajuda a igrejas em dificuldade (cerca de 10 milhões de euros), onde a necessidade foi especialmente aguda durante a pandemia. Essa ajuda foi fornecida pelo dicastério para o desenvolvimento humano, pela Congregação para as Igrejas Orientais e pela Esmolaria Apostólica.

O comunicado de hoje confirma o trabalho que está sendo realizado pela SPE sob a gestão do padre Guerrero para garantir maior transparência, accountability e gestão profissional para as finanças do Vaticano – uma área que há muito tem sido atormentada por escândalos.

 

Publicação de balanço

 

Nota: Pela primeira vez, em um novo ato de transparência, o escritório do Vaticano para a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica publicou seu balanço que revela, entre outras coisas, o tamanho real das propriedades da Santa Sé e como e onde faz investimentos.

 

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