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20 Julho 2021

 

Rogério Correia

 

GOVERNO SUSPENDE FABRICAÇÃO DE 19 REMÉDIOS GRATUITOS, INCLUINDO CONTRA CÂNCER E DIABETES

O Ministério da Saúde suspendeu contrato com sete laboratórios públicos que produzem 19 remédios gratuitos. Com isso, 30 milhões de pacientes de todo o Brasil serão afetados pela falta de medicamentos gratuitos para câncer, diabetes e transplantes, entre outras doenças e casos.

É o mesmo governo que elogia o uso de armas, quer o fim das multas no trânsito e o fim das cadeirinhas de segurança para bebês em automóveis... O mesmo governo que quer isentar impostos de fabricantes de cigarros... O mesmo governo que liberou geral o uso de agrotóxicos na comida do brasileiro (é o recordista disparado).

Com essa do Ministério da Saúde, já dá para afirmar, sem medo de errar: é o governo da morte, não da vida!

Leia mais aqui.

Veja a lista dos medicamentos suspensos:

 

 

Fernando Altemeyer Junior

Falsos católicos atacam padre em Fortaleza. Cresce o fanatismo, a crueldade de grupos fascistas infiltrados na Igreja Católica. Veneno mortal para destruir. São diabólicos e sem escrúpulos. É preciso dizer BASTA. Bolsonarismo é mortal e idolátrico.

 

 

Marcos Silvestre Gera

Após ser hostilizado por bolsonaristas durante missas, padre deve entrar em programa de proteção. As agressões verbais ocorreram logo que o padre lamentou as mais de 500 mil mortes causadas pela pandemia no Brasil. O sacerdote relatou que ele e outros membros da igreja têm recebido ameaças constantes. Leia aqui.

 

 

Reginaldo Ferreira Araújo

Padre Lino Allegri, da paróquia da Paz e membro da Pastoral do Povo de Rua, vem sofrendo diversos ataques promovidos por grupos bolsonaristas de extrema-direita por emitir opinião contra o descaso político diante da morte de mais de 500 mil brasileiros vítimas da covid-19.

Toda nossa solidariedade! Não passarão!

 

 

Jaime C. Patias

Rede de solidariedade a Padre Lino cresce após sacerdote ser hostilizado em missa de Fortaleza

Escrito por Redação, 15:04 / 19 de Julho de 2021. Atualizado às 21:15 / 19 de Julho de 2021

Lino Allegri deve entrar em programa de proteção a defensores de direitos humanos devido às ameaças que sofreu oriundas de apoiadores do presidente Bolsonaro

 

Christian Edward Cyril Lynch

O TABU DO SISTEMA DE GOVERNO

Tedioso esse fetiche presidencialista de que a reforma do sistema de governo seja sempre um ardil da "zelite" contra a esquerda. Em 93 ainda se entendia: não tínhamos 30 anos de democracia nas costas. Tínhamos de experimentar o sistema. Quem hoje dirá que ele é perfeito? Quem dirá que ele é insuscetível de ser melhorado? O nosso presidencialismo se revela defeituoso em mais de um aspecto. Por que esse tabu? Por que esse horror do congresso com que todos os presidentes no entanto são obrigados a negociar?

Queriam, como o Bozo, que não houvesse congresso para negociar? Se querem congresso, é preciso pensar em alguma forma de melhorar a interação entre os poderes, porque a coalizão continua sendo elemento indispensável de governo. E, embora todo mundo pareça ter esquecido, estamos nessa merda porque o presidencialismo de coalizão apodreceu em 2010-2018. Gerou uma crise de representação que empoderou o Judiciário. Agora empodera o Exército. É preciso arranjar uma opção entre impedimento do presidente ou compra do congresso.

A discussão em torno do primeiro-ministro é outro fetiche. Todos os governos democráticos tiveram primeiros-ministros informais nas pessoas dos ministros da Casa Civil. Sempre teve alguém que fizesse a interface com a coalizão e/ou superintendesse a administração. Clovis Carvalho no governo FHC, Dirceu, Palocci e Dilma no Lula; Mercadante na Dilma; Temer no governo Temer (era o próprio); e agora temos tanto o Ramos quanto o próprio Lira. Parece até temos mais medo do nome da coisa do que da própria coisa, que já existe.

Só que ela funciona mal. O "primeiro ministro" pode ser inábil que não cai. O congresso faz o presidente de refém, porque tem enormes poderes, nomeia meio mundo para a administração, mas não tem responsabilidade no governo. Os poderes presidenciais são mais aparentes que reais. A relação entre executivo e legislativo é detratada desde 2005, na época do mensalão. São 16 anos. Não há nada realmente a melhorar nesse sistema? Abdicar da discussão é abdicar de qualquer possibilidade de aperfeiçoamento do sistema representativo em crise óbvia beirando o colapso.

A essa altura, como sempre, começam os argumentos conservadores. Nunca é hora de se discutir o assunto, seja porque ou momento é de crise, ou porque quem conduz q discussão é suspeito de elitismo ou de não gostar de povo. Nenhum dos dois argumentos se sustenta. Em primeiro lugar, é óbvio que reformas se fazem durante crises. Se não houvesse crises, não haveria necessidade de reformar o sistema. Ninguém muda a crise em tempos de rotina. O argumento é portanto circular e só é mobilizado para adiar e depois matar a discussão.

Quanto ao argumento de elitismo, ele é ainda de pior qualidade. O que faz do presidencialismo um sistema mais "demofílico" do que os outros? Numa democracia, tanto legislativo quanto executivo são eletivos. Por que o presidente seria mais representativo da vontade do povo? Ademais, o congresso não é menos representativo que o presidente nem no presidencialismo. Tanto que o congresso pode impedir o presidente de continuar seu mandato, mas o presidente não pode dissolver o Congresso e convocar eleições para o povo resolver o conflito.

O mito de que o presidente é mais representativo tem origem na herança ibérica do despotismo ilustrado, ideologia modernizadora do Antigo Regime segundo a qual um rei absoluto ilustrado era indispensável para enfrentar o "atraso" identificado com o clero e a nobreza. Essa ideologia atravessou nossa história inteira no modo conservador (presidente como garantidor da "ordem e do progresso") e ganhou uma versão de esquerda nacionalista com Vargas (presidente como garantidor da "ordem e da igualdade"). Com o trauma de 1961, ficou essa história de que a reforma do sistema é sempre um ardil contra o povo.

Tudo isso me parece compreensível, sendo o Brasil um país periférico e em vias de democratização. Inclusive em 1993. O presidencialismo nunca havia sido experimentado em tempos de democracia, num país já urbano e industrial. Era mesmo prematuro discutir a reforma ha 30 anos. Hoje, porém, do que se trata, não é discutir a questão de modo abstrato ou fetichista, mas de modo concreto e pratico à luz da experiência dos últimos 30 anos. Ao contrario do que crê a esquerda nacionalista e os conservadores autoritários, não podemos viver sem coalizão.

Pode-se e deve-se discutir quais os pontos de estrangulamento do sistema, evitar tratoragem, se é cortina de fumaça etc. O que não se pode é interditar o debate, indispensável para reaprumar a República, invocando tabus, fetiches ou argumentos de um tempo que não existe mais. Eu me pergunto se o sistema presidencial não se aperfeiçoaria institucionalizando logo essa figura de primeiro-ministro, indicado pelo presidente com anuência da maioria parlamentar, dando responsabilidade de governo ao congresso, mas também a possibilidade de o presidente dissolvê-lo.
Que é preciso reformar o sistema, é evidente. A discussão tem que ser feita, porque a democracia tem que ser protegida contra seus inimigos. Quanto ao conteúdo da reforma, ele pode ser discutido. O que não se pode é interditar o debate.

 

André Vallias

Puseram Bolsonaro numa sinuca

HÉLIO SCHWARTSMAN

Considero obviamente um escândalo o aumento do fundo eleitoral de 2022 que o Congresso quer nos impingir, mas devo admitir que essa armadilha que os aliados do centrão montaram para Bolsonaro me diverte. Prossigamos por partes.

Não faz o menor sentido destinar quase R$ 6 bilhões para as campanhas políticas do ano que vem. Há atividades em que investir mais resulta num produto final melhor. Uma refeição preparada com bons ingredientes tende a ser mais saborosa. Uma ponte construída com materiais de baixa qualidade pode até tornar-se um risco ao público.

Essa lógica, porém, não se aplica à eleição. Não há nenhuma correlação entre o montante investido numa campanha e a qualidade dos dirigentes e representantes escolhidos. Ao contrário, quanto mais dinheiro houver, maiores as chances de um bom marqueteiro conseguir vender gato por lebre.

Daí que sempre defendi que as verbas públicas destinadas aos partidos em anos eleitorais sejam modestíssimas — não há nenhum mal em campanhas franciscanas — e decrescentes, já que a tendência é que o rádio e a TV cedam espaço para a mais barata internet.

Devemos, porém, tirar o chapéu para a sinuca de bico em que os articuladores da manobra deixaram Bolsonaro, cujo discurso sempre foi o de acabar com as mamatas dos políticos — e esse é um aspecto que os bolsonaristas raiz levam muito a sério.

Na presente situação, ou o presidente veta a lei que embute o aumento, o que geraria atritos com o centrão, do qual se tornou refém, ou a sanciona, o que, além de ser escandaloso, o faria perder preciosos pontos com seus apoiadores mais fiéis. Basicamente, ou ele perde, ou perde.

Se os votos dos parlamentares da base do governo, incluindo os dos Bolsonaros juniores, indicam uma tendência, ela é a de sancionar. Não me surpreenderia. Embora Bolsonaro goste de posar de macho valente, a verdade é que, quando a coisa aperta, ele costuma amarelar.

FSP 19.07.2021

 

Combate Racismo Ambiental

140 mortos partem o coração do presidente da Alemanha. Aqui, 540 mil merecem passeios de moto quinzenais...

 

 

André Vallias

Lauro Jardim: “Dias Toffoli tem trabalhado intensamente para Mendonça ser seu colega na STF. É o ministro mais ativo nos contatos com os senadores. Em compensação, no Senado, Mendonça tem um incansável adversário. Davi Alcolumbre trabalha com desembaraço para que o Senado não aprove o indicado de Jair Bolsonaro.” (Globo) MEIO

 

Moisés Mendes

Vi o vídeo de hoje com Bolsonaro de retorno ao cercadinho do Alvorada. Parece cada vez mais lento e confuso. Não soluçou, mas tossiu.
Bolsonaro dá a impressão de que a qualquer momento pode cair ali mesmo sobre o cercado, ou cair depois sobre o Braga Netto.
Acho que ele prefere cair sobre o Braga Netto.

 

 

Moisés Mendes

Bolsonaro participou do golpe que derrubou Evo Morales, ao determinar que seu embaixador em La Paz participasse de reuniões dos conspiradores e apoiasse o motim que derrubou o presidente, em novembro de 2019.

O próprio Morales faz a acusação, em entrevista ao jornal argentino Página 12.

É a reafirmação do que Morales já vem dizendo, mas agora com mais detalhes sobre o que aconteceu em 2019 e a comprovação de que Mauricio Macri enviou munições aos golpistas.

O Congresso boliviano já investiga as participações no golpe de Brasil, Argentina, Chile e Equador e da representação da União Europeia.
A imprensa boliviana diz que o general Williams Kaliman, que era chefe das Forças Armadas e participou do golpe, é foragido da Justiça e deve estar escondido no Brasil, sob a proteção da extrema direita.

 

Moisés Mendes

O sujeito que se acha hoje em condições de escolher a melhor vacina é o mesmo que em 2018 poderia escolher entre Haddad e Bolsonaro e escolheu Bolsonaro.

Carlos Nuno Castel-Branco está com Carlos Muianga

Via José Luis Fevereiro

O LEGADO DE MANDELA E A LUTA DE CLASSES

Muito se tem escrito, por ocasião do aniversário de Mandela (Madiba), sobre o seu legado. Uns, romanticamente, declamam-no; outros apontam, indignados, que não é seguido.

Mas, qual é o legado de Mandela? Será o do líder guerrilheiro revolucionário que, inspirado pelos ideais do Freedom Charter (o manifesto "comunista" africano), organizou a insurreição armada e a ligou com a mobilização política das massas? Será o do baluarte da tolerância, da inclusão, da magnanimidade na vitória, do humanista celebrado? Será o do estadista conservador e neoliberal que ajudou a travar as aspirações das massas trabalhadoras no pós apartheid e se reconciliou com o grande capital monopolista, em nome da reconciliação política nacional? Qual destes e, quiçá, de outros, Mandelas é o legado a seguir ou o que cada um de nós celebra?

A existência de vários Mandelas (ou de legados contraditórios, se preferirem), leva-nos ao papel da história e das suas contradições e lutas na formação e transformação de Mandela e do seu legado,..., ao longo dessa mesma história. Mandela não é sorte ou azar, mas a sua trajectória histórica e social, de que ele é tanto sujeito como súbdito. Portanto, Mandela tem a sua localização histórica e social concreta, que é preciso interrogar para o perceber.

Como qualquer líder carismático e marcante na história, Mandela é tanto o produto da sua trajectória objectiva e de si próprio como das histórias e reinterpretações feitas por cada um de nós sobre ele, que também reflectem as nossas aspirações sobre a história, a sociedade e sobre nós próprios. Parece-me que o destino histórico dos grandes líderes é serem reincarnados e reinventados de acordo com as necessidades e ocasiões e à imagem e semelhança de quem o quer usar para seja qual for a causa.

Olhando para uma tribuna de honra (celebração do seu centésimo aniversário natalício) em que o principal orador é um ex presidente norte-americano, associado ao assassinato de Gaddaffi (amigo de Mandela), que lavou as mãos da causa palestina (muita querida de Mandela), cúmplice do neoliberalismo e da financeirização (de que Mandela também foi cúmplice, embora não na mesma medida), que lavou as mãos da Grécia quando podia ter apoiada as alternativas progressistas e viáveis das suas propostas económicas e sociais (que Mandela apoiou), e que queira ou não faz parte das dinâmicas e da trajectória que alienaram as massas trabalhadoras e deram o poder à extrema direita;

...quando a visão deste ex presidente é que o mundo justo é aquele em que os ricos escolhem dar uma parte da sua riqueza aos pobres (uma visão do mundo que viola a visão e os princípios mais básicos e mais justos da Freedom Charter que, preconizava um mundo sem pobreza, sem domínio do trabalho pelo capital, de igualdade social, fraternidade, solidariedade e internacionalismo, e que num certo momento na história, inspirou Mandela e a luta das massas na África do Sul e no nosso Continente);

...quando esta visão de um capitalismo paternalista é aplaudida pelos outros gladiadores do legado de Mandela, como Graça e Ramaphosa, pilares da conjugação entre neoliberalismo e nacionalismo económico a favor da emergência de oligarquias "africanas" no lugar das "estrangeiras" (justificadas por crédito histórico, por "paternalismo patrimonialista" e pela noção do excepcionalismo do Africapitalismo);

...quando as massas que celebram Mandela exigem pão, saúde, habitação, educação, emprego decente, segurança social, partilha justa da riqueza gerada pelo trabalho, igualdade social, poder e controlo sobre os principais meios de produção social. liberdade da imposição social e histórica de vender a força de trabalho em troca de acesso à miséria, digidadade, solidariedade, internacionalismo, em vez de discursos sobre caridade dos ricos e magnanimidade dos poderosos,...

...de facto é preciso perguntar qual é o legado de Mandela e de que processo histórico é produto e sujeito.

Neste momento há um Mandela para cada necessidade, e um legado contraditório para cada contexto no complexo emaranhado da construção de classes e luta de classes. No fim, o legado de Mandela será o produto de como as grandes tensões e contradições da sociedade, que ele ajudou a criar e a compreender e/ou ofuscar, são resolvidas na história. Não existe um Mandela social fora do seu próprio contexto histórico e social contraditório.

O Mandela das massas trabalhadoras, por um lado, e o de Obama, Graça e Ramaphosa, por outro, não são e nunca serão o mesmo. A prova da sua grandeza histórica é que a luta pela definição e apropriação do seu legado é parte marcante da luta de classes no nosso mundo, e ninguém abdica dessa luta.

O que Mandela (e Samora, Cabral, e outros) tem de deixar de ser é a estátua-símbolo de alienação intensamente utilizada para, periodicamente, tentar credibilizar o poder do capital junto das massas trabalhadoras, recordando que há algo de comum que os une - um homem. O capital destrói essa ilusão todos os dias, excepto no dia que celebra esse homem; e essa utilização hipócrita de uma personalidade cada vez mais distante e vaga contribui para apagar a imagem do homem da memória colectiva popular. A história se absolverá, e uma sociedade em que efectivamente sejamos todos socialmente iguais, humanamente diferentes, solidários, internacionalistas e livres há-de emergir. A Freedom Charter terá o seu lugar de honra nessa história e nessa sociedade, com a sua devida localização, tal como todas as estórias que fazem parte dessa história colectiva. Numa sociedade livre da imposição e da necessidade de alienação e da ilusão, imagino que serão desnecessárias as estátuas-símbolo da hiprocrisia.

 

Cid Benjamin

Artigo publicado hoje na Revista Fórum

Os soluços, o intestino preso e o Cabo Tenório

Cid Benjamin*

Em outubro de 1968, em plena ditadura militar, um congresso da União Nacional de Estudantes (UNE) foi localizado pela polícia em Ibiúna, São Paulo, e quase mil estudantes presentes acabaram presos.

O episódio foi antes do AI-5, que só aconteceria em dezembro do mesmo ano, e a repressão ainda não era a mesma dos anos de chumbo. Não havia condições políticas para manter aquela multidão de estudantes presos. Afinal, a acusação era apenas de participar de uma reunião. Depois de um ou dois dias no xadrez, foram todos enviados para os estados de origem e, pouco depois, libertados. Apenas cerca de dez ou onze, identificados como os líderes mais importantes, foram separados dos demais e ficaram mais tempo na cadeia.

O grupo com os supostos líderes foi transferido inicialmente para um quartel do Exército em Santos, no litoral paulista. A unidade militar era comandada pelo àquela altura já conhecido coronel Erasmo Dias, que tinha sido secretário de Segurança de São Paulo e se arvorava de integrante da chamada “linha dura”.

Logo no primeiro dia, Erasmo resolveu dar um susto na estudantada. Dispôs todos perfilados numa quadra de basquete do quartel, cercados pelos quatro cantos por soldados que, deitados no chão, pilotavam metralhadoras ponto 30, e pronunciou um tonitruante discurso, encerrado com a ameaça: “Não estou para brincadeira. Quem tentar fugir ou desrespeitar alguma ordem vai morrer”, disse apontando as metralhadoras.

Em seguida, emendou com a voz empostada, como fazem alguns militares quando querem demostrar autoridade: “Alguma dúvida”?

Eis que Luís Travassos, presidente da UNE, levanta um dedo e pergunta, candidamente: “Coronel, onde é que se mija aqui?” Depois de um instante de perplexidade, com uma ponta de dúvida sobre se deveria levar a pergunta a sério ou se estava sendo sacaneado, Erasmo ordena, sempre com uma firme voz de comando: “Cabo, leve o estudante para urinar!”

Foi uma espécie de anticlímax.

Eu me lembrei desta historinha, diante da situação criada pelas ameaças dos comandantes militares à CPI da Pandemia nos últimos dias. A nota que redigiram, ameaçando mundos e fundos, foi um tiro n’água. Não surtiu o menor efeito. Ao contrário, despertou manifestações de apoio à CPI e a seu presidente, o senador Omar Aziz.

O que poderiam fazer os chefes militares, depois de pagarem aquele mico – para usar uma expressão a gosto dos jovens de hoje? Proibir que generais e coronéis fossem investigados? Prender alguns senadores? Mandar acabar a CPI? Qualquer das alternativas significaria um atropelo brutal às instituições.

A nota caiu no vazio e não teve qualquer efeito

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro padecia, há vários dias, de uma insistente crise de soluços. Alguns identificaram a origem do problema como de fundo nervoso. Afinal, há algumas semanas o capitão só recebia notícias ruins.

Como desgraça pouca é bobagem, adveio-lhe outro problema: uma obstrução intestinal que fez com que os médicos recomendassem a sua transferência para um hospital em São Paulo.

Logo depois constatou-se, porém, que não seria preciso uma cirurgia – o que chegou a ser aventado no primeiro momento. Melhor assim. Não há por que se desejar o mal a alguém – mesmo que esse alguém seja um adversário político.

Já quanto aos soluços, não se sabe se continuaram, nem se sua origem era mesmo de fundo nervoso. Porém, as más notícias não dão uma trégua ao presidente. Mesmo com a suspensão dos trabalhos da CPI da Pandemia por 15 dias, devido ao recesso do Senado, as perspectivas não são boas para ele. Os senadores já informaram que aproveitarão a parada para cruzar informações e investigar novas denúncias.

Tudo indica que no Ministério da Saúde estão batendo cabeça duas quadrilhas - uma formada por parlamentares ligados ao Centrão; outra operada por militares. E para a sustentação do governo Bolsonaro, tanto o Centrão, como os militares são importantes. Como o presidente poderia arbitrar a disputa sem criar enormes problemas? É, de fato, uma senhora dor de cabeça.
A disputa pelo controle de “negócios” é feroz e as informações começam a vazar. Foi lama no ventilador. (Atenção: ao admitir a hipótese de militares envolvidos em corrupção, não me refiro aqui às Forças Armadas em seu conjunto, mas a integrantes dela que, supostamente, teriam se envolvido em procedimentos, digamos, não republicanos.)

De qualquer forma, se a suspensão temporária dos depoimentos na CPI pode trazer um refresco imediato ao presidente, isso talvez seja fugaz. Pode até dar um alívio para os soluços de Bolsonaro – caso eles sejam mesmo de fundo nervoso. Mas, por quanto tempo? E depois?

A tentativa de enfrentar com ameaças as denúncias de corrupção envolvendo militares em cargos civis não resolve. A nota dos chefes militares mostrou isso. A rigor, só resolveria se vivêssemos numa ditadura aberta, o que (pelo menos ainda) não acontece, apesar dos desejos do presidente. E fica a dúvida: prevalecendo a situação atual, até quando os militares no governo poderão ser blindados? Assim, é forçoso reconhecer que, se forem mesmo de fundo nervoso, os soluços de Bolsonaro poderão voltar diante de novas contrariedades.

A situação me fez lembrar uma música gravada por Jackson do Pandeiro. Num ritmo contagiante, ela conta a história de um tal Cabo Tenório.

O cabo era useiro e vezeiro em se meter em confusão. Quando isso acontecia, distribuía bordoadas a rodo. Só se acalmava quando todos reconheciam que ele era mesmo o maioral e cantavam uma música com o estribilho: “Cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão”. Aí tudo se acalmava e voltava às boas.

Pois bem, não parece que no momento haja muita gente por aí reconhecendo Bolsonaro como o maioral – nem no papel de presidente, nem mesmo no de inspetor de quarteirão. Muito menos parece haver a gente disposta a cantar isso em prosa e verso. Assim, dificilmente Bolsonaro receberá uma homenagem como a que acalmava o Cabo Tenório.
Por isso, caso seu soluço seja de fundo nervoso, o problema pode não passar tão cedo. Talvez, até se agrave.

E crise de soluço é uma coisa muito chata mesmo.

*Jornalista

 

João Lopes

 

 

Mário Magalhães

O aniversário de 96 anos foi ontem, mas todo dia é dia de celebrar a vida de Clara Charf: tim-tim. Dona Clara, militante revolucionária, é uma gigante da história. Digo e repito: pensou em dignidade, pensou em Clara Charf.

Aqui, um texto que escrevi nos 90 anos dela, época da foto:

 

 

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