“Naufraguei, mas naveguei bem”

Foto: Pixabay

18 Junho 2021

 

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum, 20 de junho (Marcos 4,35-41). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Depois de ter anunciado aos discípulos e às multidões algumas parábolas a partir de uma barca recém-afastada da praia (cf. Mc 4,1-34), Jesus decide ir à outra margem do Mar da Galileia: trata-se de uma “saída” da terra santa de Israel para ir rumo a uma terra habitada pelos pagãos.

Por que essa decisão tão audaciosa? Porque Jesus, embora se sentindo “enviado primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel” (cf. Mt 15,24), quer anunciar a misericórdia de Deus também aos gentios, quer combater Satanás e tirar terreno dele também nesta terra estrangeira e não santa. Essa é a razão que move Jesus. Jonas, chamado por Deus para ir a Nínive, cidade-símbolo dos povos pagãos, foge, faz um caminho em direção oposta (cf. Gn 1,1-3); Jesus, ao invés disso, vai até os pagãos.

Os discípulos, portanto, iniciam a travessia do lago, “levando Jesus consigo” (expressão única, porque normalmente é Jesus quem leva os discípulos consigo: cf. Mc 9,2; 10,32; 14,33): ele está cansado devido a um longo dia de pregação e, na barca, procura um travesseiro de palha para se deitar e descansar.

Mas a vontade de Jesus é contraposta pelo mar, que é o lugar onde as forças do mal se desencadeiam em tempestade. Não esqueçamos que, para os judeus, o mar era o grande inimigo, vencido pelo Senhor quando fez o seu povo sair do Egito (cf. Ex 14,15-31); era a residência do Leviatã, o monstro marinho (cf. Jó 3,8; Sl 74,14); era o grande abismo que, quando desencadeava a sua força, assustava os navegantes (cf. Sl 107,23-27).

E eis que a potência do demônio se manifesta em uma tempestade de vento, que joga as ondas sobre a barca e tenta afundá-lo. É noite, é a hora das trevas, e o medo sacode aqueles discípulos, que já não conseguem mais governar a barca. O naufrágio já parece inevitável, mas Jesus, na popa, dorme...

Os discípulos, então, tomados pela angústia, ficam impacientes ao verem Jesus dormindo. Então, decidem acordá-lo e, com modos certamente não reverenciais, gritam: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”. Esse modo de se expressar, por si só, é eloquente: eles o chamam de mestre (didáskalos) e, com palavras bruscas, contestam a sua inércia, o seu sono. Palavras que, na versão de Mateus, se tornarão uma oração – “Senhor (Kýrios), salva-nos, estamos perdidos!” (Mt 8,25) –, e na de Lucas, um chamado – “Mestre, mestre (epistátes), estamos perdidos!” (Lc 8,24). Marcos recorda melhor as relações simples e diretas, até mesmo pouco gentis, dos discípulos com Jesus...

Diante dessa falta de fé, Jesus repreende o vento e exorciza o mar, dizendo-lhe: “‘Silêncio! Cala-te!’. E imediatamente o vento cessou, e houve uma grande calmaria”.

Esse milagre realizado por Jesus – não escapa a ninguém – tem sobretudo uma grande densidade simbólica, porque cada um de nós, na própria vida, conhece horas de tempestade. Até mesmo a Igreja, a comunidade de discípulos, se encontra às vezes em situações de contradição a ponto de se sentir imersa em águas agitadas, em ondas, em um turbilhão que ameaça a sua existência.

Nessas situações, particularmente quando duram muito tempo, tem-se a impressão de que a invisibilidade de Deus, na realidade, se deve ao fato de ele dormir, não ver, não ouvir os gritos e os gemidos de quem se lamenta. Sim, a pouca fé faz os fiéis gritarem: “Deus, onde estás? Por que dormes? Por que não intervéns?” (cf. Sl 35,23; 44,24; 59,6 etc.).

Devemos confessar: mesmo que talvez acreditemos que temos uma fé madura, que somos cristãos adultos, na prova interrogamos a Deus sobre a sua presença, chegamos até a contestá-lo e às vezes a duvidar da sua capacidade de ser um Salvador.

O sofrimento, a angústia, o medo, a ameaça à nossa existência pessoal ou comunitária nos tornam semelhantes aos discípulos na barca da tempestade. Por isso, Jesus deve repreendê-los com palavras duras. Ele não só lhes pergunta: “Por que sois tão medrosos?”, mas também acrescenta: “Ainda não tendes fé?”. Discípulos sem fé, sem adesão a Jesus: seguem-no, ouvem-no, mas não põem a sua plena confiança nele...

E eis que, diante dessas palavras tão críticas de Jesus, mas também diante do prodígio que viram com os seus olhos, aflora uma pergunta nos discípulos: “Quem é verdadeiramente este rabi, este mestre, se até o vento e o mar se submetem a ele?”.

No entanto, também desse evento eles não saberão tirar uma lição, porque, quando a grande tempestade chegar para Jesus e para eles, a hora da sua paixão e morte, eles abandonarão por causa da sua falta de fé. De fato, essa prova da tempestade no mar é um anúncio da grande prova que os espera em Jerusalém; mas, então, todos o abandonarão e fugirão (cf. Mc 14,50).

Depois, diante de Jesus morto e sepultado, verificarão um grande fracasso do mestre e do seu grupo. E somente o túmulo vazio e a contemplação de Jesus vivo, ressuscitado da morte, gerarão neles uma fé sólida, que os levará a confessar Jesus como vencedor sobre o mal e sobre a morte. Então, como testemunhas do Ressuscitado, eles também se tornarão capazes de enfrentar, por sua vez, a tempestade que se abaterá sobre eles: a perseguição por causa do nome de Jesus e da fé nele.

Quando Marcos escrevia o seu Evangelho e o entregava à Igreja de Roma, a pequena comunidade cristã da capital do império estava na tempestade e reinava nela um grande medo, a ponto de impedir àqueles cristãos a missão junto aos pagãos. Assim, Marcos os convida a não temerem a “saída” missionária, convida-os a conhecer as provações que os esperam como necessárias (cf. Mc 10,30); provações e perseguições nas quais Jesus, o Vivente, não dorme, mas está no meio deles.

A tempestade no Mar da Galileia é uma metáfora da luta contra as potências do mal, luta que Jesus Cristo venceu. Jesus, portanto, aparece como Jonas, mas um Jonas ao contrário: não relutante, mas missionário em relação aos pagãos, na obediência a Deus.

Em todo o caso, Jonas e Jesus são dois missionários da misericórdia, e ambos a pregam a um caro preço: descendo ao turbilhão das águas e enfrentando a tempestade (cf. Gn 2,1-11), porque só pela sua travessia é que se vence o mal. É por isso que Jesus dirá que só o sinal de Jonas será dado à sua geração (cf. Mt 12,39-41; 16,4; Lc 11,29-32), ou seja, a parábola da misericórdia anunciada ao preço da descida às águas da morte, ao preço de ir até o fim.

Como é cristã a frase: “Naufragium feci, bene navigavi”! “Naufraguei, mas naveguei bem”, porque aportei no reino de Deus.

 

 

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